
"Um outro mundo inevitvel"
Publicado em 09-Fev-2010
Para nos contar mais sobre as discussões do FSM 2010...
Para nos contar mais sobre as discussões do Fórum Social Mundial 2010 (FSM), que chegou à sua 10ª versão mantendo a responsabilidade de debater um novo mundo possível, disponibilizo uma entrevista com o amigo e economista Ladislau Dowbor, um dos organizadores das discussões de Salvador (BA) - onde se realizou parte do FSM esse ano - sobre as crises e oportunidades que nos desafiam.
Como você avalia as discussões deste FSM- 2010?
[Ladislau Dowbor] O ponto de partida do Fórum Social Mundial é a convergência de processos críticos. A crise financeira de 2008 levou à uma concertação planetária sobre a forma como estão sendo desperdiçados recursos públicos e privados. Veja que para um PIB planetário U$S 60 trilhões, nós temos volumes de papéis - os chamados derivativos, papéis sem cobertura de produção - da ordem de U$S 863 trilhões. Portanto, 14 a 15 vezes o PIB mundial. Frente à crise, do dia para a noite, foram encontrados trilhões de dólares para socorrer os bancos. Isso se confronta drasticamente com a situação do planeta.
Segundo dados da FAO, 1 bilhão e 20 milhões de pessoas passam fome hoje no mundo. Há uma média de 10 milhões de crianças que morrem de causas ridículas, porque não têm acesso à água limpa, a alimentos ou medicamentos básicos. Além disso, temos o aquecimento global, o esgotamento da vida marítima pelo excesso de pesca das grandes corporações, a liquidação das coberturas florestais que está levando à erosão do solo que provoca a perda imensa de solo agrícola anualmente. Ainda mais dramática é a situação do aquecimento global e a obviedade de que o petróleo acaba. O conjunto do nosso planeta "alegre" com seus carros, aviões, é baseado no uso desenfreado e descontrolado do petróleo - um bem natural que não se reproduz.
Temos uma emergência de processos críticos evidentes. E uma população que quer consumir cada vez mais. São 70 milhões de novas pessoas a cada ano, num planeta que já tem 7 bilhões de indivíduos. A própria água já está sendo chamada de ouro azul. Portanto, se somarmos esse conjunto, fica óbvia a dimensão do drama que enfrentamos. Hoje, o mais forte é que através de filmes como A Verdade Inconveniente (Al Gore), A Corporação e uma série de relatórios que cruzam essas tendências, constata-se que realmente estamos num impasse. Se você entra numa rua sem saída, não pode dizer "por enquanto estou avançando". A particularidade desta edição do FSM é que as dimensões dos impasses planetários tornaram-se muito mais claras. De certa maneira, ao invés de "Um outro mundo é possível", estamos dizendo "Um outro mundo é inevitável". Esse é o deslocamento de contexto do conjunto do FSM, tanto o da Bahia, quanto dos diversos eventos descentralizados que caracterizaram essa edição.
Qual o diferencial das discussões em Salvador?
[Ladislau Dowbor] O evento de Porto Alegre foi um importante balanço dos dez anos de FSM. Em Salvador, houve um Fórum temático que pegou justamente o coração desse processo que mencionei: a caracterização da crise mundial que está ocorrendo, concebida como crise civilizatória. Temos que mudar a forma de consumo, de transporte, de relacionamento, de distribuição de renda, de uso dos recursos naturais. É uma mudança civilizatória que temos pela frente. Esse foi o eixo de Salvador que teve como sempre um leque extremamente amplo de atividades autogeridas, em que as pessoas trouxeram diversos problemas da região em que moram.
Houve um eixo que eu participei, coordenando esse processo junto com Ignacy Sachs do Instituto de Altos Estudos em Ciências Sociais e com Carlos Lopes, subsecretário-geral da ONU e diretor do United Nations Intitute for Training and Research (Unitar). Nós montamos uma iniciativa chamada Crises e Oportunidade que durante mais de um ano preparou essa reunião com a base científica do processo. (O foco era) o que está acontecendo com o transporte, com a água, com o clima, enfim, com os diversos eixos críticos, as macrotendências de longo prazo que ameaçam a humanidade.
Em função disso, nós elaboramos um conjunto de documentos básicos que estão disponíveis no blog Crise e Oportunidades, e conseguimos a colaboração de pessoas como Hezel Henderson, Susan George, Paul Singer, Eduardo Suplicy, Tania Bacelar entre outros. Nomes fortes das mais diversas instituições como BNDES, Banco do Nordeste (que apoiou esse esforço desde o início), IPEA etc. Com isso, reunimos um conjunto de visões importantes para que as pessoas, além do sentimento intuitivo de que estamos numa situação crítica, possam ter um ponto de referência com textos diretos, não rebuscados, sobre como está a situação em diversas áreas para, a partir daí, construirmos uma agenda.
