É preciso disciplina de atleta e alma de poeta
O conselho aos jovens músicos é do maestro e pianista João Carlos Martins
"É preciso disciplina de atleta e alma de poeta"
A recomendação-título acima é do pianista e maestro João Carlos Martins, um dos mais consagrados músicos brasileiros internacionalmente, ao ser provocado a dar um conselho aos jovens músicos. Com a ousadia como uma das marcas de sua carreira, João Carlos empolga-se com a regência que fez da apresentação de Chitãozinho e Xororó, na Sala São Paulo, palco de música clássica do país. Afirma que "falta coragem" para iniciativas semelhantes e confessa que se surpreendeu pelo fato de o público habituado ao clássico ter cantado as mais conhecidas músicas da dupla.
Considerado o mais primoroso intérprete do compositor alemão Bach - de quem gravou toda a obra para piano - João Carlos aponta dois brasileiros que marcarão a história da música entre nós: Getúlio Vargas que por influência do maestro Heitor Villa-lobos a tornou parte do currículo escolar (de onde saiu nos anos 70), e o presidente Lula que mediante decreto determinou que ela seja reincorporada aos currículos de ensino a partir do ano que vem.
Nessa entrevista, o maestro conta sua trajetória e os problemas de movimento das mãos que transformaram sua vida numa saga, obrigando-o várias vezes a abandonar o que mais gosta na vida - o piano. Disposto a deixar o seu legado, João Carlos fala sobre o trabalho que desenvolve com jovens músicos formando e regendo orquestras, e também com integrantes da antiga FEBEM (agora Fundação Casa). Para o maestro não basta a "inclusão pela inclusão", é preciso inserir o jovem nos caminhos da profissionalização musical.
[ Zé Dirceu ] Maestro, qual a avaliação que você faz da música erudita brasileira hoje?
[ João Carlos ] Quando eu tinha dez anos de idade, perguntavam para mim: o que falta para a música erudita no Brasil? Aos 20, aos 30, aos 40, aos 50, aos 60, aos 69 essa pergunta continua. Na realidade, nem precisaríamos fazê-la se o que o [Heitor] Villa-Lobos implantou tivesse continuado. Não seria mais uma pergunta a ser feita. Só que Villa-Lobos trouxe a música para as escolas e ela foi tirada nos anos 70. Em 2011 ela voltará. Com isso, qualquer instituto de pesquisa daqui a cinco anos vai ver que a criminalidade diminuiu. Esse fenômeno foi vivido por outros países - caiu na China e em outras nações asiáticas. Essa é a realidade brasileira: faltou às nossas crianças com nove, dez anos de idade ter uma noção de música. Então, a música erudita no Brasil vai recuperar a partir de 2011 o que Villa-Lobos implantou.
Agora, quanto às nossas orquestras, hoje elas dependem única e exclusivamente do poder público. Nós temos uma Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) com um orçamento de quase R$ 67 milhões dos quais R$ 50 milhões são do Estado, somente de R$ 12 milhões a R$ 14 milhões vêm da iniciativa privada. A proporção é mais ou menos de 80% a 85% para 20%. A OSESP tem o mérito de ter mostrado para nossos governantes que música é um cartão de visita. Depois começaram (orquestras) no RJ, MG, SE... Só que há um grande problema: como dependem do poder público, de quatro em quatro anos aparece um mandrake que quer mudar o perfil. Agora estamos procurando fundações para mantê-las, mas mesmo assim como o dinheiro vem do governo...
Por exemplo, a OSESP acabou de fazer uma turnê pelos EUA que nem eu com a minha Bachiana Jovem faria porque seria como a vinda de uma orquestra internacional aqui no Estado de São Paulo para tocar somente em Carapicuíba, sem desmerecer a cidade pois além de ter um projeto musical lá, já fui morador da mesma. Na realidade, a OSESP deu apenas um concerto importante em Chicago. Só que essa turnê custou milhões para o governo paulista. Então, as orquestras precisam ter um parâmetro entre o poder público e a iniciativa privada. Nos EUA, a iniciativa privada é maior do que o poder público. O Brasil precisa criar essa parceria público privada.
A Orquestra Sinfônica da Petrobras é do poder público praticamente. Há uma firma farmacêutica contribuindo. O maestro Isaac Karabtchevsky – o maior regente brasileiro sem dúvidas - está fazendo um trabalho muito bom. Outra, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) agora está com o apoio da Vale e também do governo RJ.
