A política em 2010

(Artigo publicado no Blog do Noblat em 31 de dezembro de 2010)

Encerramos 2010 com a certeza de que o povo brasileiro sabe o que é melhor para seu destino. Fiz uma pequena lista das conquistas destes oito anos de Governo Lula e, sob todos os aspectos, em todas as áreas, avançamos muito.

Muitos críticos tentam ressaltar problemas, defeitos e dificuldades como forma de macular esse período de inegáveis melhorias. Mas é preciso lembrar que os planos e ideias só existem como concepções teóricas e colocá-los em prática requer habilidade, sensatez, criatividade, flexibilidade e percepção das mudanças que os acontecimentos nos impõem.

O Governo Lula teve essas qualidades, e a perspectiva histórica permite identificá-lo como importante marco para o assentamento das bases de um país novo, moderno, desenvolvido, fortalecido e, principalmente, mais justo e igual.

Seria enfadonho aqui, neste momento, detalhar uma a uma as transformações deste governo —do Bolsa Família à geração de 15 milhões de empregos; da retomada do papel do Estado de planejar, executar e gerir grandes projetos à aprovação no Congresso Nacional de novas legislações que oxigenaram a economia; dos avanços em Educação e Saúde à nova realidade energética e ambiental.

O mais importante desse período é que o povo reconheceu esse trabalho árduo, incansável e que não se afastou um milímetro do seu maior objetivo: atender à sociedade brasileira. O reconhecimento se deu na eleição da primeira presidenta da história do Brasil, Dilma Rousseff —um governo que começou fazendo história com seu primeiro “homem do povo” na Presidência terminará com a transmissão do cargo para uma mulher!

O processo eleitoral foi desgastante e com dissabores que não se imaginava. Não pelas dificuldades políticas, mas pela pauta despropositada que a oposição encampou na tentativa de derrotar um governo de amplo apoio popular. As chagas desse processo, contudo, recaem sobre a própria oposição que terá de repensar sua forma de atuar daqui para frente, pois a maior aliança político-partidária da história saiu vitoriosa das urnas.

E as perspectivas no horizonte para o próximo governo são positivas. Os dois maiores institutos de pesquisa do país revelam que a grande maioria da população está confiante na gestão Dilma. No Ibope, 62% dizem esperar um governo ótimo ou bom; no Datafolha, são 73%.

O apoio popular e no Congresso empresta legitimidade e responsabilidade para a realização de difíceis reformas —como a política e tributária— e aceleração das transformações —na Educação, Saúde, Segurança, infraestrutura e combate à miséria. Alguns temas ainda podem ser considerados tabus, dadas as raízes históricas que possuem, mas há espaço para enfrentá-los.

Trata-se de um horizonte condizente com um governo que se encerra com a aprovação de quase nove em cada dez brasileiros, além de um presidente que entrará para a história como o mais popular que o país já teve. Que 2011 chegue para todos nós com essa chama positiva e promissora de um Brasil diferente que começamos a construir junto com o povo. Obrigado, presidente Lula. Sucesso, presidenta Dilma.

E Feliz Ano Novo para todos!

 

A economia em 2010

(artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 30 de dezembro de 2010)

Um breve olhar sobre nossa economia em 2010 revela que fizemos história. O melhor Natal em vendas dos últimos dez anos reflete um crescimento do PIB (7,5%) como não acontecia desde 1986, impulsionado pelo mercado interno fortalecido, o que guarda relação muito próxima com a expressiva expansão da geração de empregos com carteira assinada – 15 milhões nos oito anos de Governo Lula, 2,5 só neste ano.

Parte significativa do que ocorreu neste ano tem sua origem em decisões mais do que acertadas em 2009.

Para enfrentar a crise, ao contrário do que recomendavam diversos analistas e sem temer o extremo – e calculado – pessimismo alardeado pela oposição, o Governo Lula optou pela ousadia e colocou o Estado na condição de carro-chefe da economia.

O mesmo espírito foi mantido ao longo de 2010. Não foi o discurso da timidez que fez o país atravessar a crise.

O PAC, a atuação das estatais, a desoneração temporária de certos segmentos da economia e o investimento produtivo público que cresceu confirmaram o Estado como indutor do crescimento.

Ainda que haja a necessidade de ampliar a taxa de investimento no futuro, o investimento público direto na economia, segundo estudo recente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), chegou a 4,38% do PIB em 2010 – a mais alta desde 1995.

O setor privado, via bancos, também começa a responder positivamente à demanda, como demonstrado por este Brasil Econômico desde julho. Os empréstimos produtivos tomados junto à rede privada, segundo o jornal, chegaram a R$ 511 bilhões no primeiro semestre, algo inédito.

Neste capítulo, em particular, ainda devemos enfrentar o debate sobre como transformar a alta lucratividade desse setor em mais investimentos produtivos – desafio desde já colocado na pauta.

Os números mostram também que nossa ascensão é fruto de uma atuação mais agressiva por parte do BNDES, mas não significa necessariamente acomodação do setor privado.

Fortes taxas de investimentos produtivos são essenciais para a fase em que o Brasil se encontra e que planeja adentrar.

A expansão da economia precisa ser acompanhada pelo aumento da capacidade produtiva de nosso parque industrial e pela modernização da infraestrutura, fundamental para que a demanda não pressione as taxas inflacionárias. Taxas que, para além de medidas pontuais de contenção do consumo, devem ser enfrentadas no longo prazo com projetos de expansão da oferta.

Também em 2010, conhecemos o problema cambial, em grande parte criado pela máquina dos EUA de imprimir dólares, para repassar a conta da bolha imobiliária que abalou a economia como não se via desde 1929.

Usando como argumento central a necessidade de ampliar os investimentos produtivos, a equipe econômica do governo Dilma tem dado sinais de controle de gastos para reduzir a relação dívida/PIB e cortar juros.

Aliás, o Brasil certamente tem de investir na contínua redução da taxa básica de juros como meio de diminuir o peso da dívida pública. Que a austeridade anunciada pela equipe econômica esteja a serviço desse objetivo.

 

Um feliz 2011 a todos!

 

Urgência no setor aéreo

(artigo publicado no Blog do Noblat em 24 de dezembro de 2010)

A ameaça de greve dos trabalhadores do setor aeroportuário —felizmente debelada por hora— é mais um elemento que reforça a necessidade de medidas urgentes nessa área estratégica. As melhorias de curto prazo realizadas durante o Governo Lula já se mostram no limite de esgotamento. A conclusão é que precisamos adotar o modelo de concessão por outorga nos principais aeroportos do país.

Os últimos anos foram marcados por sucessivos aumentos no número de vôos, consequência das políticas de valorização do poder aquisitivo e de formação de um mercado interno robusto. Mais que dobramos o volume de embarques no país em uma década. E a perspectiva é de que esse processo continue —o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estima que o setor triplique em duas décadas. Em 2014, seremos sede da Copa do Mundo e, em 2016, das Olimpíadas, o que torna a necessidade de investimento inadiável.