Vocês apresentaram essa agenda?
[ Ladislau Dowbor ] Sim. O ponto forte para nós foi a apresentação de uma agenda de doze itens em torno de medidas possíveis (acesse ), já em aplicação em diversas partes do planeta, para as quais temos tecnologia disponível e que precisam ser generalizadas. De certa maneira, nós fizemos um FSM aplicado pensando que não só um outro mundo é possível, mas que uma outra gestão é possível. Há formas aplicáveis de organização que estão disponíveis e que podem se tornar um eixo de batalha em nível planetário. Nós organizamos mesas em torno do desafio ambiental e social, tivemos discussões sobre a governança e uma mesa redonda muito forte com cientistas dessas áreas discutindo os pontos críticos. Tudo isso será disponível em vídeo no blog, é importante que as pessoas vejam e multipliquem.
Tivemos também uma mesa muito importante com o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Além dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário é importante um Conselho em que estejam representados os movimentos sociais, empresários, trabalhadores, ONgs etc, com a presença do chefe de Estado e os ministros. Um Conselho que permita o contato direto entre as demandas e seus representantes - não filtradas por posicionamentos partidários ou visões eleitorais. Isso tem dado bastante certo no sentido de vermos como sistemas participativos de decisão sobre assuntos críticos poderiam ser organizados nos Estados e também nos municípios. Não basta em termos de governança apenas se apoiar em um poder, no Executivo, ou no Legislativo, sobretudo nas câmaras municipais tradicionais que são boas para legislar, mas não são na construção de posicionamentos articulados dos diversos segmentos da sociedade.
Em relação à crise, como você avalia o Brasil?
[ Ladislau Dowbor ] No caso brasileiro, por uma série de medidas adequadas do governo, nós escapamos da crise financeira. Mas temos no nosso país, a tragédia que é a desigualdade. Temos uma cidade como São Paulo, a mais rica da América Latina, em que ficamos parados horas a fio dentro dos carros. O paulistano perde 2h40, por pessoa, diariamente no trânsito, parado na beira do Tietê olhando um esgoto a céu aberto. Isso é o que chamamos "modernidade"? Portanto, podemos dizer que a crise financeira amainou muito da sua dimensão, agora, ela também revelou claramente a dimensão das outras crises latentes que estão aí.

Ladislau Dowbor
Como você avalia as discussões deste FSM- 2010?
[Ladislau Dowbor] O ponto de partida do Fórum Social Mundial é a convergência de processos críticos. A crise financeira de 2008 levou à uma concertação planetária sobre a forma como estão sendo desperdiçados recursos públicos e privados. Veja que para um PIB planetário U$S 60 trilhões, nós temos volumes de papéis - os chamados derivativos, papéis sem cobertura de produção - da ordem de U$S 863 trilhões. Portanto, 14 a 15 vezes o PIB mundial. Frente à crise, do dia para a noite, foram encontrados trilhões de dólares para socorrer os bancos. Isso se confronta drasticamente com a situação do planeta.
Segundo dados da FAO, 1 bilhão e 20 milhões de pessoas passam fome hoje no mundo. Há uma média de 10 milhões de crianças que morrem de causas ridículas, porque não têm acesso à água limpa, a alimentos ou medicamentos básicos. Além disso, temos o aquecimento global, o esgotamento da vida marítima pelo excesso de pesca das grandes corporações, a liquidação das coberturas florestais que está levando à erosão do solo que provoca a perda imensa de solo agrícola anualmente. Ainda mais dramática é a situação do aquecimento global e a obviedade de que o petróleo acaba. O conjunto do nosso planeta "alegre" com seus carros, aviões, é baseado no uso desenfreado e descontrolado do petróleo - um bem natural que não se reproduz.
Temos uma emergência de processos críticos evidentes. E uma população que quer consumir cada vez mais. São 70 milhões de novas pessoas a cada ano, num planeta que já tem 7 bilhões de indivíduos. A própria água já está sendo chamada de ouro azul. Portanto, se somarmos esse conjunto, fica óbvia a dimensão do drama que enfrentamos. Hoje, o mais forte é que através de filmes como A Verdade Inconveniente (Al Gore), A Corporação e uma série de relatórios que cruzam essas tendências, constata-se que realmente estamos num impasse. Se você entra numa rua sem saída, não pode dizer "por enquanto estou avançando". A particularidade desta edição do FSM é que as dimensões dos impasses planetários tornaram-se muito mais claras. De certa maneira, ao invés de "Um outro mundo é possível", estamos dizendo "Um outro mundo é inevitável". Esse é o deslocamento de contexto do conjunto do FSM, tanto o da Bahia, quanto dos diversos eventos descentralizados que caracterizaram essa edição.
