(artigo publicado no Blog do Noblat em 17.05.2013)
Apesar da torcida sempre contrária dos setores conservadores no sucesso da nossa política externa, o embaixador brasileiro Roberto Azevêdo é o novo presidente da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Trata-se de uma conquista importante para o Brasil e os demais países em desenvolvimento e também de uma aposta em favor do multilateralismo comercial que o novo diretor-geral sempre defendeu.
A vitória de Azevêdo sobre o mexicano Herminio Blanco -- um dos idealizadores do NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) e fiel representante dos interesses que mergulharam o mundo rico em uma crise da qual não consegue sair -- representa um peso importante na balança que começa a equilibrar a nova correlação de forças do mundo atual.
Afinal, hoje os BRICS e os demais países emergentes são os principais dinamizadores da economia internacional. A escolha é também uma consequência natural da crescente participação da América Latina no comércio internacional e nas negociações multilaterais.
A eleição de Azevêdo e a do ex-ministro José Graziano da Silva para presidir a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 2011 -- candidatura que teve apoio massivo dos países africanos e da América Latina -- revelam um novo ciclo e a urgente necessidade de reformar a governança global, a fim de compatibilizá-la com as profundas transformações pelas quais o mundo vem passando.
Por mais que a nossa mídia tente minimizar o feito, o Brasil conquistou o mais importante posto internacional de sua história e isso não aconteceu por acaso.
A eleição de Azevêdo para o posto de diretor-geral da OMC reflete o êxito da política externa dos governos Lula e Dilma, voltada para o Sul, para a integração sul-americana, para os BRICS, a África e o Oriente Médio, ou seja, uma política que resgata todos os interesses nacionais do Brasil no Século 21 e que tem consolidado nosso país como liderança entre as economias em desenvolvimento.
A existência de um brasileiro em um cargo de linha de frente em uma grande organização internacional, sem dúvida, significa o reconhecimento da atuação cada vez mais ativa do Brasil no cenário internacional.
Como ressaltou Azevêdo, o Brasil é hoje um país de grande relevância e que está no centro de quase todas as grandes decisões de governança mundial, seja na política, seja na economia.
A postura firme do Brasil, desde 2003, por negociações que eliminassem as barreiras comerciais e os subsídios e regulassem de fato o comércio e o mercado global, além da liderança do presidente Lula por uma nova ordem multilateral, criou as bases para essa vitória depois da constituição do G-20, dos BRICS, do IBAS (Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul) e de tantas outras articulações que colocaram o Brasil no centro das negociações internacionais.
É claro que a vitória do embaixador brasileiro é também uma expressão de seus próprios méritos, de sua carreira diplomática iniciada no Itamaraty em 1984 e dos cargos que exerceu com competência.
Representante permanente do Brasil na OMC desde 2008, Azevêdo foi um dos principais protagonistas do destaque que o Brasil passou a ganhar no organismo, tornando-se um dos maiores países negociadores junto da União Europeia, do Japão, da China, da Índia, dos EUA e da Austrália.
O diplomata brasileiro é um hábil negociador e já foi chefe de delegações brasileiras em litígios importantes vencidos pelo país na OMC, como o dos subsídios ao algodão contra os EUA e ao açúcar contra a União Europeia. Também participou de praticamente todas as conferências ministeriais desde o lançamento das negociações de Doha sobre a liberalização do comércio mundial, em 2001.
Todas essas credenciais serão bem-vindas e necessárias diante dos muitos desafios que Azevêdo terá de enfrentar para fazer com que a OMC retome o seu papel de reguladora do comércio mundial, empreendendo as mudanças de que a entidade necessita e vencendo a paralisia a que está submetida.
Segundo o próprio Azevêdo, a OMC atravessa um estágio crítico e há inúmeras negociações completamente travadas. Caso não mude suas bases e se modernize para agir em áreas como comércio eletrônico e transações financeiras, o novo diretor-geral acredita que o organismo corre o risco de se tornar irrelevante.
O embaixador já revelou também que está entre suas prioridades retomar a Rodada de Doha de liberalização do comércio, cujas negociações de 11 anos empacaram pela intransigência de EUA e União Europeia, que se negaram a reduzir a proteção a seus produtos agrícolas, ao passo que exigiam dos países em desenvolvimento que abrissem seus mercados de bens industriais, de serviços e de compras governamentais.
Azevêdo afirmou que encontrar uma solução para Doha é uma necessidade para desbloquear o sistema como um todo e que é preciso criatividade e flexibilidade para tratar dos empecilhos de uma forma realista.
Outro desafio será liderar uma coordenação global que coloque fim à insana guerra cambial executada pelas nações hegemônicas, que manipulam suas moedas para tornar suas exportações mais competitivas, praticando uma nova forma de protecionismo. Por outro lado, criticam duramente os países emergentes quando estes adotam suas próprias defesas.
A OMC precisa discutir e se posicionar em relação a esses desequilíbrios e impor limites às políticas predatórias dos países ricos, que asfixiam as nações mais pobres.
Apesar de todo o simbolismo que a conquista de Azevêdo carrega do ponto de vista da nova configuração geopolítica, a vitória folgada, com 30 votos de diferença, revela que ele obteve respaldo não só de países pobres e emergentes, mas também de alguns países ricos. Aliás, depois de se conhecer o resultado da eleição, representantes dos países desenvolvidos declararam apoio à gestão do diplomata brasileiro.
Esse clima de conformidade pode significar muitas coisas, desde o reconhecimento de sua habilidade e capacidade técnica para a função, até o menosprezo de alguns países ricos pelo papel da OMC, uma vez que, na prática, não se submetem à regulação da instituição, fazendo as suas próprias regras e esvaziando-a.
O novo diretor-geral da OMC terá quatro anos para vencer estes e tantos outros obstáculos e para fortalecer esse organismo de fundamental importância para mediar os interesses de todas as nações -- em especial daquelas com menor poder de fogo em suas relações comerciais e que, portanto, mais precisam de um mecanismo de conciliação eficaz --, abrindo caminho para que tenhamos negociações mais equilibradas e menos desajustes no comércio mundial.