É preciso construir novos aeroportos e ampliar, reformar e modernizar os atuais, tanto para atendimento de passageiros, como para transporte de cargas. Ademais, carecemos de uma ampla reforma na Infraero e também de políticas inovadoras na Anac. Contudo, a União não possui recursos para promover tais avanços.

Assim, há duas alternativas no horizonte que atendem aos requisitos de urgência e carência de recursos públicos. A adoção do modelo de PPPs (Parcerias Público-Privadas) ou, preferivelmente, fazer esses investimentos via concessão pública de aeroportos. As duas opções têm a vantagem de atrair a iniciativa privada, em um setor altamente promissor, mas sem os efeitos nocivos da privatização em uma área estratégica — a Infraero e os aeroportos seguirão públicos e beneficiados pelos recursos das concessões.

O modelo de concessão já é experimentado com sucesso em portos e rodovias federais. Em aeroportos, será testado pela primeira vez no aeroporto de São Gonçalo do Amarante (RN), que se constituirá o principal centro aéreo do Nordeste e importante pólo nacional. Podemos expandir a experiência para centros que operam em vários momentos além de suas capacidades, como Cumbica (SP) e Santos Dummont (RJ), por exemplo.

Hoje, a Infraero se desdobra para gerir 67 aeroportos, 80 unidades de apoio e 32 terminais de carga. Mas quase a totalidade da receita vem dos 12 maiores aeroportos. São terminais atraentes à iniciativa privada, o que permitirá ao Poder Público conseguir recursos das concessões para investir em aeroportos secundários, mas igualmente importantes para a construção de uma malha aeroportuária moderna e condizente com o Brasil que se projeta aos próximos anos.

Para benefício da população, por razões de segurança e devido ao perfil estratégico que têm, é importante que as concessões deixem sob o controle público serviços de alfândega, Polícia Federal, controle de imigração, Anac, Infraero e conselhos tutelares. Além disso, as concessões mantêm o setor sob o guarda-chuva do Ministério da Defesa, da Infraero, da Anac e do Conac.

Sem concessões, não vejo como atender com eficiência, conforto e agilidade a demanda de passageiros em alta. Também se torna inconcebível reorganizar o transporte de cargas, melhorar os serviços nos aeroportos e equipar o país com a infraestrutura mais adequada à Copa-2014 e às Olimpíadas-2016. Sem dúvida, é a melhor (talvez a única) saída que temos para Estado, trabalhadores, entes privados e sociedade.

 

Indústria competitiva

(artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 23 de dezembro de 2010)
 
A última ata do Copom foi um verdadeiro balde de água fria nos setores do mercado que tradicionalmente apostam, porque lucram muito, no aumento da taxa Selic. Principalmente porque sinalizou que o Copom ainda espera os efeitos das medidas de elevação do compulsório e restrição ao crédito para saber se é preciso ampliar os juros. Como já sustentei outras vezes, não podemos e não devemos combater inflação com alta de juros. Nosso desafio é ampliar a produção nacional e atender à demanda elevada —que, de resto, é desejada em um ambiente de crescimento econômico.
 
O índice Fiesp de Competitividade das Nações 2010 —que usa dados de 2009 para o Brasil— reforça esse diagnóstico. Bússola interessante para a indústria, o índice revela que, hoje, o Brasil está em 36º no ranking, tendo aumentado sua posição em relação aos levantamentos anteriores —a referência é 1997. Sabemos que a posição está aquém de nosso potencial: entre os BRICs, estamos à frente apenas da Índia; na América Latina, ficamos atrás de Argentina, Chile e México. Mas nossa posição atual reflete o acumulado das políticas de 20 anos, ou seja, temos condições de melhorar quando as políticas mais recentes impactarem no levantamento.
 
De todo modo, o Brasil aumentou sua nota devido a dois fatores principais: 1. poupança doméstica e gasto com Educação (em % do PIB) maiores; 2. Melhoria em infraestrutura rodoviária, ferroviária, aeroportuária e de telefonia fixa. Os países que mais avançaram (Rússia, República Checa e China) têm em comum um grande aumento de produtividade industrial e gastos elevados com pesquisa e desenvolvimento —a Rússia parte de uma base muito inferior, da crise de 1998. Em resumo, para ganhar competitividade, o Brasil deve: 1. Ampliar o PIB per capta; 2. Melhorar o IDH; 3. Investir pesado em pesquisa, inovação e tecnologia; 4. Resolver entraves burocráticos à produção e ao comércio; e 5. Reduzir o spread, que aumenta o custo do capital de giro —a queda da Selic sob o Governo Lula não foi acompanhada pela diminuição do spread.
 
Obviamente, nossa complexa e elevada tributação e o real valorizado são igualmente problemas que impactam na competitividade do produto brasileiro, bem como a dificuldade de transformar investimento educacional, que cresceu, em exportação de manufaturados de alta tecnologia. Temos atuado para reduzir esses problemas: o PIB vem crescendo, os indicadores sociais também e temos as obras dos Planos de Aceleração do Crescimento para sanar problemas de infraestrutura.
 
Resta-nos reduzir os juros, fazer a reforma tributária e exigir um spread menor, para melhorar o ambiente de negócios. Adicionalmente, a indústria precisa crescer nos próximos anos. O Governo Dilma já mostrou que trabalhará com uma nova Política de Desenvolvimento Produtivo, que desonere o setor, mas que também exija contrapartidas como metas de geração de emprego, redução de preços e, principalmente, investimento em tecnologia e inovação. Esse é o caminho para, na próxima década, figurarmos entre as nações mais competitivas do mundo.

 

Desenvolvimento em infraestrutura

(artigo publicado na revista Voto em dezembro de 2010)

 
Uma dos setores de maior necessidade de investimento é o de infraestrutura, tanto para criar no país as condições necessárias de crescimento na casa dos 5,5% ao ano, quanto para modernizar e reorganizar uma rede logística que recebeu pouca ou nenhuma dedicação dos governos por décadas. O resultado é que só começamos a recuperar essa rede a partir do Governo Lula.
 
Hoje, discute-se obras de grande magnitude em diversas áreas: da geração e exploração de fontes energia à distribuição de eletricidade; da ligação entre regiões por ferrovia à duplicação e melhoria de rodovias; da importância de se recuperar a indústria naval e os portos à urgência do setor aeroportuário. Em suma, o Governo Dilma Rousseff nasce com uma nova agenda em infraestrutura e com a missão de realizar essas transformações até 2014.
 
Há quem difunda a proximidade de um “apagão logístico”, mas o alarme é totalmente improcedente, porque depois de muitos governos temos um planejamento estruturado e detalhado do que deve ser feito nas diferentes áreas logísticas. E mais: esse planejamento já está em curso. Assim, o Governo Lula se encerrou com a superação de entraves imediatos, deixando para Dilma realizar um conjunto de obras e ações de médio e longo prazos —15 a 20 anos.
 
