(artigo publicado no Brasil Econômico em 26.04.2006)
Crescem as pressões do mercado internacional sobre o governo da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, por conta da decisão de nacionalizar 51% das ações da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF) que pertenciam à petroleira espanhola Repsol.
Há fortes razões para acreditar que essas pressões estão apenas em seu início, que muito se fará para tentar retaliar a Argentina, e que as questões cruciais da autossuficiência em petróleo e do desenvolvimento produtivo e tecnológico serão relegadas à condição marginal.
O mais recente movimento parte da agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P), que rebaixou de "estável" para "negativa" a perspectiva da nota da dívida soberana do país.
Ocorre que a parcialidade que contamina o debate e impede uma análise mais sensata que pondere também as razões do governo argentino para tomar a decisão.
Ou não são de interesse do povo argentino conquistar a autossuficiência, conseguir aumentar a produção de petróleo e gás, ampliar a capacidade de investimento no setor, profissionalizar a gestão e obter retornos em tecnologia e pesquisa?
Esses objetivos, que integravam o rol de responsabilidades da Repsol, têm potencial para reverter a crescente alta das importações de energia pela Argentina - em 2007, eram US$ 3 bilhões, mas a projeção para 2012 é de US$ 13,3 bilhões.
Além disso, houve queda na produção de petróleo de mais de 30% nos últimos dez anos - desde 2009, a Repsol não perfura um poço novo de petróleo. Portanto, o governo não poderia compactuar com esse processo de evidente perda de competitividade da empresa.
As raízes da derrocada da YPF estão no processo de privatização que dominou a cena dos anos 1990, sendo a Argentina do ex-presidente Carlos Menem um dos exemplos mais radicais de dilapidação do patrimônio público. O custo social e econômico ainda impacta na economia argentina.
Nesse contexto, é preciso pesar os prós e contras da reestatização de parte da YPF, tendo em vista a desconfiança que a decisão trará para a Argentina, mas também a importância estratégica de haver segurança energética.
O que o governo de Cristina Kirchner está dizendo é que a questão energética passa a depender do Estado e de sua capacidade de gestão e investimento.
A atitude do governo tem aprovação da sociedade argentina: 62% da população apoia a decisão, com apenas 8% rejeitando-a por completo e 49% considerando que os efeitos serão positivos para a economia.
É fundamental compreender que o petróleo não é uma commodity qualquer, é uma questão de Estado. A evolução da Petrobras nos últimos dez anos reforça essa avaliação.
O Brasil não só tem no horizonte a autossuficiência na produção de petróleo e derivados, como tem adotado políticas para a compra de insumos e equipamentos no mercado interno, dinamizando a economia nacional.
A Argentina parece buscar o mesmo caminho. É provável que haja reação dos agentes econômicos e dos governos europeus, mas os benefícios da medida até o momento se mostram maiores do que os custos e eventuais prejuízos.
seus comentrios sao muito oportunos. H dias que a medida adotada pela Argentina recebe todo tipo de crticas e retaliaoes, sem apresentaao de argumentos que justifiquem a atitude da intervenao estatal na Repsol.. Parabns.!



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