Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
Escrever, diariamente em blog e semanalmente em coluna de jornal ou site, para quem não é jornalista que analisa superficialmente notícias, nem sempre é prazeroso. Em vez em quando, você trava. Acha que tudo necessário ser dito já foi muito escrito. Imagina que os leitores já terão absorvido dezenas de milhares de palavras sobre Economia. O que se necessita é economia de palavras.
O que você vai criar que os leitores jamais tenham lido antes? Onde você vai encontrar argumentos verdadeiramente originais? Como você vai superar o clichê?
Clichê, em estilística, é a frase rebuscada que se banaliza por ser muito repetida, transformando-se em unidade lingüística estereotipada, de fácil emprego pelo emissor e fácil compreensão pelo receptor. Em poucas palavras, é lugar-comum, chavão.
Robert McKee, em seu excelente livro Story: Substância, Estrutura, Estilo e os Princípios da Escrita de Roteiros (Arte & Letras, 2006), diz bem que “o clichê está na raiz da insatisfação do público, e como uma praga espalhada pela ignorância, ela infecta agora toda a mídia da estória. Muito frequentemente, fechamos os romances e saímos dos cinemas chateados por causa de um final que era óbvio do princípio, desapontados porque vimos essas cenas e personagens clichês inúmeras vezes. A causa dessa epidemia global é clara e simples; a fonte de todo clichê pode ser ligada a um único problema: o roteirista não conhece o mundo de sua estória”.
Você já teve um bloqueio criativo? Dá medo, não dá? McKee conhece uma cura, mas não é visita ao seu psiquiatra. É visita à biblioteca. Você está “bloqueado” porque não tem nada a dizer. Você não pode eliminar, subitamente, seu talento. Mas pode deixá-lo atrofiado se não exercitá-lo como fosse um músculo de seu corpo. Quem ignora não pode escrever. O talento deve ser estimulado por fatos e idéias. É necessário fazer pesquisas para se evitar a economia de ideias. Pesquisa não apenas supera o clichê, mas também o medo e/ou a depressão devido ao bloqueio criativo.
Na análise da política econômica em curto prazo, matéria usual da maioria dos colunistas semanais, o clichê é colocar-se no papel do “mocinho” que sabe tudo. Se o autor for da oposição, naturalmente, o “vilão” é o governo. Caso contrário, o “vilão” é o mercado.
A partir de então, o viés do colunista se estabelece de acordo com a rede de relacionamento interpessoal. Se não possui empatia, sendo radicalmente antipático a todos, critica tudo: do diagnóstico à terapia, como todos os técnicos governamentais fossem incompetentes, ou nas entrelinhas, menos dotados do saber e da inteligência que ele (e seus colegas/companheiros próximos) detêm. Se for mais moderado, com alguns laços de amizade com membros da equipe econômica, não a desqualifica tanto. O problema dela pode estar apenas no “diagnóstico parcial”, ou na “escolha equivocada dos medicamentos (instrumentos de política econômica) indicados”, desde sua composição, propriedades técnicas, contra-indicações, precauções de uso, interações medicamentosas, reações adversas, posologia e modo de usar, até a conduta a ser adotada no caso de superdosagem.
Na situação, o colunista atribui papel essencial de regulação ao governo, enquanto na oposição o governo aparece mais como fonte de instabilidade do que de correção dos desequilíbrios. A questão-chave, porém, não se enfrenta: qual é, de fato, a possibilidade de a política econômica evitar as flutuações econômicas decorrentes de choques econômicos?
A existência de defasagens é forte argumento contra a tentativa dos governos de evitarem as flutuações econômicas. Uma vez identificado o choque, decidido intervir, escolhido o instrumento adequado, quando a política econômica começará a surtir efeito, as condições econômicas poderão já estar completamente alteradas, tendo ela efeito desestabilizador ao invés de estabilizador.
No caso de perturbação temporária, o desvio de rota tende a ser corrigido pelos rumos normais dos negócios; então, melhor não fazer nada. Já no caso de perturbação permanente, tanto a análise da melhor política quanto sua implementação demandam tempo. Há, portanto, dois tipos de problemas no mundo econômico: os insolúveis e os que se resolvem por si só...
A defasagem interna corresponde ao intervalo de tempo que transcorre entre a ocorrência (e o reconhecimento) do choque e a implementação da ação política adequada. Defasagem externa é o intervalo entre a implementação da política e seus efeitos. Em geral, os instrumentos de política fiscal possuem defasagem interna maior, pois necessitam ser aprovados pelo Congresso. Os instrumentos de política monetária possuem defasagem externa maior. A política fiscal atua, diretamente, sobre a demanda. A política monetária atua, indiretamente, demorando para que, uma vez implementada, atinja seu objetivo.
Outros clichês dos artigos sobre Economia? Depende se o colunista é “paranóico antiinflacionário” ou “crescimentista”... Mas a única diferença aparente entre eles, para o leitor comum, é o número de palavras, ou seja, a economia de linguagem. Colunistas aprendem que a economia é a chave, que a concisão toma tempo, e que excelência significa perseverança.
Fernando Nogueira da Costa é professor livre-docente do IE-UNICAMP.
Foi Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal de 2003 a 2007. http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/
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Economia e Desenvolvimento
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