Essa realidade se expressa, entre outros fatos, no salto gigantesco da produção exportadora nacional, que bateu recordes seguidos, sem que houvesse qualquer risco de paralisação logística. Aliás, frise-se, a alta das exportações se deu em um contexto de forte crescimento do mercado interno, mais um fator de pressão da infraestrutura. Isso só foi possível porque já no início do Governo Lula foram lançados os planos de Revitalização Ferroviária e Emergencial de Trafegabilidade e Segurança nas Rodovias, em seguida acompanhados da Agenda Portos —a retomada da indústria naval no Sul do país confirma o êxito dessas ações.
 
Em 2007, com o Plano Nacional de Logística e Transportes, projetamos investimentos até 2023. Ao todo, serão R$ 290 bilhões destinados à modernização da malha de transportes de mercadorias e de passageiros, etapas do desenvolvimento nacional compreendidas nos PACs 1 e 2 (Planos de Aceleração do Crescimento). Para se ter uma ideia, a previsão de investimento é de R$ 2,2 trilhões em obras até o final de 2014 —alguns exemplos são Trem-Bala, Transnordestina, Ferrovia Norte-Sul, Transposição do São Francisco, Complexo Santo Antonio-Jirau e Hidrelétrica de Belo Monte.
 
São realizações imprescindíveis a um país que almeja ser a 5ª economia do mundo em 2020 e que irá sediar a Copa-2014 e as Olimpíadas-2016. Não será possível, inclusive, receber esses dois grandes eventos esportivos sem ampliar a capacidade e modernizar a rede de portos e aeroportos. Para tanto, o modelo de concessões de aeroportos se mostra a única alternativa, porque consegue atrair a iniciativa privada para modernizar nossa infraestrutura aérea com a agilidade que precisamos.
 
Como parte dos esforços para desenvolver nossa rede logística, será preciso igualmente equipar as grandes cidades com transporte público de massa, como prevê o capítulo “mobilidade urbana” do PAC 2. Quanto mais afinidade com os governos estaduais houver, mais eficazes serão os resultados.
 
Avançamos nos últimos oito anos como não fazíamos há décadas. Mas temos a oportunidade histórica de pisar no acelerador de um projeto de Brasil desenvolvido, em que a perspectiva de resolução de antigos problemas de infraestrutura é animadora. Sem sombra de dúvida, o Governo Dilma cumprirá esse objetivo.

O papel do turismo

(artigo publicado na Revista Nordeste em dezembro de 2010)
 
O contexto em que o Brasil está inserido —referência mundial por seu crescimento econômico, autonomia diplomática e realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas, além de um mercado interno aquecido— certamente criou possibilidades ao turismo, área que já emprega cerca de 8 milhões de pessoas. Trata-se de incentivo para mobilizar os setores público e privado a fazer investimentos em nossas estruturas turísticas —de grande potencial, haja vista a projeção de que, nos próximos anos, centenas de milhares de turistas estrangeiros visitarão o Brasil.
 
Considerando um recorte regional, o Nordeste tem tudo para ser beneficiado. Afinal, estamos falando de uma região com vasto patrimônio histórico, emoldurada por uma beleza natural exuberante e um histórico recente de desenvolvimento socioeconômico notável, com alta geração de empregos e aumento da renda. O nível de crescimento nacional permite-nos considerar ainda o peso do turismo interno. Historicamente, o Nordeste é a segunda opção de destino para as férias das classes A e B —a primeira é o exterior quando o câmbio é favorável. Assim, a partir de uma melhoria considerável da estrutura atual, é possível conquistar também turistas brasileiros.
 
Tanto o Poder Público, quanto o privado, tem muito a fazer para que exploremos o potencial turístico ao máximo. É necessário revitalizar —e conservar— patrimônios históricos e ambientais, aumentar a rede e o padrão do setor hoteleiro, ampliar a oferta e a qualidade do nosso transporte urbano de massa e remodelar nossa infraestrutura de portos e aeroportos.
 
A evolução do número de desembarques no Brasil entre 1995 e 2006 mostra que houve um salto de cerca de 17 milhões para 46,3 milhões. Isso se explica pelo crescimento e mobilidade social experimentados pelo país no Governo Lula. Por outro lado, pressionará mais o setor de transporte aéreo (de cargas e passageiros), o que nos obriga a acelerar as obras de adequação e reestruturação dos terminais. A primeira concessão de aeroportos no país —São Gonçalo do Amarante (RN), que será importante centro aéreo nacional— somada ao anúncio da presidenta, Dilma Rousseff, de criar a Secretaria Nacional da Aviação Civil, a partir de 2011, revela que estamos avançando nesse caminho.
 
Possuímos ainda graves e antigos problemas como saneamento precário, transporte público de massa obsoleto e insuficiente, conexões rodoviárias inadequadas à realidade atual e ao crescimento projetado, além das dificuldades de escoamento da produção. São entraves que estão sendo enfrentados com a realização de obras que integram os maiores programas de infraestrutura dos últimos 40 anos no Brasil: os PACs 1 e 2 (Programas de Aceleração do Crescimento).
 
As duas edições do PAC contêm outras obras com impacto no turismo, mas é necessário que os Estados e municípios, junto com o Ministério do Turismo e em parceria com a iniciativa privada, adotem programas específicos de valorização das peculiaridades locais, para ampliar os atrativos à região. Ademais, geograficamente, o Nordeste está em vantagem para atrair turistas europeus —Natal, por exemplo, está a uma distância de cerca de seis horas de vôo de Portugal. A localização favorece também roteiros para cruzeiros marítimos cujos destinos ou os pontos de embarques sejam as capitais nordestinas.
 
Convém, assim, estruturar a região para acentuar seus potenciais turísticos. Mas esse desafio só será de fato valioso, e bem atendido, se conseguirmos fazer dessas atividades —no caso, o turismo— um instrumento de desenvolvimento socioeconômico. Se não soubermos conferir ao turismo o papel de catalisador da valorização da cultura local e de um salto na educação, tão necessário ao Nordeste e ao Brasil, teremos repetido o velho filme da exploração de nossos recursos —humanos e naturais— sem ganhos estruturais ao país.
 
O Nordeste tem o direito a ser ressarcido por sua história de colaboração com o restante do Brasil. E só há um caminho possível para essa retribuição: fazer o Nordeste se desenvolver definitivamente. Pensar o turismo na região é, enfim, pensar um Nordeste desenvolvido.
 

Luis Nassif: Oposição levará anos para se refazer no país

A conclusão é do jornalista especializado em economia Luis Nassif, em sua análise sobre a disputa presidencial deste ano e, sobretudo, da campanha suja explorada pela oposição e seu candidato derrotado José Serra (PSDB-DEM-PPS) em 2010.

Em uma avaliação suscinta, nesta entrevista, Nassif aponta o que deve ser mudado no panorama econômico do país, em especial nas áreas de câmbio e juros. Traça, também, um perfil da mídia brasileira no decorrer dos últimos anos e do papel lamentável a que se prestam alguns jornalistas.

Para Nassif, a imprensa hoje é linha auxiliar de partidos políticos, uma realidade que pode e deve ser combatida com concorrência e, sobretudo, um marco regulatório para que direitos elementares, como o de resposta, sejam garantidos à sociedade.