No Brasil, nós temos
talento nato para o piano.
[ Zé Dirceu ] E o Brasil? Qual o espaço nosso país ocupa no mundo musicalmente?
[ João Carlos ] Do mesmo jeito que por aqui existe aquele cara que tem jeito para jogar futebol, o Brasil desde o começo do século passado teve um talento nato para tocar piano. Nós tivemos a maior pianista de todos os tempos, a Guiomar Novaes e nomes como Madalena Tagliafero, Jacques Klein, Nelson Freire, Artur Moreira Lima... O Brasil era um país muito ligado à pianolatria e hoje está ganhando músicos para orquestra também. Além disso, nós tivemos um dos maiores compositores da história do século XX, o Heitor Villa-Lobos com sua obra monumental, a Bachiana nº 7.
O problema é que na Alemanha, por exemplo, 60% a 70% dos jovens com talento para música tem oportunidade de estudá-la. No Brasil, destes, no máximo 3% a 4% poderão estudar música. Portanto nós, na verdade, não conhecemos o nosso potencial. Temos aí projetos de inclusão que não são de musicalização, porque os de inclusão (musical) precisam ter a música como fio condutor, com um fundo profissionalizante e não uma inclusão pela inclusão.
[ Zé Dirceu ] Como você avalia o governo Lula na área cultural?
[ João Carlos ] Na história da música brasileira, as duas pessoas mais importantes chamam-se Getúlio Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva. Foi com o Getúlio que o Villa-Lobos conseguiu implantar música nas escolas, e agora o Lula sancionou a Lei através da qual a música voltará para a escola. Música hoje é o primeiro segmento de inclusão social ultrapassando o esporte. No jogo de futebol, se você é uma pessoa não violenta pode dar e levar uma porrada no meio do jogo. Na música não. Um exemplo: Brasil e Argentina. A gente se odeia no futebol e se ama na música.
Esses foram os dois maiores passos relativos à música entre nós e foram dados nos séculos XX e XXI: o do Villa Lobos no governo do Getúlio e o do Lula por ter sancionado a Lei. Ele podia ter brecado. E o que acontece no Brasil? Nós não temos professores suficientes hoje. Teremos falta de docentes na hora em que todas as escolas implantarem a lei. Mas tudo isso acaba se adequando.
Não adianta também o Brasil ter músicos e não ter público. As duas coisas precisam caminhar juntas. No governo do Lula a música clássica continuou o seu caminho, mas ele valorizou sobremaneira as regiões. E aquela cidadezinha hoje no interior do Piauí foi valorizada. Essa é uma das coisas que eu respeito na política seguida pelo ministro (da Cultura) Gilberto Gil. Ele fez coisas positivas e outras nem tanto. Mas o governo Lula deu oportunidade, por exemplo, para que eu pudesse mesclar a relação entre o clássico e um sertanejo. Não existe música clássica ou popular. Existe música de bom gosto. Ele valorizou a democratização.
Na (área da) música clássica, o grande mérito é não ter atrapalhado. Ela segue o seu caminho e não é fácil porque são muitos egos lá dentro. Democraticamente, o Lula deixou que cada orquestra seguisse o seu caminho. Foi o que fez com a OSESP aqui e com as demais. Lula não impediu nada e os projetos de música clássica sempre tiveram uma aprovação muito rápida na Lei Rouanet. Isso foi muito bom.
Anunciam que a OSESP é muito maior
do que a Filarmônica de NY. Não é.
[ Zé Dirceu ] Quais as dificuldades enfrentadas pelo músico clássico hoje no Brasil e como podemos estimular sua profissionalização e formação?
[ João Carlos ] No Brasil, hoje, um jovem músico clássico tem perspectivas muito pequenas. Façamos uma comparação: os EUA têm cerca de 12 mil orquestras sinfônicas, contando as das universidades; nós, contando tudo, temos de 80 a 90 - posso estar errado em vinte a mais ou a menos, ou em mil nos EUA. Então, quando anunciam que a OSESP é muito maior do que a Filarmônica de NY, não é. Eu escrevi sobre isso. Por quê? Você está na Sala São Paulo e vê um músico da OSESP. No dia seguinte vai assistir a um concerto da Bachiana Filarmônica e diz “aquela cara é a mesma que vi ontem na OSESP”. Aí, você entra no sábado numa igreja e vê que o cara que está tocando no casamento é o mesmo da noite anterior. Esse é o músico clássico brasileiro. Ele está ganhando a vida. Na Orquestra Filarmônica de Nova Iorque, o músico só toca nela.