Qual o diferencial das discussões em Salvador?
[Ladislau Dowbor] O evento de Porto Alegre foi um importante balanço dos dez anos de FSM. Em Salvador, houve um Fórum temático que pegou justamente o coração desse processo que mencionei: a caracterização da crise mundial que está ocorrendo, concebida como crise civilizatória. Temos que mudar a forma de consumo, de transporte, de relacionamento, de distribuição de renda, de uso dos recursos naturais. É uma mudança civilizatória que temos pela frente. Esse foi o eixo de Salvador que teve como sempre um leque extremamente amplo de atividades autogeridas, em que as pessoas trouxeram diversos problemas da região em que moram.
Houve um eixo que eu participei, coordenando esse processo junto com Ignacy Sachs do Instituto de Altos Estudos em Ciências Sociais e com Carlos Lopes, subsecretário-geral da ONU e diretor do United Nations Intitute for Training and Research (Unitar). Nós montamos uma iniciativa chamada Crises e Oportunidade que durante mais de um ano preparou essa reunião com a base científica do processo. (O foco era) o que está acontecendo com o transporte, com a água, com o clima, enfim, com os diversos eixos críticos, as macrotendências de longo prazo que ameaçam a humanidade.
Em função disso, nós elaboramos um conjunto de documentos básicos que estão disponíveis no blog Crise e Oportunidades, e conseguimos a colaboração de pessoas como Hezel Henderson, Susan George, Paul Singer, Eduardo Suplicy, Tania Bacelar entre outros. Nomes fortes das mais diversas instituições como BNDES, Banco do Nordeste (que apoiou esse esforço desde o início), IPEA etc. Com isso, reunimos um conjunto de visões importantes para que as pessoas, além do sentimento intuitivo de que estamos numa situação crítica, possam ter um ponto de referência com textos diretos, não rebuscados, sobre como está a situação em diversas áreas para, a partir daí, construirmos uma agenda.
Vocês apresentaram essa agenda?
[ Ladislau Dowbor ] Sim. O ponto forte para nós foi a apresentação de uma agenda de doze itens em torno de medidas possíveis (acesse ), já em aplicação em diversas partes do planeta, para as quais temos tecnologia disponível e que precisam ser generalizadas. De certa maneira, nós fizemos um FSM aplicado pensando que não só um outro mundo é possível, mas que uma outra gestão é possível. Há formas aplicáveis de organização que estão disponíveis e que podem se tornar um eixo de batalha em nível planetário. Nós organizamos mesas em torno do desafio ambiental e social, tivemos discussões sobre a governança e uma mesa redonda muito forte com cientistas dessas áreas discutindo os pontos críticos. Tudo isso será disponível em vídeo no blog, é importante que as pessoas vejam e multipliquem.
Tivemos também uma mesa muito importante com o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Além dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário é importante um Conselho em que estejam representados os movimentos sociais, empresários, trabalhadores, ONgs etc, com a presença do chefe de Estado e os ministros. Um Conselho que permita o contato direto entre as demandas e seus representantes - não filtradas por posicionamentos partidários ou visões eleitorais. Isso tem dado bastante certo no sentido de vermos como sistemas participativos de decisão sobre assuntos críticos poderiam ser organizados nos Estados e também nos municípios. Não basta em termos de governança apenas se apoiar em um poder, no Executivo, ou no Legislativo, sobretudo nas câmaras municipais tradicionais que são boas para legislar, mas não são na construção de posicionamentos articulados dos diversos segmentos da sociedade.
Em relação à crise, como você avalia o Brasil?
[ Ladislau Dowbor ] No caso brasileiro, por uma série de medidas adequadas do governo, nós escapamos da crise financeira. Mas temos no nosso país, a tragédia que é a desigualdade. Temos uma cidade como São Paulo, a mais rica da América Latina, em que ficamos parados horas a fio dentro dos carros. O paulistano perde 2h40, por pessoa, diariamente no trânsito, parado na beira do Tietê olhando um esgoto a céu aberto. Isso é o que chamamos "modernidade"? Portanto, podemos dizer que a crise financeira amainou muito da sua dimensão, agora, ela também revelou claramente a dimensão das outras crises latentes que estão aí.
10/02/2010 13:03
[Niko Schvartz]
Muy importante el reportaje que se hace al econimista Ladislau Dowbor
09/02/2010 14:02
[Ana Beth]
Grande prof. Ladislau, j tive a chance de ver suas palestras, vou entrar no blog com certeza. Abraos, Beth
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Comentrios[2]