Um dos blogueiros mais respeitados do país (acesse o blog do Nassif), ganhador de vários prêmios, como o de “Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita” dado pelo site Comunique-se em 2003 e 2005, Nassif também fala da força da Internet hoje em termos da liberdade de imprensa e de garantia de maior democracia.

[ Dirceu ] Nassif, gostaria que você fizesse um balanço da campanha eleitoral deste ano, em especial, do papel assumido pela oposição ao governo Lula e pelo candidato derrotado nas urnas, José Serra.

[ Nassif ] Do ponto de vista estratégico, a partir do momento em que ficou claro o projeto político e econômico do governo Lula, de somar todas as forças, solucionar os conflitos entre as classes e priorizar o desenvolvimentismo, a oposição ficou absolutamente sem discurso. E a crise de 2008 foi fundamental para isso.

Eles entraram na campanha com certa unidade em torno de questões como o aparelhamento e a redução do Estado. Um discurso do ideário neoliberal, vazio, mas tido como aglutinador das “bandeiras” da oposição. Este poderia ter sido o contraponto ao projeto do governo. Mas, a partir do momento em que José Serra assumiu a candidatura oposicionista, não se tem mais oposição, apenas impulsos. Serra tornou-se uma biruta de aeroporto. A impressão que dá é que ele hibernou no começo dos anos 90 e somente agora acordou. Ele não tem nenhuma proposta inovadora e nenhum tema. A única questão apresentada – e que não é dele, é coletiva – foi a da política do câmbio. Mas nem esta o Serra soube desenvolver.

Assassinato de reputações

Sem discurso e incapaz de se posicionar no Centro-Direita – que lhe seria o mais adequado – o tucano partiu para a única coisa eficiente feita por eles nesta disputa: a campanha pela internet. Apesar de, com ela, ter estigmatizado toda a oposição. Um grupo de franco atiradores começou a ser montado há quatro anos para isso. Na realidade, um partido de milicianos de Santa Catarina, que já tinha uma estrutura a oferecer, foi o responsável por uma das páginas mais sujas da história política brasileira, de ataques difamatórios e tentativas explícitas de assassinato de reputações.

Não é à toa que quando terminou a eleição, a grande preocupação não foi com a oposição, mas como reconstruí-la. Oposição é fundamental em qualquer governo, desde que seja legítima. O mal que o Serra fez à oposição brasileira é imensurável. Ela levará anos para se refazer.

 

Reforma para dar eficiência ao Estado
[ Dirceu ] A vitória da presidente eleita Dilma Rousseff ocorreu com o compromisso de que ela dará continuidade ao modelo de desenvolvimento implantado pelo governo Lula. Na sua visão, o que deve continuar e o que deve mudar já?

[ Nassif ] Nos últimos anos, tivemos mudanças importantes na ação federativa. Havia alguns insights no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, de como montar políticas ouvindo todas as partes. Com o PAC, o programa “Minha Casa, Minha Vida” e o trabalho no saneamento etc, conseguiu-se montar um modelo federativo com projetos que se aplicam independentes de questões partidárias.

Agora, precisamos de uma reforma para dar eficiência administrativa ao Estado. Se pegarmos a estrutura pública, ao longo dos últimos oito anos, vemos que houve uma reconstrução de estruturas técnicas. Por ser tudo gambiarra, elas se concentravam na Casa Civil, até para ter efetividade nas ações. Precisamos, portanto, de uma reforma moderna do Estado, à semelhança do que [Nelson] Rockefeller fez nos Estados Unidos nos anos 50. Este é o primeiro ponto.

O segundo ponto, sem dúvidas, é o Banco Central. Mudar essa ideia de termos quatro anos para reduzir a relação dívida/PIB. Até porque a equipe [econômica] para reduzir os juros vai ser atropelada pelos fatos. A minha esperança é que o discurso de que tudo será gradativo seja simplesmente tático, porque você não pode anunciar previamente o que será feito, já que a área é nervosa. Mas, reduzir mais rapidamente essa relação dívida/PIB é fundamental. A herança maldita do governo FHC para o governo Lula foi o desastre da desindustrialização; já a do Lula para o governo Dilma é a manutenção desta política cambial. Todos os avanços que tivemos foram fantásticos, mas esta questão atrasou o Brasil em quinze anos, no mínimo.

[ Dirceu ] Como você avalia a atuação do BC na era Meirelles? O que esperar do novo presidente Alexandre Tombini?

Image[ Nassif ] O [Henrique] Meirelles é um fanfarrão. Antes de assumir o Banco Central, em algumas palestras nos Estados Unidos, ele comentava sobre a importância do câmbio para garantir o crescimento. Depois,  assumiu a presidência e uma posição de dificultar a redução dos juros. O Tombini é tecnicamente muito mais sólido. Como é seguro tecnicamente, ele se dá ao direito de ser mais flexível no sentido de não tratar dogmaticamente a política monetária. Temos que mudá-la em muitas coisas. Se deixar como está, hoje, a existência de metas de inflação e só juros para segurar eventuais descontroles, em qualquer hipótese, não tem contas públicas que resistam. Há outras ferramentas que podem ser utilizadas sem concentrar renda.

Querem manter os juros elevados com a justificativa de alta da inflação provocada, principalmente, pelos alimentos. Alimento não tem nada a ver com demanda ou excesso de demanda, que é onde a política monetária atua. Mas, há todo um coro neste sentido, para que eles possam aumentar os juros. Temos que mudar o sistema de metas de inflação e, principalmente, tem que aumentar o escopo, o número das pessoas que definem a política monetária. Não podemos concentrar isso só em dois diretores do Banco Central, como é hoje, porque isso é uma loucura.

 

Em dezembro de 2008, eles falavam de economia sólida. Quando se tem grandes inflexões na vida econômica do Brasil, os indicadores só aparecem dois, três, quatro meses depois. Então, o negócio estava desmanchando aqui e eles diziam “não, o mercado ainda tem confiança”. Mas os dados (que posicionavam o mercado) eram de dois meses antes.

Na realidade, essa sensibilidade para entender a economia depende de uma mudança na composição do Comitê de Política Monetária, o COPOM. É preciso ter como nos Estados Unidos, análises regionais. E incorporar industriais, sindicatos, supermercados e economistas de outras linhas também. Não para ter um embate teórico, mas visões diferentes sobre uma mesma realidade econômica. Fora isso, o Banco Central tem que recuperar instrumentos tradicionais de política monetária. Hoje é tudo jogado nas costas dos juros.

Se tem excesso de demanda, como eu posso reduzí-la? Aumentar o compulsório é uma maneira. Reduzir prazos de financiamento, outra. Usar o IOF uma terceira. Então, você não carrega nos juros. Mas como estes criaram toda uma legião de beneficiados, nós temos todo o carnaval de analistas, que conhecemos bem, fazendo o mesmo discurso: para que joguem tudo nos juros.

Banco Central: só é penalizado se errar por baixo

[ Dirceu ] Daí que o nosso Banco Central, ao contrário do que acontece nos EUA, não tem metas para emprego, para que nossa política econômica gere determinado número de empregos/ano, por exemplo.