Nós temos um longo caminho a percorrer por causa da parte financeira que gera uma grande disparidade. O John Neschling (ex-regente da OSESP) chegou a ganhar – sou amigo dele – US$ 100 mil por mês, e um músico da orquestra ganhava US$ 3 mil. Essa disparidade não pode haver. Hoje o músico clássico mais bem pago no Brasil (o da OSESP) ganha em torno de R$ 7 mil a R$ 8 mil. Com os descontos, R$ 5 mil a R$ 6 mil. Então ele tem que sobreviver, daí ter outras atividades. A parte salarial é muito baixa. Por isso digo que os nossos concertos precisam de quatro movimentos: allegro, adagio, presto e o movimento de bilheteria, porque se não tiver este último não vai para frente. E o brasileiro não está acostumado a comprar ingresso para música clássica.
“A música venceu o crime, tio maestro.”
[ Zé Dirceu ] Você tem demonstrado na prática como música e cidadania podem caminhar juntas. Como é realizar esse trabalho?
[ João Carlos ] Primeiro vou te contar sobre meu trabalho na Fundação Casa, antiga FEBEM. Estou nesse projeto há dois anos. Recentemente, passei a tarde na unidade da Raposo Tavares. São experiências inacreditáveis que me emocionam muito. Da última vez em que estive lá, o pessoal da segurança ficou preocupado porque todos pularam em cima de mim. Choravam e agradeciam porque eu levei o quinteto e um cantor. Eles me pediram autógrafo na camisa. De repente, falei a eles: “hoje nós estamos aqui, mas daqui a alguns meses eu vou encontrar vocês na rua e terei orgulho de vocês. Eu tive que recomeçar minha vida. Todo mundo tem esse direito, vocês também têm.” Eles choraram.
Veja que a música tem uma influência enorme nisso. Tanto é que no Natal passado eles deixaram uma cartinha na minha casa que dizia: “A música venceu o crime, tio maestro”. Quando viajo eles pedem e eu trago videogames não violentos de presente. O trabalho com esses jovens vai extremamente bem.
E há um trabalho de inclusão que eu participo, no qual nós vamos para todos os bairros de São Paulo com a orquestra. Saímos às 8h da manhã de ônibus e de quinze em quinze dias vamos aos bairros. Outro dia fomos para o centro do PCC. Quando estávamos saindo, alguns disseram: “oi maestro...” Passamos pelos carros de polícia e eles falaram “oi maestro”. Então, através da música, por esse boca a boca e pelas exposições na televisão eu fiquei com uma missão no Brasil muito forte – a de mostrar que a música clássica além de fazer bem pelo lazer e por tudo o que traz, também pode dar algo muito forte para a população. É uma democratização. Só em 2008 foram concertos para 350 mil pessoas em recinto fechado e mais de 1 milhão ao ar livre.
Quando eu participei da missa do Padre Marcelo falei para aquele milhão de pessoas: “agora vocês vão ouvir Bach“. Elas tinham acabado de ouvir a Xuxa, Ivete Sangalo, todo esse pessoal. Então falei: “vocês vão ouvir Bach e tenho certeza de que não vamos ouvir uma mosca". E realmente foi um milhão de pessoas em silêncio, não se ouvia um choro de criança. Em todos esses lugares a força da música clássica é impressionante. Começo sempre falando “vou cantar agora o primeiro compasso de uma música escrita há 250 anos e vocês vão cantar o segundo”. Começo a cantar e eles continuam.
Recentemente, na Sala São Paulo, um garoto da Fundação Casa veio à tarde reger a Bachianna. Agora por conta do Paulo Skaff (presidente da FIESP) que adotou a Orquestra inteira, ela é a primeira da iniciativa privada no Brasil. Já tem quatro anos de vida, durante três anos foi sustentada com os meus cachês e no ano passado o SESI a adotou.
[ Zé Dirceu ] O menor que participa do projeto não reincide no crime, na transgressão?
[ João Carlos ] Nunca. Através da música fiz um trabalho junto com o Exército da Salvação e o projeto teve 15 garotos com liberdade assistida. Nenhum voltou para a FEBEM.
Não existe clássico ou popular.
