Cláudia, morta e arrastada por viatura da PM, o fato mais chocante da semana

Triste, muito triste mesmo o fato mais marcante e mais chocante desta semana, a morte da auxiliar de serviços gerais, Claudia Silva Ferreira, no Rio, nas mãos da PM. Claúdia, 38 anos, tinha 4 filhos e criava outros quatro sobrinhos, de uma irmã falecida. Domingo pp., já baleada, talvez até morta, Cláudia ela foi jogada no porta-malas da viatura policial que abriu e ela, presa no carro por um pedaço de seu vestido, terminou arrastada por cerca de 350 metros, até que os policiais que se envolveram no caso fossem avisados e percebessem o que acontecia.

As imagens filmadas por um cinegrafista amador e exibidas pelas TVs,  e tudo o mais que aconteceu com Cláudia – cercado ainda por uma série de atitudes que as autoridades do Rio não conseguiram explicar até agora – como bem disse a presidente da República, Dilma Rousseff, no Twitter, chocaram o país. O choque que provocam e a reação que se tem ao vê-las e ver o que aconteceu com a vítima são indescritíveis.

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, recebeu ontem no Palácio Laranjeiras o viúvo, os oito filhos de Cláudia, e a todos pediu desculpas. Dentre outras declarações feitas desde o dia da morte de Cláudia, o governador diss esperar que os PMs do caso sejam expulsos e classificou como “abominável” o episódio. É pouco governador!

A cada dia PMs dão versões diferentes para o episódio

Os três PMs envolvidos no caso, desde o domingo da morte de Cláudia, já arrumaram uma infinidade de versões. A primeira é de que Claúdia estaria envolvida com o tráfico de drogas e foi apanhada numa troca de tiros entre PMs e traficantes, quando saiu de casa cedinho para comprar pão. Depois se apurou que ela não era traficante nem estava envolvida com o tráfico coisa nenhuma. O laudo pericial indica que Cláudia foi morta a tiros. Aliás, parentes e vizinhos dela dizem que um dos seus maiores temores é que seu filhos fossem confundidos com traficantes.

Como não se tem conhecimento dessa prática de prestar socorro a vítimas transportando-as em porta-malas de carros, os PMs inicialmente justificaram que a transportavam lá porque a porta traseira da viatura estava quebrada e não abria. Numa versão seguinte, quem estava quebrada era a tampa do porta-malas, por isso abriu, o corpo de Cláudia caiu, foi arrastado e os policiais demoraram a perceber.Em depoimento prestado ontem eles disseram que os protestos da comunidade em que Cláudia morava prejudicaram o socorro.

Circularam, também, nas redes sociais que a rota inicial seguida pelos PMs não era para um pronto-socorro ou hospital. Só depois de o corpo ter sido arrastado e que teriam mudado a rota e a levado para o hospital Carlos Chagas, onde ela já chegou morta. Houve insinuações de que depois de constatar que Cláudia estava morta, pretendiam desovar o corpo em algum lugar, numa reedição do caso Amarildo.

Envolvidos em dezenas de ocorrências de “resistência e confronto” seguidas de morte

Pelo apurado até agora, descobriu-se, também, que o suboficial e o oficial da PM fluminense que transportavam Claudia já se envolveram em dezenas de ocorrências daquelas tradicionalmente registrados nos boletins policiais (BOs) como “resistência e confronto” com os bandidos. Conforme registros divulgados pelos jornais, em 77% destes casos em que eles se envolveram ocorreram mortes.

Dois dos três PMs – estão todos presos – que conduziam a viatura que arrastou Cláudia têm registros de homicídios ocorridos em sua atuação policial. A informação foi divulgada pela Polícia Civil fluminense ontem. O subtenente Adir Serrano Machado consta como autor em 13 homicídios. O subtenente Rodney Miguel Archanjo possui três registros de homicídio. O 3º PM, sargento Alex Sandro da Silva Alves não possui nenhum registro como autor.Os três são investigados pela Corregedoria da PM.

A morte da moradora baleada e arrastada por um carro da PM ainda não foi totalmente esclarecida. O comando do 9º BPM (Rocha Miranda) afirmou que os policiais realizavam uma operação na favela, mas não explicou os motivos que os levaram à comunidade no domingo de madrugada. Inicialmente não informou quantos homens participaram da operação, só depois, que foram 12. Em nota divulgada no domingo da morte de Cláudia, a assessoria da PM  informou que com a chegada dos policiais houve troca de tiros. Os moradores negam que tenha ocorrido confronto com traficantes.

Oportunidade para discutir unificação das polícias e desmilitarização da PM

A tragédia que vitimou Cláudia e o drama agora vivido por sua família, constituem mais uma oportunidade para desencadear nacionalmente um debate eem torno de duas propostas defendidas aqui no blog, com frequência, pelo ex-ministro José Dirceu: a unificação das polícias e desmilitarização das PMs.

O debate pode ensejar, também, propostas de revisão da forma como se dá a formação e preparo das polícias, de seus manuais de instrução, arcaicos, e que se mantém os mesmos há décadas, elaborados durante a ditadura quando as PMs se tornaram, por lei, “forças auxiliares” das Forças Armadas. Ou esses manuais, ou o processo de formação desses policiais os instruem, também, para que eles vejam a população negra como principal suspeita em suas batidas e outras ações policiais. Já é tempo de o Brasil travar seriamente essa discussão.

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