Rose Nogueira
Rose Nogueira
Está no Brasil Tim Cahil, o pesquisador da Anistia Internacional para o nosso país. Passou por São Paulo e ouviu relatos das entidades defensoras dos Direitos Humanos em várias reuniões de muitas horas, depois de visitar uma grande favela. Não foi pouco o que ele ouviu. Hoje, Tim está no Rio e ouvirá tanto sobre injustiça e sofrimento humano, quanto ouviu em São Paulo. É que a questão dos Direitos Humanos no Brasil é espinhosa. Historicamente espinhosa.
Há poucos períodos da história brasileira sem que se encontrem violações de direitos – estudadas muitas vezes como se fossem quase naturais. É assim que sabemos que os bandeirantes abriram caminhos – na verdade seguiram os já abertos e usados pelos índios séculos antes – e isso é apresentado como feito heróico. Subjugavam tribos e nações, entravam em guerra contra os que não se submetiam, escravizavam, matavam. Da escravidão, todos conhecem alguma história trágica de açoite, tronco ou tortura até a morte. Aprendemos isso na escola rapidamente e pronto. A vida era assim – se ensina às crianças.
A riqueza era da Coroa, dos portugueses. Como todos eram humanos – embora não reconhecidos – a maioria ficou mesmo com a riqueza cultural, a história oral, a imaginação criadora, a maneira jeitosa de ser. Com o melhor, mas também com tudo o que está entre o “vire-se” e o “dane-se”.
Esse descaso com o sofrimento do outro pode também ser chamado de impunidade. Assim, a escravidão ficou impune, a perseguição aos índios mais ainda, a repressão às religiões africanas entrou para a literatura, a polícia prendendo sambista foi satirizada na letra do primeiro samba reconhecido (“Pelo Telefone” de mestre Donga), a moradia era um luxo, os morros eram o lugar onde branco não chegava, as periferias ficavam lá longe. O possível para viver ainda fica onde ninguém quer. E é lá, principalmente, que desde pequeno se aprende que quem pode menos chora muito mais.
É lá que o Estado chega com pouca simpatia. A parte que mais se conhece dele é a polícia que, ao contrário da boa educação apresentada nos bairros ricos, já chega atirando. E a juventude fica ali, apertada entre a repressão oficial e a outra, do crime organizado.
Essa situação pode mudar. Um dos caminhos é o acesso ao Estado de verdade – com todos os direitos a todos os humanos. Saúde com vida saudável, educação com ensino real, moradia com teto protetor, liberdade de sonhar. Em uma palavra: dignidade. Ou em duas: Direitos Humanos.
Rose Nogueira é jornalista e membro do grupo Tortura Nunca Mais.
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