[ Nassif ] Não tem. Com isso, acontece um negócio maluco. Se você estabelece uma meta inflacionária e erra os juros por cima, não é penalizado. Só é penalizado se errar por baixo. É o mesmo que pegar, digamos, o exemplo de um médico. Uma criança tem uma infecção e se esta não ceder, o médico é culpado. Mas, se ela ceder o médico é inocente mesmo que tenha aplicado excesso de antibióticos que irá afetar outros órgãos da criança. É isso o que acontece. Você não tem penalização para erros por cima dos juros. Com isso, neste ano, o BC saiu do controle do Meirelles. O Tombini passou a atuar mais depois que reconheceu esses erros. Inclusive, no começo do ano, quando tinha uma inflação de (preços dos) alimentos. A inflação era nitidamente decorrente da alta dos alimentos, mas todo mundo pressionava o BC querendo aumentar juros. Isso para chegar em março e ter deflação.

Então, não adianta pegar um presidente do Banco Central com maior preparo, tem que mudar o sistema de apuração de dados. Mas, a internet fará essa mudança. Qual o modelo hoje de mapeamento de juros altos? Você tem lá alguns economistas de mercado que repetem os mesmos modelos. Pega o (ex-ministro da Fazenda) Mailson da Nóbrega que, em termos teóricos, repete o mesmo bordão. O Estadão, que tem a melhor cobertura dos jornalões na parte de economia, mostra dados dogmáticos. Por que ele mostra todo um processo de desindustrialização? Porque no final, ele tem que pagar o lobby para o mercado. Colocam o Eduardo Gianetti da Fonseca que não é macroeconomista, e o Mailson para dizer que o responsável são os gastos públicos. É uma maluquice. Ouçam o Roberto Gianetti da Fonseca que conhece lei industrial.
Há economistas que repetem esses bordões, fazem um carnaval e são eles que vão para os jornalões. O mercado, mesmo não acreditando, endossa o que é dito, porque o negócio do mercado não é acertar a inflação, mas o que o BC está pensando sobre ela. Então, caímos num modelo viciado. Não adianta aprimorar este modelo. Ele, em si, é furado.

[ Dirceu ] No Brasil nunca se aplaude a redução de juros.

[ Nassif ] Nunca. É uma coisa maluca. Em 1995, os juros foram para 45% ao ano porque o Brasil estava com as contas desequilibradas. Entra o Gustavo Loyola falando o seguinte: “nós precisamos descer gradativamente, porque se precisar subir, fica parecendo recuo”. Mas que gradativamente? Não existe isso! Você tem uma crise, joga os juros lá pra cima; acaba a crise, precisa baixar.

Ele falava de um jeito que parecia que tinha ciência atrás desta informação. E, pior, ele passava à opinião pública aquela ideia. Como nós fizemos magia com vários planos econômicos que não deram certo, ele passava para a opinião pública que uma “redução gradativa” significava caminhar lenta e firmemente em direção ao futuro. O que era uma bobagem. Na verdade, significou caminhar “lenta e firmemente” em direção à maior dívida pública da história – a maior. Vejam, os [governos] militares tinham uma dívida pública, mas tinham também ativos, das indústrias que foram criadas, das ferrovias. Então, [depois deles] se pegarmos em termos líquidos, criou-se esta dívida, mas sem contrapartida de ativos. Pelo contrário, reduziam os ativos, vendiam estatais e tudo, para pagar esses juros.

[ Dirceu ] Dobraram a dívida interna ao invés de reduzi-la em US$ 100 bi. Venderam US$ 100 bi (em estatais) e essa venda pagou juros. O Gustavo Franco [na presidência do Banco Central do 1º governo FHC] pagou 27,5% de juros reais durante três anos sobre a dívida pública.

[ Nassif ] Um absurdo.

Em 2002, no ano da eleição do Lula, eu publiquei um artigo descendo o pau nos juros. O Mailson [da Nóbrega], em um artigo, na realidade baseado em trabalho da Secretaria do Tesouro, dizia que a maior razão do aumento da dívida interna foi a incorporação das dívidas dos Estados. No artigo, ele desafiava: agora quero ver criticarem a Secretaria do Tesouro! Vocês sabem o que a Secretaria do Tesouro fez naquela época? Pegou a dívida dos Estados, mas antes de incorporá-las não considerou o aumento que esse endividamento havia sofrido em decorrência dos juros do Banco Central.

O caso de São Paulo era muito interessante. São Paulo devia R$ 50 bi para a União. Começou a negociar, mas um tempo depois de começar, na data de corte (fechamento da negociação) a dívida estava em R$ 100 bi – R$ 50 bi eram juros do BC. Como demorou mais, não sei quanto tempo para fechar a negociação, fechou-a em R$ 150 bi. Aí, eles consideraram e foram incluídos R$ 100 bi como dívida estadual, e não como resultado dos juros,  quando eram decorrentes de juros. E, mais, pegaram R$ 150 bi e todos os juros que incidiram sobre essa dívida para dizer que se tratava de dívida de Estado e não [decorrente de] uma política do Banco Central.

Quando li aquilo, liguei para a Secretaria de Tesouro para ver quem fez o trabalho. Demorei três dias tentando encontrar o cara (responsável) pelo trabalho. Quando encontrei ele reconheceu: “é, nós discutimos aqui, achamos que poderia dar margem para dúvidas…” Eu respondi: “que margem para dúvidas? Vocês manipularam, está errado!” As dívidas dos Estados eram sempre a dívida dos títulos da União, mas com juros muito altos.  E todos os Estados estavam com dívidas. Com isso, a União chegou a cobrar 45% em certo período – nos Estados chegou a 60% ao ano. Uma loucura. Esse foi o maior crime de política econômica já cometido. Tanto que amarrou o Brasil por quantos anos? E está aí ainda.
[ Dirceu ] Estamos pagando 10,75%. É uma pancada. Somados dão mais do que o orçamento da Educação.

 

[ Nassif ] Agora, foram deduzindo os juros, mas a base estava lá em cima. Ainda hoje dizem: “se não fossem os juros, não teríamos segurado a inflação”. Mentira! Eu fiz um trabalho por baixo em março/abril de 1995 em que dizia que aquela inflação já era fato passado e nós precisávamos cuidar do desenvolvimento. A manutenção de juros até 1999 foi exclusivamente para consolidar um modelo político que o Fernando Henrique implantou com o Gustavo Franco. Um modelo que criou e fez uma brutal transferência de renda para que novos grupos conduzissem a reformulação da economia. Quando você pega Ignácio Rangel [economista, considerado um dos maiores analistas do processo econômico brasileiro] vê que todos esses períodos de inflação, essa jogada de mercado, permitem enriquecimento de um pessoal mais ativo que leva a um salto na economia. A ideia desses mandraques, na realidade, era política: criar grandes grupos para consolidar o poder independente do Estado. Com isso, eles jogaram o projeto deles fora – não foram mais eleitos – mas atrasaram o país durante anos.

 

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[ Dirceu ] A respeito da crise européia, quais lições podermos tirar das medidas de socorro? O que o Brasil deve evitar neste caminho da Europa?

