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Economia e Desenvolvimento
Onipotente sem oniscincia
Publicado em 06-Set-2010
ImageFernando Nogueira da Costa

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O sociólogo dinamarquês Gösta Esping-Andersen (Valor, 02/07/10) estabeleceu tipologia que distingue três modelos principais de Estado do bem-estar. Foi dominante na Europa o chamado “corporativo” ou “mutualista”, em que o governo constitui fundos com a participação de empresas, sindicatos e grupos civis para a redistribuição de recursos. Assim, a redistribuição de renda não se dá por despesas do governo, mas por transferências entre setores. Nesse caso, não precisam ser feitos cortes no orçamento público.

Programas sociais “neoliberais”, como o britânico, herdeiro de projetos assistenciais, usam pesquisas para avaliar as necessidades de parcelas da população. Eles intervêm nesses focos, portanto, não adotam programas sociais universais, mas sim focalizados. O modelo escandinavo é o “estatal”: com recursos de elevada carga tributária, os governos garantem a baixa desigualdade de renda e o amplo acesso da população a serviços públicos.

Como reconheceu Vladimir Safatle, professor no departamento de filosofia da USP e ex-eleitor tucano (FSP, 23/08/10), o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) foi fundado, aqui, como tentativa de importação ideológica das temáticas da socialdemocracia européia. Entretanto, nessas “idéias fora do lugar”, ao contrário de lá, boa parte de seus intelectuais líderes foram na direção contrário ao fortalecimento dos sindicatos e focalizaram apenas assumir a capacidade gerencial do Estado.

“A história do PSDB parece ser a história do paulatino distanciamento desse impulso inicial. Ao chegarem ao poder federal, os partidos socialdemocratas que lhe serviram de modelo (como os trabalhistas ingleses e o SPD alemão) haviam começado um processo irreversível de desmonte das conquistas sociais que eles mesmos realizaram décadas atrás. Um desmonte que foi acompanhado pela absorção de suas agendas políticas por temáticas vindas da direita, como a segurança, a imigração, a diminuição da capacidade de intervenção do estado, entre outros. Este movimento foi reproduzido pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. (...) procuravam levar a cabo o ‘desmonte do estado getulista’, ‘a quebra da sanha corporativa dos sindicatos’, ou ‘a defesa do Estado de direito contra os terroristas do MST’” (Safatle, op. cit.).

Essa atitude elitista anti-povo, que levava políticos tucanos a ir cada vez mais à direita, resultou em seguidos fracassos eleitorais no plano nacional. Apenas em províncias onde há eleitores que se sentem superiores ao “povo brasileiro” eles ainda ganham algumas eleições.

Exemplo dessa auto-suficiência é a do atual candidato presidencial pelo PSDB. Se sua onipotência fosse tão verdadeira quanto quer fazer crer, sua onisciência, isto é, seu saber absoluto, pleno, seu conhecimento infinito sobre todas as coisas deveria lhe ter dado a reconhecer que seria mais um fracasso eleitoral. Com humildade (algo que nunca um tucano teve a coragem de adotar), deveria ter reconhecido que teria chance de se reeleger governador de São Paulo, não deixando esse importante cargo para o rival da direita de seu partido. Mas não, ambicioso, renunciou ao governo paulista (assim como tinha renunciado à prefeitura paulistana), afastou a candidatura mais promissora do ex-governador mineiro à Presidência da República e centralizou toda a campanha eleitoral: em nome de que projeto?

Seu projeto é apenas pessoal. Ele, simplesmente, se considera destinado, “divinamente”, a ser gestor do Brasil. Porém, não é racional crer que é algum deus. Assim, ele entrou em paradoxo lógico: se ele era, de fato, onisciente, ele já tinha de saber que, usando sua onipotência, teria de mudar o curso da história. Entretanto, isso significaria que ele não podia mudar de idéia sobre essa reorientação, o que implicava que ele não era onipotente…

Na verdade, ele se apresenta mais como candidato a recuperar o posto de Ministro da Saúde no próximo governo, assim como a monotemática candidatura do Partido Verde se apresenta como candidata a recuperar o posto de Ministra do Meio Ambiente. Todos os candidatos de “oposição”, verdadeiramente, não apresentam nenhum projeto alternativo (e viável) ao da candidatura de continuidade do atual governo.

Há consenso, portanto, por quase 80% da opinião pública: o projeto é o PAC 2, Petróleo do Pré-Sal, Minha Casa Minha Vida, investimentos em infra-estrutura (inclusive para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016),  a continuidade da política econômica desenvolvimentista e da política social ativa. A candidatura da situação não é o desejo personalista da candidata, mas sim a própria representação desse projeto.

 

Fernando Nogueira da Costa é professor livre-docente do IE-UNICAMP. Foi Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal de 2003 a 2007. http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/  E-mail: \n Este endere�o de e-mail est� protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter� de estar activado para poder visualizar o endere�o de email Este endere�o de e-mail est� protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter� de estar activado para poder visualizar o endere�o de email Este endere�o de e-mail est� protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter� de estar activado para poder visualizar o endere�o de email    

 

  
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