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Os sonhos dos jovens e do Brasil pelo trabalho
Publicado em 27-Nov-2009
Leopoldo Vieira Image ImageLeopoldo Vieira

Segundo os dados mais recentes do IPEA, 46% dos  jovens entre 15 e 29 anos estão desempregados. 50% dos ocupados entre 18 e 24 anos são assalariados informais, porcentagem que se mantém em 30% entre os que têm de 25 anos a 29 anos de idade.  Apenas 48% das pessoas entre 15 anos e 17 anos cursam o ensino médio e somente 13% daquelas entre 18 anos e 24 anos estão no ensino superior. De acordo com o Datafolha (1), 64% vivem  com os pais e 13% com parentes.

Paralelamente a isso, o Datafolha registrou o sonho do jovem médio brasileiro assentado em  terminar os estudos,  ter uma casa,  fazer família e obter sucesso profissional. O retrato foi taxativo: “Os sonhos variam pouco entre as classes de renda, educação ou região onde moram os entrevistados”.

Não chega a surpreender, então outro registro do ano passado, dessa vez do Instituto Gallup Internacional: a juventude brasileira é  a mais otimista do mundo em relação ao futuro. Por quê? Nossa fase de prosperidade (2), que se traduz, principalmente no crescimento da geração de empregos - um milhão em plena crise. Todavia, para fazer dos sonhos realidade é necessário buscar a realização do principal dele, ainda de acordo com o mesmo instituto: ter um bom emprego fixo, com carteira, numa boa empresa, com bom salário. Por outro lado, já é um consenso nacional que os jovens entram na criminalidade não pela pobreza pura e simplesmente, mas pela soma dela com a massificação de um certo um padrão de consumo.

Todos os anos, entram 2 milhões de jovens na PEA, nos termos identificados pelo IPEA e Datafolha. O desafio é responder a essas questões hoje, aqui e já, pois não se trata de personagens de histórias em quadrinhos e sim de seres humanos e, embora permeada pela busca da autonomia ou pela pressão/necessidade familiar, o certo é que a juventude brasileira quer trabalhar para realizar seus sonhos e o ponto de partida não é nada idílico.

Podemos imprimir uma nova lógica?

Os filhos dos mais ricos se preparam para ser profissionais liberais, com algum impulso da influência e/ou tradição familiar. Enquanto os das camadas populares  querem sua cooptação o mais breve possível pelo proletariado brasileiro. São processos distintos. Para os primeiros, está posto a reprodução do status quo. Para os segundos, a possibilidade de mobilidade e ascensão social, que não pode esperar.

O dilema não é a idade de ingresso no mundo do trabalho, mas a qualidade da preparação para este. Aos 15 ou aos 25, o lado de maior renda sempre tem vantagem sobre o mais pobre pelo tipo (e não exatamente a quantidade) de educação formal a que um pode ter acesso e o outro não, seja um paralelo do ensino fundamental, médio ou superior. E a quantidade de estudo como apresentada hoje – zona de corte - é uma distorção mercadológica.

Portanto, enquanto os ricos ganham postergando a entrada no mundo do trabalho para "se prepararem", os pobres só perdem em experiência, ganhos materiais acumulados e progressão funcional.

No mesmo sentido, a afirmação de que chegaremos rapidamente numa expectativa de vida de 100 anos é um exagero. Hoje, no Brasil, apenas 3 milhões de pessoas tem mais de 80 anos. Nos morros cariocas, se for negro e homem , segundo dados apresentados pelo deputado federal Ciro Gomes (PSB/CE) no seminário Juventude e Projeto Nacional, a expectativa de vida é de 21 anos.

Para imprimir a transição do jovem da categoria de necessidade rumo a da possibilidade, o importante é garantir a mobilidade social. Só que isso deve estar associado ao papel vislumbrado à juventude num projeto de desenvolvimento nacional. Para tal, há duas vias que se retroalimentam. O Ministério do Planejamento projeta que o Brasil vá crescer sustentadamente 5% ao ano numa década. O país, então, precisa de uma juventude para dar base para essa expansão. Ao mesmo tempo, essa fase da economia é o momento histórico mais oportuno para incluir a juventude no mundo do trabalho de forma decente e alterar, pela investimento geracional, o padrão societário nacional.

