Severine Macedo
Severine Macedo
Findo novembro, marcado pelo dia 20, o Dia de Zumbi dos Palmares, é mais do que justa a homenagem à luta do povo negro por igualdade racial. Um mês sempre recheado de atividades e debates que nos impõe algumas reflexões.
Em tempos de mudança é sempre necessário não esquecer de datas que podem fundamentar a nova sociedade pela qual lutam todos os petistas. A abrangência desta data é muito ampla, tão ampla quanto a história da população negra que começa muito antes dos navios que traficavam escravizados, como lembra Luther King.
Aqui chegaram milhares de seres humanos arrancados de sua terra mãe (e mãe de toda a humanidade), a África. A historiografia oficial tomou conta de praticar todos os esforços para dirimir e inocular uma cultura resplandecente e milenar, de glórias e desacertos, como toda história da humanidade. Mas as vozes da oficialidade permitiram e permitem apenas que as mazelas sejam reveladas, mentindo não só sobre a história do continente africano, mas também sobre a história das sociedades humanas.
Do primeiro africano que aqui deu seu primeiro grito até as novas formas de lutas que hoje podemos lançar mão, é pertinente a idéia da Consciência Negra. E mais do que isso, a consciência negra não vale apenas para um povo, mas vale sim para toda a humanidade que comunga de valores, dramas e ideais comuns.
Quando Stive Biko cunhou o termo, pensava certamente não apenas na África do Sul, mas pensava na África, na diáspora africana e em toda a humanidade. Com seu estilo único, sua paciência professoral e suas palavras certeiras, é o retrato inarredável de como o conteúdo sobrepõe-se à forma quando nossa luta tem impacto verdadeiramente transformador.
A consciência negra - mesmo para os não negros - serve para lembrar que as discriminações sempre serão deploráveis e é impositiva a luta contra as formas de desumanização de qualquer que seja o povo. É a consciência da solidariedade e da igualdade na afirmação da diferença que todos e todas devem celebrar amiúde em sociedade, é a liberdade concretizada na convivência com o “outro” (ou a outra).
Portanto, a conquista da inclusão de Zumbi dos Palmares no Panteão dos Heróis Nacionais é sem dúvida creditada aos diversos intelectuais negros da década de 1970, ao Movimento Negro Unificado e, entre outros atores e atrizes; porém esta é um avanço de todos os brasileiros que querem igualdade racial. Poder dar vivas a um herói da liberdade e da igualdade tal qual o é Zumbi é uma felicidade e um sinal de um tempo novo, cujos caminhos estão se abrindo por forças ancestrais, inclusive, mas que está inexoravelmente em nossas mãos, sobretudo nas mãos da juventude.
Nossa geração reúne um conjunto de experiências ímpares que nos dão condições de seguir juntos com mais coesão. A compreensão da luta da juventude negra contra o seu genocídio circula com muita facilidade, mais do que nas gerações anteriores. Assim também deverá ser a identificação dos heróis negros por toda a juventude: Zumbi, João Candido, Luiza Mahin, Dandara, Luiz Gama, Professor Oliveira e Oliveira, Agostinho Neto, Nzinga etc.
Que as políticas de reparação
ganhem mais repercussão
Que estas experiências não façam parte de apenas uma geração ou de um momento de nossas vidas. Que saibamos guardar e aprender com a notável organização da juventude negra que ora apresenta-se. Sabendo que a Campanha Contra o Genocídio da Juventude Negra deve ganhar mais adeptos, assim como o Estado Brasileiro deve estar mais apto a incorporar este novo conceito, justo conceito. Que as políticas de reparação ganhem mais repercussão. Que os gestores de juventude tenham maior capacidade de olhar para juventude negra como aqueles que estão mais vulneráveis à morte e que este olhar engendre ações concretas no sentido de fazer viver e promover a cidadania plena para toda a sociedade.
Algumas ações do Governo Federal apontam para isto, citarei quatro: o Programa Universidade Para Todos – Prouni, o Projovem, o Programa Farol e o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania).
Olhando para estes programas é fácil perceber como a educação é o carro chefe das políticas de igualdade racial. No Projovem, ainda que grande parte dos seus atendido/as sejam negros/as, não foi incorporada a aplicação da lei 10639 que obriga o ensino de história e cultura afrobrasileira e africana em todos os currículos escolares. É diferente do Prouni, pois este tem nítido recorte racial, há porcentagens e bolsas de estudos em nível superior específicas para negras e negros (com impacto sobre a juventude, mas sem a fixação de um recorte etário).
Na área de segurança, a educação também tem papel primordial. O Pronasci é um bom exemplo de programa com recorte racial e dialoga com uma pauta importante da recente agenda da juventude negra: o direito à vida, mas ainda não dispões de dados desagregados para medirmos os seus impactos sobre o jovem negro. Há ações na área da pesquisa, levantamento de dados, diagnósticos sobre violência etc; e um forte braço na educação com formação de policiais e de jovens no sistema prisional.
O Projeto Farol - já em estágio avançado - com foco em jovens negros em situação de vulnerabilidade social, tem a virtude de agregar experiências importantes, mas para o tamanho da demanda não pode ser considerado mais do que uma boa experimentação. Para fazer políticas públicas em nível nacional em defesa da vida é necessário mais do que os 3,3 milhões de reais investidos.
Enfim, há uma história sólida de lutas, formulações, conteúdo, movimento organizado, lideranças. É necessário agora, avançar nas mudanças, firmar o pé neste caminho e sem mudar o rumo. Sempre concretizando alianças com outros movimentos numa pauta ampla e estruturante como é a dimensão própria das relações raciais.
Mais do que homenagear Zumbi e o Dia da Consciência Negra, a nossa geração também festeja esta data e estará junto e misturada na luta da juventude negra! Para que a luta por igualdade racial e pelos direitos da população negra não seja pauta da sociedade apenas no mês de novembro.
Severine Macedo é secretária nacional de juventude do PT
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