Existe música de bom gosto.
[ Zé Dirceu ] Existe divisão ainda entre a música clássica e a popular?
[ João Carlos ] Quando eu levei o Chitãozinho e o Xororó à Sala São Paulo - já levei, também, um DJ - o que eu notei? Antes de começar o concerto devia ter uns 40% do público da Sala São Paulo de nariz empinado e uns 60% do público adepto do sertanejo. Começamos e o que aconteceu? Quando começou (a música) “Fio de Cabelo” estavam todos cantando juntos com o Chitãozinho e Xororó. A única coisa que falta é coragem. No momento em que juntei os dois, popular e clássico, estou fazendo o público de elite gostar do sertanejo e o sertanejo gostar de música clássica. Repito: não existe música clássica ou popular, existe música de bom gosto.
[ Zé Dirceu ] Como podemos ampliar o público e o acesso à música erudita no país?
[ João Carlos ] O primeiro passo já demos [com a Lei]. Segundo, temos que investir nos espaços que existem nos vários projetos. Acabei de ver um em Belém do Pará. No Acre, no Amazonas também há projetos. Qual o pulo do gato? É transformar todos eles no modelo venezuelano. Se conseguirmos, vencemos. O venezuelano é o melhor projeto de música clássica do mundo e não por causa do presidente Hugo Chávez. Existe há mais de 30 ou 40 anos. É de um cara chamado [José Antonio] Abreu. Ele implantou um projeto onde milhares de crianças começam um estudo na base da inclusão nas escolas, indo automaticamente para a profissionalização. Tem financiamento do Banco Mundial, inclusive, porque é um projeto vencedor. É o melhor do mundo.
Então, o que falta no Brasil? Chega dezembro, o garoto tem férias na escola e só volta em março. Até lá, esqueceu tudo. Necessitamos de um projeto pelo qual esse garoto tenha a obrigação de estudar no mínimo uma hora por dia, no máximo 1h10, com uma diretriz disciplinar. Se conseguirmos implantar essa parte disciplinar em todos os segmentos da sociedade, com o talento do brasileiro haverá um salto imenso. Estou vendo uma chance com a Fundação Bradesco. Ela tem quarenta escolas e estou desenvolvendo uma proposta para alcançarmos pelo menos 111 mil alunos. Se eu conseguir ter 3 mil alunos no Brasil que estudam música das 14h às 17h, eu formo quarenta orquestras. Mas eles precisam ter uma disciplina de estudar três horas por dia. Em 111 mil, você encontra 3 mil para estudar três horas por dia. Aí vem o elemento multiplicador.
Agora, vou deixar o meu legado.
[ Zé Dirceu ] Gostaria que você falasse um pouco de você, um exemplo de resistência, de superação, de amor à arte. No que a música te ajudou em termos de superação? O que podemos aprender disso tudo, da tua experiência?
[ João Carlos ] Está saindo agora um filme nos EUA, um documentário sobre Bach, e eu fui um dos entrevistados. Nele, eu digo: “não é como a música me ajudou, mas como a música me salvou”. Na época em que não tinha maturidade suficiente para continuar na música, tive que abandonar o piano pela primeira vez, por causa do meu problema físico. Nem podia olhar para o piano, estava com a cabeça de empresário de boxe. Mas eu sempre voltava para a música.
Na segunda vez, fiz o grande erro de ir para a política sem conhecer a política. Fui com a ambição de ficar secretário de Cultura durante quatro anos (governo Maluf). Eu achava que nunca mais voltaria para o piano. Nunca critico o passado, mas não fui pelas mãos certas. Moral da história: isso me afetou profundamente. Afetou de tal forma... Até que um dia, eu li uma entrevista com o Alfred Nobel. Quando morreu o Albert Nobel, irmão dele, a imprensa enganou-se. Achou que ele, Alfred, tinha morrido. No dia seguinte, ele leu o seu obituário. “Cara ganancioso”, “só pensava em dinheiro” e daí para baixo. Ele leu aquilo e pensou: “esse é o legado que eu vou deixar?” Aí criou o Prêmio Nobel.
