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Especial 68
40 anos de 1968 chegam ao fim
Publicado em 22-Dez-2008
Escrito por Jos Dirceu
José Dirceu

Em março deste ano, abri este Especial 68 com um longo depoimento pessoal, onde frisei: "Mantenho o espírito de 68". Ao longo deste ano, com os inúmeros eventos, entrevistas, debates, exposições, livros, filmes e tantas manifestações que relembraram os 40 anos de 1968, constatei serem muitos os que mantêm o espírito daqueles tempos.

Sinto que não só os que fazem parte da minha geração e viveram 1968, no corpo e na alma, mas, para minha surpresa, vi na juventude de hoje o que o escritor Zuenir Ventura, um dos maiores estudiosos daqueles tempos, definiu como "saudade do não vivido". Vejo, cada vez em maior número, jovens que se identificam com nossas lutas, histórias, experiências, contestações e rebeldias, e que, mesmo sabendo que as vivemos e enfrentamos sob as sombras da ditadura, gostariam de tê-las vivido.

Para mim, essa constatação é mais um motivo para me orgulhar de ter vivido, resistido e lutado em 68 até as últimas conseqüências, militando no movimento estudantil, lutando contra a repressão, passando por prisões, banimento, exílio e clandestinidade.

Hoje, graças a essa resistência e mobilização de tantos segmentos da sociedade brasileira – artistas, intelectuais, trabalhadores, feministas, religiosos e tantos outros dos mais representativos – é que podemos comemorar viver numa democracia.

Assim como outros combatentes e personalidades da época que também, externaram e se emocionaram em relação às suas memórias, fui muito questionado sobre o legado de 68. Considero, sem a menor dúvida, que a reconquista da democracia e da liberdade são as melhores heranças de tudo aquilo pelo qual tanto batalhamos. Apesar dos ainda dolorosos resquícios, como a tortura, morte e desaparecimento de alguns dos companheiros que conosco se irmanaram, e de os arquivos da repressão da ditadura ainda permanecerem fechados até hoje, tenho a nítida certeza de que a nossa luta não foi em vão.

No rastro dessas comemorações, memórias e de toda essa história que ora é gratificante, ora é dolorida - e que enseja, quase sempre, os dois sentimentos - outras lutas virão. Atuais ou não, do passado, de agora, ou do futuro, todas terão os rastros, as pegadas do que iniciamos e dos valores e princípios pelos quais resistimos em 1968.

Enquanto procurei publicar e, através do blog, manter você informado sobre tudo o que foi programado neste 2008 para lembrar aquele ano, muitas outras lutas se iniciaram e jornadas foram deflagradas ao longo deste ano. Um dos pontos que ganharam força em 2008, e que me chamam muito a atenção e constituem um exemplo do que afirmo é o debate sobre o alcance da Lei da Anistia, promulgada pela ditadura militar em 1979.

Depois de 30 anos em que a nação engoliu não só a anistia aos torturadores, como também a ausência de qualquer punição às barbáries cometidas, brasileiros tomaram coragem e botaram o dedo nessa ferida. É só o começo, o debate ainda se inicia, mas um passo fundamental e importantíssimo para nosso ajuste de contas com o passado.

Outra grande comemoração deste 2008 são os 20 anos da Constituição Cidadã - como a definiu um dos homens que conduziu sua redação e vigência, o velho timoneiro Ulysses Guimarães - ápice da redemocratização do país, conquistada e redigida com belíssima participação popular – do movimento pela anistia, em 1979, passando pelas "Diretas já", a partir de 1984, até a conclusão da Carta, em 1988.

Nas inúmeras reportagens, artigos e entrevistas deste especial, a democracia também deu o tom. Para além do 68 mais político, rememoramos de mente e braços abertos a efervescência eclética daquele ano - desde às antigas lideranças estudantis, até os festivais, artes, cinema, as músicas de Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Beatles e Jimi Hendrix.

Agora e no futuro outras jornadas nos chamam, sempre com inspiração, uma marca naquele que é o mais emblemático ano de nossa história - 1968. Nesse momento em que o Especial sobre aquele ano deixa de ser publicado, reafirmo a minha disposição de lealdade aqueles ideais que, no fundo, se consubstanciam na nossa tentativa diária de vencer as injustiças e de conquistar um Brasil melhor.

Para saber o que foi publicado, acesse o Arquivo do Especial 68.

Colaboradores e entrevistados:

Alípio Viana Freire
Aparecida Torneros
Augusto Buonicore
Augusto César Petta

Carlos Fico
Carlos Vainer
Celso Lungaretti
Elayne Fonseca
Ernades Fernades
Evandro Teixeira
Gilberto Amendola
Gilson Caroni Filho
Gui Mallon
Jean Marc von der Weide
José Genoino
José Ibrahim

Lucia Stumpf
Miguel Sousa Tavares
Olgária Matos
Pedro Tierra
Ricardo Zarattini

Sávio Bones
Vladimir Palmeira




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