 

[ Nassif ] Um ponto em que o BC atuou quase bem – mas não foi bem de tudo – foi na regulação bancária para impedir grandes loucuras. Apesar dele próprio ter praticado uma loucura, que quase leva essas medidas abaixo, que foi permitir aquele swap reverso,  aquelas operações especulativas bancadas por ele. Quando você começa a jogar o câmbio para baixo. Quem ganha? Quem tem voz política. As grandes empresas exportadoras. Para abafar essa voz política, eles criaram o swap reverso. Quando o câmbio caia ps exportadores  perdiam na operação principal e ganhavam na operação financeira. Isso é loucura. Os jornais enchem o saco quando falam do subsídio, mas quando reverte o câmbio você tem toda essa quebradeira.

Fora esse pecado, o BC atuou muito em termos de regulação para impedir grandes loucuras. Agora, quando se pega o próprio FMI e aquele apoio dado em 1998 ao Brasil, você tem um jogo especulativo de grandes ganhos por parte dos grandes investidores. Esses ganhos embutem uma parte de risco e quanto maior o ganho, maior o risco. A questão é que estas operações quando entram para valer reduzem o risco e a perda dos grandes investidores, além de jogar a conta no ajuste fiscal – este pega a população de calça curta. Isso é complicado.

Quando você pega o mercado, eles dizem que a política é o que amarra o país. É o contrário, a política é um instrumento mobilizador. E ela que irá estabelecer, daqui para frente, os limites à ação deletéria dos mercados. No fundo, o próprio Fernando Henrique acabou perdendo o poder ao achar que ia montar uma estrutura em que o mercado ganhava e a população perdia.

Na Europa, o que estamos vendo é uma gambiarra. Terão que fazer a penalização dos credores, como fez a Argentina.

 

[ Dirceu ] Não está havendo nenhuma penalização, pelo contrário. Para salvar os bancos europeus, a Alemanha, como tinha condições, resolveu os problemas. Já tinha pactuado o modelo de baixar a participação do trabalho na renda nacional, aumentar a produtividade e não o salário, e diminuir o custo de programas sociais. Agora, eles farão o corte e, nestes países, será dos benefícios sociais. Depois o imposto aumenta para todo mundo e não só para os mais ricos. Todo mundo paga.

[ Nassif ] Vamos pegar os EUA. Não o da crise, agora, mas o modelo norte-americano das últimas décadas. Houve a entrada de uma nova indústria, uma nova economia – de serviços, informática etc.

O que aconteceu é que eles pegaram todos os setores atrasados, terceirizaram a mão-de-obra de obra, abrindo espaço para que as empresas pudessem ir para outros países. O modelo é interessante porque ficaram só com os grandes empregos. Mas quando chegaram no final do processo, aquele modelo não garantiu a empregabilidade. Sem garanti-la não existe mais mercado interno. Então, os países que ficaram com as indústrias de “menor qualidade” foram aqueles onde se formou o mercado interno. São eles os grandes vencedores da crise.

O modelo americano que levou os EUA a se tornarem o que foram, no final das contas, foi um modelo que privilegiou o mercado interno, a incorporação de novas marcas e que permitiu a criação de uma sociedade de consumo lá no século XIX e transformou o país na maior potência no mundo.

Outro ponto: a Organização para o Comércio e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) está querendo mudar os critérios da contabilidade de dívidas no Brasil. Diz que é para ser mais transparente. Mas eles não têm transparência nenhuma. Europeu querer ensinar a gente a ser transparente em termos fiscais, como quer a OCDE, é piada… O José Roberto Afonso, o pai da lei de reforma fiscal, foi para a Alemanha, há dez anos, para ver como era a contabilidade de estados e municípios lá. Voltou espantado. Nós damos de 10 a 0 em termos de transparência. No Brasil, a questão da responsabilidade fiscal sempre foi um calcanhar de Aquiles, obrigou-nos a um esforço de transparência fiscal que hoje é mais rigorosa do que em muitos outros países.

O PROER [programa de socorro a bancos do governo FHC] foi importante em si, mas aquela crise bancária que ele ajudou a passar, foi fruto da política monetária do 2º semestre de 1994. De qualquer modo, todas as crises bancárias obrigaram o Brasil a ter um sistema bancário rígido, no qual, quando estoura a crise, tem conseqüências.
[ Dirceu ] Mudando de assunto, o que aconteceu com a grande imprensa brasileira? O que a levou a tomar esse rumo e a tornar-se um verdadeiro partido político?

[ Nassif ] Quando você pensa em termos globais, a internet cria uma extraordinária zona de segurança para a mídia. Quem são os grupos que terão audiência? Os grandes grupos midiáticos, obviamente, e também toda uma constelação de blogs, de sites que produzirão conteúdo. Quando a velha mídia percebeu que ia entrar grandes players neste mercado, grupos de telefonia, entretenimento, tudo…

No Brasil, a imprensa é auxiliar de partido político. Na realidade, na América Latina, com a redemocratização, a imprensa se transformou no ator político mais relevante dos últimos 20 anos. Derrubava presidentes, senadores, demonizava pessoas – você é o exemplo vivo disso; o Sérgio Motta [ministro de Comunicação de FHC], o exemplo morto.

Ao longo da história do Brasil, a imprensa se comportou da mesma maneira que setores políticos. Nosso país já está em uma nova conjuntura, mas ainda preserva o poder político da etapa anterior. Então, eles (os jornalões) tentam transformar o poder político em um diferencial para impedir a competição.

Em 2005, especificamente, eles acharam que poderiam voltar aos tempos de glória do impeachment [Fernando Collor de Melo] derrubando o presidente Lula. Montaram um pacto em torno do Fernando Henrique e do Serra. E achavam que poderiam eleger o Serra ou um outro presidente que através de medidas de regulamentação [da mídia] os ajudassem a fazer a travessia para o novo modelo.

Também tentaram repetir o próprio impeachment que deu certo em 1992. Qual era o modelo? Criar um escândalo por dia. Como não têm capacidade de criar um escândalo consistente, transformam algo banal em um escândalo ou inventam um. Com o tempo, esperavam uma eclosão dos caras-pintadas – estes iriam para a rua derrubar o governo.  A ideia foi essa. Mas, não tiveram pique para derrubar o Lula em 2005, e em 2006 o Lula já começou a recuperar a popularidade. Com isso, perderam o rumo.

Nós tivemos uma grande sorte porque o pessoal que conduziu essa operação, talvez, seja a mais medíocre geração de diretores de redação desde que eu entrei no jornalismo. A sorte é que era um bando de amadores deslumbrados, que começaram a mostrar sua vulnerabilidade quando ficaram no poder nas redações. Começaram a querer virar intelectuais, montaram esquemas com editoras para vender livros. O Ali Kamel escreveu um livro que consideraram “um dos dez livros mais importantes da década”. Total perda do senso de ridículo.

O Diogo Mainardi e o Reinaldo Azevedo foram colocados para atuar como franco atiradores. Você os coloca ali, levanta a bola deles… E o que vimos foram coisas fantásticas. Houve até um que foi considerado o novo Carlos Lacerda. Outro escreveu que o livro do Reinaldo deveria ser adotado pelas cadeiras de ética de todas as faculdades. Na realidade, não entenderam que o Brasil é maior. Acharam que depois dos ataques desqualificadores iam intimidar a todos. Mas meia dúzia de malucos resolveram enfrentar a fera e a internet serviu para isso também.