Os jovens das classes A, ainda pelo mesmo levantamento do Datafolha somam 4%. Da B, 27%. Os jovens mais pobres, das classes C (53%), D (14%) e E (2%), então, são o foco principal de uma política pública de trabalho específica. Esse período de desenvolvimento nacional não pode prescindir dessa força produtiva. Uma pesquisa, por exemplo, da consultoria americana John Snow Brasil, feita esse ano no DF, baseado num projeto de empresas chamado Jovem de Expressão, demonstra que a cada R$ 1 aplicado em programas sociais para tirar pessoas  entre 18 e 24 anos da inatividade por desemprego ou criminalidade, a sociedade ganha num prazo de 45 anos, que equivale a idade produtiva entre 20 e 65 anos, R$ 318 como retorno. Ademais, é uma solução estruturante para o dilema da Previdência Social.

Para chegarmos ao patamar razoável de criar 2,5 milhões de emprego anuais,  investir 23% do PIB e crescer  de 6% a 7%, é mais que imprescindível formar um potente e coeso proletariado juvenil. Do ponto de vista empresarial, ou seja, do empreendedorismo juvenil vamos bem. Pesquisa da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2008 mostrou que, do total de jovens entre 18 e 24 anos no Brasil, 15% empreendem, o equivalente a 3,82 milhões de pessoas. De acordo com o Sebrae, a taxa média de empreendedorismo jovem entre 2001 e 2008 ficou em 11,9%. Do total de empreendedores brasileiros, 25% são jovens, o que coloca o País em terceiro lugar no ranking mundial. De acordo com o relatório, 68% dos jovens empreendem por oportunidade e 32% por necessidade.

Os que empreendem (3) , por qualquer dos motivos têm em comum a busca do “lugar ao sol”. Realizam-se na atividade que desempenham, ajudam outros jovens a sair do desemprego e o país a crescer. O tempo livre não deve significar, tanto por essas questões subjetivas do jovem brasileiro, quanto pela objetividade das demandas nacionais, inatividade. Embora precisemos avançar na construção de equipamentos públicos de esporte e lazer, mecanismos atuais como a meia-entrada e o meio-passe estudantil já, de certa forma, são “mecenas” desse tempo livre para a formação e experimentação.

Politicamente, há quem acredite que adotar um programa que assuma como norte estratégico o financiamento da inatividade, a postergação da entrada no mercado para os 25 anos e implementar uma “previdência juvenil” é polarizar com um projeto de direita, capaz de “ganhar” a juventude, tanto eleitoralmente, quanto para uma visão de longo prazo, de projeto sociedade. Pelos números e dados, a única coisa que o campo nacional, democrático e popular conseguiria seria a mais brutal rejeição, caracterizada na subjetividade de pais e mães como “não querem que meu filho seja alguém na vida” e, na do jovem, como “não querem me dar chance de realizar meus sonhos”.

Leopoldo Vieira é consultor para o desenvolvimento de políticas públicas de juventude em âmbito legislativo e executivo, editor do Blog Juventude em Pauta! e autor do livro "A Juventude e a Revolução Democrática".


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Notas

1. Pesquisa Datafolha de 2008 – Sonhos, Medos, Vontades, Dúvidas e Certezas do Jovem Brasileiro - Faixa etária entrevistada:  16 a 25 anos.

2. A conquista da Copa de 2014, das Olimpíadas de 2016, a descoberta do Pré-Sal, virarmos credores do FMI, havermos liquidado a dívida externa, taxarmos o capital especulativo e ainda recebermos aplausos globais, sem símbolos dessa etapa.

3. A pesquisa mostra que o jovem empreendedor por necessidade tem renda concentrada na faixa de um a três salários mínimos e nível de escolaridade de cinco a 11 anos. Eles desempenham principalmente serviços orientados ao consumidor (70%), em segmentos como comércio e alimentação, seguidos do setor de transformação (30%), em trabalhos como pequenas atividades de manufatura e industriais. Enquanto isso, o jovem empreendedor por oportunidade diferencia-se por dispor de uma renda maior (36% até três salários mínimos; 34% de três a seis salários) e uma escolaridade maior, sendo que 25% estão cursando ou já terminaram o nível superior. Em geral, iniciam seus negócios com atividades mais especializadas, por conta de um nível maior de qualificação e renda.
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