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artigos do zé
O que diz o PIB
Publicado em 16-Dez-2010

(artigo publicado no jornal Brasil Economico em 16 de dezembro de 2010)

 
Hipnotizado pelo debate sobre o tamanho da inflação e a necessidade de elevar os juros, o mercado parece ter se aprofundado pouco sobre a divulgação, na semana passada pelo IBGE, dos números do PIB do terceiro trimestre. Há diversas informações importantes, a começar pela perspectiva histórica: o Brasil caminha para fechar 2010 como o de maior crescimento do PIB em 25 anos (!) —alta entre 7,5% e 8%.
 
É um avanço muito significativo. Mesmo os que argumentam que 2009 foi de retração (-0,6%) devem reconhecer que o país possui hoje condições de crescer de maneira estruturada —a taxa média de 2007 a 2010 é de 4,6%. A projeção para 2011 é de crescimento de 5,5% sobre a base de 2010, ou seja, o país já provou que pode crescer nesse patamar, desmoralizando a tese do PIB potencial. A se confirmar o índice de 8%, o Brasil terá sido o segundo país de maior crescimento no ano, atrás apenas da China.
 
Com o baixo nível de aquecimento da economia mundial, perspectiva que domina os cenários para o ano que vem, restou à demanda interna o papel de puxar o aumento do PIB. De acordo com o IBGE, a demanda subiu três vezes mais do que o PIB no terceiro trimestre. Mas a produção industrial recuou no mesmo período, restando às importações o papel de atender à demanda em alta. Há duas explicações para esse movimento: a existência de estoques elevados, que seguraram a produção nacional, e o câmbio.
 
Apressadamente, pode-se concluir que nossa indústria está perdendo espaço. Mas tal avaliação fica em xeque quando se observa que os investimentos cresceram ainda mais que o dobro da demanda —não é irrazoável supor que a indústria se prepara para atendê-la. A taxa de investimento registrada pelo IBGE foi de 19,7% do PIB. Considere-se ainda que as variações trimestrais tendem a ser mais instáveis, ensejando leituras errôneas.
 
Todavia, o horizonte guarda algumas certezas. Sem um acordo entre os países, será cada vez mais intensa a disputa no comércio internacional, o que amplia a participação da demanda interna na manutenção do ritmo de crescimento em 5,5%. Por isso, além de equacionar nosso câmbio pressionado há muito pelo excesso de liquidez do dólar, nosso principal problema no momento, devemos trabalhar para que o nível de investimento siga em alta, rumo aos 25% do PIB.
 
Para atender à demanda elevada e evitar estrangulamentos, o país precisa de novos investimentos produtivos, aliados ao incremento da infraestrutura, à redução da burocracia, a uma tributação mais racional, à realização de reformas microeconômicas e ao estímulo ao setor de insumos e matérias-primas. Não restam dúvidas de que não podemos e não devemos combater inflação com juros altos, mas devemos buscar também outros instrumentos, além do compulsório ou da restrição ao crédito. Vale refletirmos sobre a saída costumeira de adoção de mecanismos severos de contenção da demanda, sob pena de usarmos um remédio de efeito colateral indesejado. Afinal, já sabemos os resultados das políticas velhas e recessivas.
 
José Dirceu, 64, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

 

 

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