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Sonia Travassos
Publicado em 02-Set-2010
Do que achamos graça
por Sonia Travassos

Do que achamos graça

A decisão do ministro Ayres Britto de atender ao pedido da Abert de suspender parte da lei eleitoral que proibia piadas com políticos, sem dúvida, é uma atitude saudável em um estado democrático de direito. Cabe, todavia, uma reflexão sobre o que pode vir a se transformar em um atentado aos direitos humanos das mulheres e homossexuais, sob a capa da liberdade de imprensa e opinião.

Jornalistas, como sabemos, são cidadãos/ãs como outros/as quaisquer, com seus interesses, preconceitos, valores, enfim, com visões de mundo que espelham e reafirmam a sociedade em que vivem. Não há porque imaginar, portanto, que as suas "inocentes" piadas com os políticos apenas servirão para fazer relaxar os ouvintes e tornar o momento eleitoral mais ameno.

A literatura antropológica há muito tempo mostra que grupos sociais e sociedades acham graça e riem de situações diferentes. No Brasil costumamos achar graça de piadas com negros, judeus, argentinos, homossexuais e mulheres, entre outros personagens favoritos nossos, dependendo de cada estado e/ou região do país. Não achamos graça ou fazemos piadas falando de húngaros ou canhotos, simplesmente porque estes grupos sociais não são Outros preferenciais para os/as brasileiros/as. Os grupos sociais "elegem", por assim dizer, outros grupos com os quais preferencialmente se relacionam e interagem, inclusive através de relações jocosas.

As piadas podem cumprir funções diversas em diferentes sociedades e situações. Uma das funções das piadas pode ser a reafirmação de estereótipos e preconceitos contra determinados grupos sociais. As mulheres e homossexuais são alvos frequentes dessa prática.

Não vimos até agora e, dificilmente veremos, algum/a candidato/a atentando contra a dignidade das mulheres, uma vez que, em público, somos todos/as politicamente corretos/as. Ocorre que, na forma de piadas, deixamos passar muitos dos nossos valores, preconceitos e ojerizas, achando que "são apenas piadas", que não fazem mal algum a ninguém, não configuram discriminação a qualquer grupo, servem "apenas" para nos fazer rir e relaxar.

A candidata Dilma Roussef, conhecida por sua personalidade forte e aguerrida, certamente é um alvo em potencial para a construção de piadas de cunhos machista, misógino e homofóbico. Um mulher que ousou ocupar o espaço público e ganhou notoriedade, a ponto de estar às portas de ser eleita a primeira mulher presidente do Brasil, não passará impune aos comediantes de plantão. Essas possíveis piadas podem não fazer baixar um ponto percentual sequer nas intenções de votos à candidata nas pesquisas eleitorais, nem fazer com que ela se sinta particularmente atingida.

Mas, como mulheres, hetero ou homossexuais, seremos todas atingidas por piadas que, longe de serem inocentes, reafirmam os preconceitos arraigados na sociedade brasileira contra mulheres e homossexuais. Uma sociedade onde temos assistido repetidamente ao assassinato de jovens e mulheres por ex-parceiros que se sentem no direito de puni-las por não quererem continuar os relacionamentos amorosos, não pode se dar ao luxo de deixar passar situações que atentem contra os direitos humanos das mulheres. Uma sociedade onde o número de agressões e assassinatos de homossexuais é estarrecedor, não pode suportar que se continue a achar graça de piadas que ridicularizam e ofendem os/as homossexuais.

Se a liberdade de imprensa e expressão precisa ser garantida, esse direito não deve ser assegurado às custas da reafirmação dos preconceitos contra quaisquer grupos sociais.

É aguardar e ver do que achamos graça.

Sonia Travassos é antropóloga, profa. da PUC-Rio e militante do PT/RJ

 

  
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