[ Dirceu ] Concorrência neles!
[ Nassif ] É isso mesmo, porque o medo deles não é da CONFECOM (1ª Conferência Nacional de Comunicação), mas das empresas de telefonia. Se você tirar três pernas distorcidas e ilegais que sustentam esse modelo, ele desaba: a estrutura de veiculação publicitária; a manipulação de tiragem e de audiência; e a publicidade legal, os balanços de empresas.

 

A primeira perna: a estrutura de veiculação publicitária. Da forma como é feita, de contratos com agências de publicidade, é crime de direito econômico, porque são os próprios veículos que remuneram as agências através dos bônus de veiculação. Hoje, quem faz essa distribuição de verbas por agências de publicidade, os diretores de marketing, fazem parte de uma estrutura de poder. Isso é uma excrescência.

Segundo ponto: manipulação de tiragem e de audiência. O Instituto Verificador de Circulação (IVC) tem um jeito de apurar a circulação dos jornais que permite manipulação. A VEJA diz que tem 1 milhão e cem mil exemplares. Não tem. Ela tem 870 mil exemplares…

[ Dirceu ] A margem de erro de audiência de televisão é altíssimo também.
Image[ Nassif ] Você pega o Estadão. Dois ou três anos atrás, o Estadão teve uma queda de tiragem de 25%. No mesmo período, a Folha teve de 6% e O Globo de 5%. Qual a diferença entre os três? O Estadão estava precisando limpar o cadastro, limpou e ficou 25% a menos.

Uma vez, eu fui numa associação empresarial. Eles tinham uma revista que, segundo o IVC, vendia 50 mil exemplares por edição. Entra a nova direção, foram apurar e a revista vendia dois mil. O que eles faziam? O IVC tem como método de contagem contabilizar o que sai da gráfica e o que volta. Distribuiam 2 mil, alugavam galpões e jogavam 48 mil lá. A VEJA é impossível você esconder. O que eles fazem? Dão, doam. Distribuem. Isso traz a tiragem da VEJA para o real.

E o terceiro ponto das três pernas de que falei acima é a publicidade legal. Os balanços de empresa. Não tem a mínima lógica. Se sou uma empresa de capital aberto, eu mando ao acionista o balanço por e-mail ou ele pega o PDF no site. A troco do quê tem que publicar páginas e páginas de publicidade (como balanço oficial) na Folha, no Estadão, no Valor?

São três distorções. Fora as secretarias de Educação sobre as quais eles estão avançado de forma voraz. Já oferecem produtos da Abril para as secretarias de Educação.

 

[ Dirceu ] Em relação à regulação da imprensa? Qual sua avaliação a respeito do que o governo está construindo? Temos condições no país para fazermos a regulação?
[ Nassif ] Não se trata de regulação de conteúdo, mas do direito de resposta. É um absurdo, nós não temos direito de resposta. Estou há três anos tentando o meu, a minha resposta. Entrei com ação de Direito de Resposta na VEJA. A juíza disse que estava errado porque falava de internet e não de Lei de Imprensa. Não estava errada. Vai para a 2ª instância – mais um ano e meio. Na 2ª, disseram que estava certo. Volta para a mesma juíza da 1ª. Aí ela decidiu não julgar porque acabou a Lei de Imprensa.

Quando se fala em competição, temos que remover essas barreiras que citei. Já na questão do conteúdo, precisa ter o que há em outros países: conteúdo nacional; permitir o avanço da produção; restrições normais em relação à propaganda infantil e à violência. Temos que remover fatores anacrônicos.

Quem compõe o quadro de colunistas é o leitor

[ Dirceu ] Qual o papel das novas mídias, da internet, em relação à democratização? Como você enxerga o futuro nesse sentido? Quais os pontos positivos que devemos avançar em termos da rede?

[ Nassif ] Todo mundo está na mesma plataforma tecnológica. Isso já traz uma mudança monumental ao jogo político. Você tem um determinado número de colunistas no jornal. A Folha, por exemplo, tinha um grupo de jornalistas que compunham um poder político. Então, quando vinha uma manchete, era como se ela tivesse o endosso de toda uma estrutura de colunistas, dando credibilidade àquela matéria. Mesmo se alguns discordassem. Ao ir para a internet, o jogo é outro. Quem compõe o quadro de colunistas é cada leitor. Eu tenho os meus favoritos, eu quero o colunista X da Folha, o W do Estado, o blogueiro tal, o político Y. Então, ao compor o que vai ler, o próprio internauta elimina a manipulação. Essa é uma situação real.
Ninguém quer que os jornais acabem. Eles vão para a internet e sobrevivem. Mas aquele poder de manipulação e de gerar instabilidade política vai para o vinagre. Cada vez que sai uma manchete e uma denúncia pela internet, todo mundo sai correndo atrás de outras opiniões que vão se cruzando nos diversos grupos de discussão. Então, cria-se uma nova realidade. Isso tem o poder fantástico de desconstruir denúncias. Vimos isso durante a campanha, por exemplo, no caso da bolinha de papel [a auto-acusação infundada de José Serra de que fora agredido com uma pancada no Rio]. Eu fui o primeiro a colocar o vídeo do SBT no meu blog.
[ Dirceu ] Foi mortal.

[ Nassif ] Com isso, agora, mesmo que os jornalões tenham audiência, quando você (na internet) rebate um grande jornal, e faz com um argumento técnico, isso se espalha para todos os lados. Esse é um aspecto. Acabou o poder dos jornalões de desestabilizar a política.

Outro aspecto é que todo agente econômico hoje – sindicatos, corporações, uma tribo amazônica –  terá que se preparar para a blogosfera. Com isso você quebra o circuito viciado da velha mídia que acaba pressionando o Congresso e a política econômica.

[ Dirceu ] O Congresso do Brasil é tremendamente desprestigiado pela imprensa, se comparado com o parlamento de outros países. Claro que temos um que vota no lugar do outro; o senador Efraim Moraes (DEM-PB), por exemplo, que manipulou todas as licitações e tem dezenas de empregados pagos pelo Senado; gente que emprega família inteira lá etc… Agora, do jeito que o Congresso é apresentado para a sociedade no Brasil, nunca teremos político no país com prestígio.
[ Nassif ] Pega-se a grande disputa política dos anos 90. Tinha-se o Congresso e a mídia dizendo-se representantes da opinião pública. Daí a mídia entender que tinha que manter o outro [Congresso] completamente de joelhos para poder impor suas condições.

Você está na competição imprensa x Congresso. Tem, também, o fato de que com as ONGs, o Congresso foi perdendo cada vez mais a legitimidade. Você chega numa ONG X, o cara tem muito mais autoridade do que o deputado. E com a internet é a mídia quem perde a legitimidade. Essa é a grande mudança.

