zé dirceu - um espaço para discussão no brasil
Cadastre-se e receba nosso boletim por email   
nossos colunistas
O grito mudo de Sir Mervyn
Publicado em 07-Mai-2012
ImagePaulo Rabello de Castro

Paulo Rabello de Castro

A celebrada obra de E. Munch acaba de ser arrematada na Sotheby's por US$119,9 milhões. Em Londres, o Financial Times (FT) publica matéria sobre um "speech" de Sir Mervyn King, governador do Banco da Inglaterra, o banco central dos ingleses.

O curioso entre os dois eventos, aparentemente desconexos, é o grito. A obra é "O Grito", datada de 1896, como que profetiza os horrores do século 20, que conheceu duas guerras mundiais, torturas políticas sem paralelo na história da humanidade e dezenas de milhões de vidas humanas ceifadas por pura intolerância ideológica ou religiosa, além da ganância dos poderosos em amealhar riquezas com sangue.

E o grito de Sir Mervyn? Na sua fala à BBC de Londres, ele confessa que, olhando para trás, teria gritado "from the rooftops" - inevitável reproduzir a elegante e quase romântica expressão na língua nativa de Shakespeare - que quer dizer, Sir Mervyn teria berrado às bandeiras despregadas (essa em nosso idioma, também tão bonito) se soubesse do tamanho das consequências dos riscos acumulados nos mercados financeiros a partir de algum momento da virada de 2000.

Com a candura própria dos ingleses quando analisam casos escabrosos, Sir Mervyn confessou lhe terem faltado conhecimentos suficientes de história financeira para detectar em tempo útil e tentar denunciar a tragédia que estava por ocorrer, o maior retrocesso econômico do mundo ocidental desde a Grande Depressão, possivelmente caminhando para ser de uma dimensão até maior do que a crise dos anos 30.

Sir Mervyn não subiu ao telhado para avisar, gritando aos demais colegas, banqueiros centrais, sobre os riscos que se acumulavam, pois estava, segundo ele, olhando apenas os dados convencionais da inflação, do PIB e do nível de consumo e emprego, não dando bola à vulnerabilidade efetiva que se "cristalizava" rapidamente dentro e fora dos balanços dos bancos sobre os quais tinha a missão de regular e vigiar.

Que eu saiba, é a primeira vez que um banqueiro central, na vigência do seu mandato, faz uma sincera e irretorquível admissão de culpa sem intenção de errar nos episódios que desencadearam a crise de 2007 para frente. Alan Greenspan, por exemplo, ainda insiste em tentar provar o contrário.

A importância do "grito" de Sir Mervyn, ainda que tardio, é reparar um erro frequentemente repetido, da alegada ausência de adequadas regras de fiscalização sobre os agentes financeiros.

As regras, como admitiu, estavam lá. Erraram os homens no comando das regras. E não por serventia a um capitalismo doente, mas por ignorância solene da diferença entre árvores e floresta. Em suas palavras, ficaram vigiando as árvores, ou seja, os bancos, nos seus balanços, sempre impecáveis, nem desconfiando de algo errado na floresta como um todo.

E a missão final dos reguladores não é se agarrar nos detalhes, mas acompanhar o clima geral, antecipando fatos críticos.

Não é à toa que um pensador radical, influente e sempre interessante, como Ron Paul, candidato liberal à presidência americana (evidentemente, sem chance nenhuma) anota, com humor cáustico, em artigo ao FT, que a falência intelectual dos banqueiros centrais nos levou à comprovação de que, além de irrelevantes, os bancos centrais, invenção do terrível século 20, são os responsáveis finais pelas crises.


Paulo Rabello de Castro é Presidente do conselho de economia da Fecomercio e do Lide Economia.

 

|

[Comentar]
nome:
email:
comentrio:

mx. 600 caracteres.
digite o cdigo de segurana:  Code

colunistas
Fernando Costa
Paulo Rabello
Breno Altman
Martin Granovsky
Laurindo Leal Filho
Vencio A. de Lima
Eleonora Rosset
Leonardo Boff
Rose Nogueira
Joo Franzim
Joo Guilherme

colunistas

Economia e Desenvolvimento

Argumento

Fernando Nogueira da Costa

Sofisma da Composio

Fernando Nogueira da Costa

Consumismo de Cultura

Fernando Nogueira da Costa

Rentismo versus Consumismo

Fernando Nogueira da Costa

A Esquerda & A Propriedade

Fernando Nogueira da Costa

Influncia Poltica dos Banqueiros

Fernando Nogueira da Costa.

Marcao a Mercado e Alavancagem Financeira

Fernando Nogueira da Costa

IPO = IPI

Fernando Nogueira da Costa


veja mais [+]