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Lelo Purini
Publicado em 17-Mai-2012
Uma crítica pertinente de Lelo Purini

Caro Zé Dirceu,

Aqui quem escreve é o Lelo, militante da Juventude do PT-SP e do Movimento Estudantil, da Faculdade de Direito da USP, do Largo São Francisco.

 

Não costumo escrever para você para comentar notas do blog, mas, sinceramente, achei que deveria fazê-lo nesse momento.
Como deve imaginar, sou leitor assíduo do blog e, nesse sentido, estranhei muito quando li o título da nota: "Os tempos são outros, Dona Merkel"

O estranhamento não se dá pelo conteúdo, mas pelo próprio título. A nota é boa, o conteúdo é satisfatório, mas o emprego do "DONA Merkel" FAZ com que esse seja o único assunto que eu queira comentar neste email. E não sou só eu. Enquanto lia o blog em um café pela região da Paulista, comentei com meus colegas de militância do movimento estudantil, que retrataram o mesmo incômodo.

O incômodo, na minha avaliação,  se deve a luta que NÓS, da ESQUERDA, sempre fizemos no campo da afirmação do direito das mulheres e nas batalhas que NÓS tivemos que enfrentar para evitar desqualificações apriorísticas, muitas delas expressas, inclusive, a partir da própria linguagem, com o uso, por exemplo, da palavra "DONA".

Não sei como foi a eleição da Erundina (afinal, eu era muito jovem hehehe), mas durante a gestão e as campanhas da Marta, aqui em São Paulo, sempre tivemos que enfrentar e debater a desqualificação que vinha sempre acompanhada da expressão: "DONA Marta".

Porque toda vez que a gente ouvia sobre a "DONA Marta" - e não sobre a Prefeita Marta, sobre a política Marta ou sobre, simplesmente, a Marta Suplicy-, a gente estava ouvindo comentários com o propósito de desqualificá-la , dizendo que não era preparada, dizendo que não tinha capacidade de governar, porque a "DONA Marta", se bobear, não tinha nada de diferente da "DONA Lurdinha" da padaria, ou da "DONA Ivone" inspetora autoritária da escola. Ela era só mais uma mulher - dessa vez na política - achando que podia tratar as coisas como se fosse o quintal dela. Então, "pra pôr ela em seu devido lugar", a direita bradava: "Não é assim, DONA Marta. Isso aqui não é sua casa".

Toda vez que a Marta ia para um debate político e atuava de maneira enérgica, era mais uma atitude "DESCONTROLADA" da "DONA Marta". É só lembrar do debate de 2000, na Band, quando a Marta, para se afirmar a desqualificação que Paulo Maluf estava tentando imprimir sobre ela, mandou o Maluf calar a boca. Toda a discussão começa com Paulo Maluf dizendo:
"Quero dizer para a DONA Marta Suplicy que a Sra., administrativamente, é uma desqualificada"

E logo após a Marta vociferar aquele "Cala a boca, Maluf", que estava preso na garganta de todos nós, o mediador tenta colocar panos quentes na situação e  fala: "Por favor, por favor, DONA Marta..."

E o mesmo acontece com a Dilma. Tivemos que enfrentar isso desde a campanha... e a desqualificação continua!Basta conferirmos o Noblat, na última semana (11/05/2012) , onde escreve a nota "Que conversa mole, DONA Dilma". A nota, que tem, nas entrelinhas, um tom de desqualificação pessoal da Presidenta e faz uma crítica ao seu estilo "autoritário", utiliza da expressão "DONA" para fazer deboche, para dizer muito mais coisas (negativas) do que realmente diz, enfim, para desqualificar a partir da picuinha. ESSES SÃO OS ADVERSÁRIOS QUE A GENTE SEMPRE TEVE QUE ENFRENTAR. ESSE É O DISCURSO DELES, NÃO O NOSSO!

Para ilustrar o exemplo de que as palavras dizem muitas coisa, basta lembrarmos o recente alarde que a mídia fez sobre a Lei 12.605/12, que institui a flexão de gênero obrigatória para nomear profissão ou grau em diploma.

Essa é a prova que as palavras significam muito. E que incomodam. Para o bem ou para o mal.

E agora volto a nota: Não há NADA que faça necessário afirmar o "DONA" da nota publcada no blog. Até porque é um subterfúgio ruim, porque desqualifica, mas não entra no mérito da questão. Nós temos sim, muitas divergências com a Merkel e com a política fiscal da Zona do Euro. Há poucas coisas que nos uniria a ela e temos muito a comemorar com os novos rumos que a eleição de Hollande representam para a região, ou com a vitória do SPD nas eleições legislativas da Renânia do Norte-Vestfália - imprimindo a maior derrota a CDU (coligação de Merkel) na região desde a II Guerra Mundial.

Enfim, o que eu quero dizer é que temos MUITOS ARGUMENTOS A NOSSA FAVOR. Temos um momento importante para realizarmos debates políticos sobre a política e a esquerda europeia, mas que eles têm que ser NA POLÍTICA!
Qualquer debate que não seja NA POLÍTICA não nos constrói. Principalmente nesse momento, em que o projeto da direita europeia dá sinais de enfraquecimento na Europa!

E escrevo tudo isso porque acredito que o seu blog é um dos poucos espaços que estão discutindo isso. E muitas pessoas esperam seus sinais para fazerem esses debates, para expôr suas opiniões. Mas essas mesmas pessoas - militantes informados - NÃO ESTÃO DISPOSTAS a entrar no subterfúgio da política. Na desqualificação pessoal. Na piada da linguagem. Os leitores do seu blog querem debater política, e não apenas falar mal da "DONA Merkel".

Por esses motivos, acredito que o  Blog ERRA ao publicar uma nota que, em seu título -de uma maneira completamente descolada do conteúdo -, passa uma impressão machista.

Desculpe o email longo. Embora eu tente negar, a prolixidade é característica dos advogados. Como futuro advogado, não poderia fugir a regra.

Abraços,
Lelo Purini

PS: Em tempo, lendo a nota achei que a contextualização grega está frágil. O que, afinal, nós pensamos das eleições legislativas na Grécia? Quem nós apoiamos por lá? Não há nenhuma opinião sobre nada disso, mas um simples apanhado de informações que poderiam ser encontradas em qualquer jornalão.

 

Marco Aurelio Purini Belem é militante da Juventude do PT-SP e do Movimento Estudantil, da Faculdade de Direito da USP, do Largo São Francisco.

 

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