Agora, o risco que se tem [na internet] é termos uma radicalização política e começarmos a ser bairristas. Quando teve a reunião dos blogueiros (agosto pp.) eu sugeri: “nós temos uma frente aqui em torno de alguns valores, os dois principais, o combate ao monopólio e a defesa da inclusão social e dos valores da civilização que foram atropelados. Agora, nós temos também todo um universo de divergências. O que temos pela frente, quando passar essa guerra aí, é mostrar que podemos divergir civilizadamente”.

O universo da blogosfera é o universo das ideias. Então, tentar criar esse ambiente civilizatório em contraposição ao da selvageria é muito interessante. Um momento mágico. Isso está acontecendo no mundo inteiro, mas no Brasil, vem no bojo de mudanças muito mais radicais, com a inclusão de novas classes sociais, regionalização do desenvolvimento, a banda larga…

Grato pelo apoio que sempre me deram e um feliz 2011 para todos

Terminamos o ano de 2010. Só voltaremos dia 10 de janeiro. Férias merecidas para mim e para a redação do Blog, para o Aristeu Moreira, a Tatiana Carlotti e para toda a equipe de colaboradores voluntários que tornaram este diário possível durante estes longos e difíceis quatro anos e meio.

Sou grato a eles que me ajudaram a atravessar essa importante fase de minha vida e de nosso Brasil, agora concluída com a eleição de nossa primeira presidente mulher, Dilma Rousseff, e com o fim do governo Lula aprovado e apoiado por quase todo o povo brasileiro.

São conquistas – várias e, particularmente, estas duas – de todos nós que sempre acreditamos no rumo de nosso projeto, na liderança do presidente Lula e no PT. Minha gratidão e agradecimento, estejam certos, realmente não têm limites quando me recordo do apoio, afeto e carinho da militância do PT em todo o Brasil para comigo, mesmo quando divergem de minhas posições e propostas.

Os mesmos sentimentos tenho, também, em relação ao apoio e à solidariedade dos milhares de cidadãos sem partido ou de outros partidos, que acreditaram na minha inocência e me defendem diariamente contra as calúnias e as sistemáticas campanhas que grande parte da mídia faz contra minha imagem e honra.

2011, tudo indica, será o ano em que finalmente serei julgado pela Suprema Corte, seis anos após ter se iniciado todo esse processo político, e quatro depois dele ter chegado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Espero e confio contar novamente com o apoio de todos, fundamental para o êxito nas lutas que enfrentei até aqui.

No ano que vem vamos renovar e mudar nosso blog para estar à altura desta batalha e do apoio que daremos ao governo Dilma Rousseff – nós e a maioria do povo brasileiro. Apoio indispensável para continuarmos avançando no rumo de um Brasil de justiça e igualdade, soberano e democrático.

Um grande abraço a todos,
Zé Dirceu

 

São Paulo, a rotina do caos

Encerro o blog este ano praticamente da mesma forma que o fiz no ano passado e nos anteriores, com São Paulo sob fortes chuvas e sofrendo enchentes, tragédias e o trânsito caótico de sempre. Nesta temporada de chuvas, a capital paulista teve uma manhã e um fim de dia tenebrosos ontem.
 
Logo pela manhã, às 7h, horário de rush, o metrô, por uma pane técnica, fechou três de suas mais movimentadas estações: Jabaquara, São Judas e Conceição da Linha Norte deixando 50 mil usuários sem transporte por 2h30. Foi o segundo dia consecutivo de problemas no sistema metroviário mas, até aí, nada de novo, o metrô paulistano está apresentando defeito praticamente todos os dias e milhões ficam sem transporte.
 
No fim da tarde, início da noite, ontem, novo sufoco: fortes chuvas convulsionaram durante mais de três horas o já normalmente caótico trânsito do cidade, com inevitável reflexo também no serviço de transportes público. O mesmo serviço, aliás, que o prefeito Gilberto Kassab anuncia hoje terá a tarifa de ônibus elevada de R$ 2,70 para R$ 3,00. Como vocês veem, um aumento bem superior a 10% quando a inflação do último não chega nem a metade disso. Também, pudera, a Prefeitura paulistana dá R$ 743 milhões de subsídio/ano ao sistema.
 
O fato, como já observei ontem e anteontem aqui no blog – no final do ano passado e do anterior… – é que os tucanos (que com o novo mandato do governador Geraldo Alckmin vão completar nada menos que 20 anos no poder no Estado) não têm sequer uma política de transporte público para o Estado ou para a sua área mais crítica, a grande região metropolitana da capital.
 
Nunca houve, nem para a capital e muito menos para a região metropolitana. Aliás, esse é um dos pontos fracos dos governos tucanos, que não foi devidamente explorado por nós na campanha passada. Mais do que nunca o momento é adequado para a oposição e os prefeitos da Grande São Paulo construírem uma política comum de transportes para toda a área.
 
Na verdade, uma política, ou políticas mais completas para toda a região metropolitana, e que contemple/m, além de transportes, também saúde, lixo, resíduos sólidos, bacias hidrográficas, obras de drenagens e nas áreas de risco, combate às enchentes e inundações, redução da poluição urbana e industrial, entre outros pontos críticos. A hora é agora.

 

Desfazendo uma confusão

Uma confusão se alastra pela mídia e contamina até mesmo alguns vitoriosos nas últimas eleições. Dizem o seguinte: a crise de 2009 foi externa à economia brasileira, passageira e foi enfrentada com medidas excepcionais, que não são recomendadas de maneira permanente.

Para eles, agora, a bateria de instrumentos e procedimentos posta em funcionamento contra a crise, por sua excepcionalidade, perdeu a validade. Devemos voltar às recomendações dos que, lá fora, produziram a crise e aqui dentro se desorientaram e foram vacilantes em seu enfrentamento.

As declarações recentes do reconduzido ministro Mantega (que, faça-se justiça, desempenhou um papel positivo contra a crise), do deputado Vaccarezza e os procedimentos da Receita Federal encarnam muito bem a confusão que mencionei, porque repudiam agora aquilo que nos garantiu vitória contra a crise.

Para Mantega, o salário mínimo não deve passar de R$ 540, os gastos públicos e o índice de inflação devem ser “controlados”; para Vaccarezza, além destas restrições, devemos fazer já as reformas sindical, trabalhista e previdenciária com ajustes “para baixo”; para a Receita, não se deve corrigir a tabela do imposto de renda para 2011, mantendo-se inalteradas as alíquotas.

É preciso dar um chega para lá neste pessoal (o que já aconteceu com o Vaccarezza) e  afirmar, em alto e bom som, que a continuidade do crescimento, o combate à miséria e a distribuição de renda exigem a efetivação de políticas públicas e gastos estatais, o reajuste forte do salário mínimo, e das aposentadorias em geral, e a correção da tabela do imposto de renda.

Estas medidas, que foram estratégicas para o enfrentamento e superação da crise, continuam válidas para manter a estabilidade e o crescimento da economia e são reivindicadas pelas forças sociais e políticas, entre elas o movimento sindical, que garantiram a vitória da presidente Dilma e são atacadas pelos adversários dela, pelos vacilantes e pelos interesseiros do mercado.