Um dia, eu estava vendo a televisão e ouvi a jornalista Lilian Witte Fibe, agora uma grande amiga, referindo-se a mim como “aquele pianista da Pau Brasil”. Quando ouvi isso pensei: “Meu Deus, eu gravei a obra inteira de Bach, mas é isso que vai ficar”. Então decidi “não, agora eu vou deixar o meu legado, algo que seja um orgulho para a alma dos meus pais, para os meus irmãos, meus filhos...” E comecei a deixar esse legado. Hoje duvido que tenha alguém nesse país que faça o trabalho social que eu faço através da música. Falo de coração porque é um trabalho muito forte, emocionante, desde a primeira até a última hora do dia.
A música me ajudou muito. Eu tenho um problema físico que piora dia a dia e não sei mais por quanto tempo consigo tocar, um ou dois anos - porque vai fechando. Há outros com problemas físicos mil vezes maiores do que o meu, mas pela minha exposição acabei servindo de exemplo para milhares de pessoas. Chego no aeroporto e alguém diz: “eu não me suicidei por sua causa”. Outro dia alguém me falou: “Eu vim aqui porque decidi continuar vivendo. Amanhã vão me tirar as duas mãos.” Ouço isso diariamente, o que aumenta muito a minha responsabilidade e das minhas ações. O resultado tem sido profundamente positivo. Tenho coragem de falar que antigamente eu tocava numa escala, 21 notas por segundo. Hoje, em cada 21 segundos eu toco uma e sou feliz do mesmo jeito.
[ Zé Dirceu ] Como foi a experiência de participar do documentário “A paixão segundo Martins”?
[ João Carlos ] Isso também me ajudou a continuar. Uma das maiores revistas do mundo, que você conhece bem, a alemã Der Spigel fez uma reportagem de seis páginas em 2002, quando eu parei de tocar piano dizendo “obrigado, João Carlos pelo que você fez por Bach”. Um brasileiro ouvir isso é bárbaro. Tanto que no dia 07 de julho, estarei presidindo um concurso de Bach em Leipzig. O concurso é como se fosse uma Copa do Mundo de Bach, ocorre de quatro a quatro anos.
Em termos de um brasileiro ser reconhecido na Alemanha tocando Bach é algo muito forte para mim. Depois que saiu a revista, vieram me convidar para fazer o documentário e teve um momento muito emocionante na minha vida, porque eu falei “não vou fazer, parei de tocar piano, não vai ter interesse”. Acabei fazendo o documentário e a diretora Irene Langemann avisou que ia levá-lo a um dos festivais mais importantes do mundo nesta área, o de Biarritz. Ela me convidou e não dava para eu ir. Na hora em que iriam anunciar a premiação, ela me telefonou. Eu ainda perguntei “você tem expectativa?” e ela respondeu “não, mas estou dividindo com você a minha frustração”. Aí o cara anuncia o vencedor: “Die Martins-Passion”. Eu comecei a chorar que você não imagina! Depois o filme ganhou vários outros festivais.
Neste 2010, vou começar a fazer um roteiro de um filme sobre a minha vida. Será forte. Já começamos a pegar cenas no dia 20 de setembro do ano passado. E dia 21 de setembro deste ano farei um concerto no Lincoln Center (Nova York), com a presença do presidente Barack Obama. Acho que será emocionante. Vou reger Villa-Lobos e [Alberto Evaristo] Ginastera que é o maior compositor argentino. Os dois são os maiores compositores clássicos da América Latina. Há 50 anos, fui convidado para tocar um concerto de Ginastera que é um dos mais difíceis da história. Toquei, mas hoje não posso mais tocar. Então vou reger o concerto e quem vai tocar é o Arthur Moreira Lima.
[ Zé Dirceu ] João, qual o seu conselho para os jovens pianistas?
[ João Carlos ] Uma menina estava na rua 27 em Nova York. Ela tinha acabado de chegar na cidade e não sabia que era por numeração. Então, ela encontrou uma velhinha judia e perguntou: “eu estou aqui saindo do metrô, como chego até o Carnegie Hall?” A velhinha respondeu: “estude!” O conselho que dou é esse. A única forma de vencer como pianista é uma disciplina de atleta e uma alma de poeta, porque sempre é preciso o sonho de realizar a música.
Veja o exemplo do Chitãozinho e Xororó. Eles cantam com amor, com o coração. Eu também toquei com o coração. O resultado sempre é mágico. O segredo é manter uma verdadeira disciplina. Quantas manhãs com adversidades você não acorda e diz “hoje não estou disposto”? Mas depois você ganha coragem. Música ou é fácil ou é impossível, nunca é difícil. Mas depois que é fácil, você precisa de horas de estudo.
[ Zé Dirceu ] Depois de tantos anos dedicado à música, Bach ainda é o seu músico preferido?
[ João Carlos ] Bach em alemão quer dizer riacho. Beethoven dizia: “que pena que o nome dele é riacho, deveria ser oceano”. Bach foi a grande catedral. Temos as grandes igrejas que são Beethoven, Mozart... Quando o Pelé foi lá em casa para o documentário, eu falei: “Pelé, acabei de ouvir no vôo de Amsterdã para Pequim você falando que Deus criou Beethoven para a música e Pelé para o futebol. Na próxima vez você começa a falar que Deus criou Bach para a música e Pelé para o futebol, porque Beethoven é um Maradona".
[ Zé Dirceu ] Existe uma peça musical que te emocione mais do que outras?
[ João Carlos ] Tem. É como um ator numa peça de teatro. Ator verdadeiro de teatro pode representar 500 vezes uma peça, mas quando passar por um determinado momento, ele vai chorar as 500 vezes, porque não está fazendo nada automatizado. Da mesma forma que uma peça tem momentos mágicos, na música é a mesma coisa. Beethoven compôs a Nona Sinfonia que tem momentos fantásticos, mas em alguns houve uma junção entre a razão, o coração e Deus. (Na Nona) acontece alguma coisa, momentos mágicos. Algumas peças na música clássica têm esses instantes fantásticos. Por exemplo, em Bach, tem uma peça chamada Variações Goldberg que são momentos mágicos dele.
“Nós vamos nos casar depois
que você aprender a tocar piano”
[ Zé Dirceu ] Por que o piano?
[ João Carlos ] Por causa do meu pai. Aos dez anos de idade, ele queria ser pianista mas trabalhava numa gráfica. Era um trabalho escravo no começo do século XX, na cidade de Braga em Portugal. No caminho para a gráfica, meu pai sempre parava diante de uma janela para espiar uma aula de piano. Um dia, a professora disse: “vou te dar aula de piano”. Mas três dias antes dessa aula, ele decepou parte da mão na impressora da gráfica e jamais pode ser pianista.
Meu pai veio para o Brasil. Foi caixeiro viajante no começo e depois conheceu minha mãe, em Ribeirão Preto. Ele se apaixonou por ela e disse: “nós vamos nos casar depois que você aprender a tocar piano”. Cidade de interior, 1930, você imagina! Depois de três anos foram falar para o meu avô: “esse português está enrolando sua filha. O cara não quer nada”. Aí, minha mãe chegou para o meu pai e disse: “esse negócio de ter que tocar Beethoven... O máximo que eu posso aprender é violão e depois de casar”. Aí ele casou com a minha mãe. Então, a origem vem dele e a parte de formação cultural também.
Quanto nós tínhamos oito anos, meus irmãos - Ives Gandra Martins e José Eduardo Martins - e eu tínhamos que ler livros de otimismo de um humanista americano chamado Orison Swett Marden. Papai tinha uma biblioteca grande com todos os livros dele naquela linha “você é um vencedor”, “nunca admita derrota”, esse tipo de livros. Certo dia, eu abro o jornal e vejo “Orison se suicidou”. O cara se matou! Meu pai se perguntou “como?!”
Na verdade, nossa família teve uma formação intelectual forte. Então, tudo o que acontece comigo é reflexo dessa formação.
Professor Catedrtico da antiga Universidade do Brasil. hoje, UFRJ, na matria de composio.
Dirigiu diversas orquestras pelo mundo.Compositor de escol.
Parabns pela trajetria linda de vida.
Maria Tereza
Fantstica entrevista desse maestro que orgulha nosso Pas, com as perguntas certas na hora certa do brilhante Z Dirceu.
Parabns!
[Comentar]
"Brasil não deve retornar ao atraso".
Meio ambiente: ator do desenvolvimento.
"É hora da esquerda voltar a pensar estrategicamente".
Por um Estado que planeje e execute.
PT: uma trajetória vitoriosaJosé Eduardo Dutra, presidente eleito do PT, faz balanço dos 30 anos de partido.
É preciso disciplina de atleta e alma de poeta.
"Há vários modelos de agricultura no Brasil".
"A mídia brasileira é o pior dos mundos" .
"Querem desmoralizar quem faz luta social nesse país".
No Brasil, não faltam personagens.
veja mais [+]


Comentrios[9]