Paulo Rabello de Castro
Paulo Rabello de Castro
Esta pergunta deve estar despertando um misto de angústia e raiva nos milhares de investidores que decidiram participar da Oferta Pública Inicial (IPO) do Facebook. O preço inicial das ações, de US$ 38, caiu quase 20% até terça feira passada, com uma tímida recuperação no dia seguinte.
A terceira maior oferta pública na bolsa americana, de US$16 bilhões, fazendo a avaliação do Facebook bater nos US$104 bilhões, acabou se transformando num fracasso retumbante para quem decidiu virar investidor daquela rede social.
Pouco antes do leilão, os bancos envolvidos na oferta chegaram a soltar revisões de estimativas sobre a efetiva capacidade da rede Facebook de gerar negócios através de seus anúncios. Porém, essa revisão de última hora foi soterrada pela avalanche da mídia convencional em torno do glamour bilionário de Mark Zuckerberg e de sua trajetória de puro sonho.
Investidores revoltados com o descompasso de informações no prospecto da empresa - uma responsabilidade legal fundamental dos bancos estruturadores da oferta inicial - já buscaram a justiça, entrando com ações contra o Facebook e os responsáveis pelo negócio.
Se ficar provado que houve manipulação dos dados apresentados no relatório técnico preparado para os investidores, os responsáveis terão que enfrentar pesadíssimas multas e pedidos de ressarcimento.
O mais impressionante, neste episódio, é o contraste entre a tremenda badalação que precedeu a negociação, onde a mídia convencional aproveitou para vender minutos de atenção sobre a história do fundador do Facebook e seus parceiros, inclusive um brasileiro tornado cidadão de Cingapura, e o silêncio constrangedor dos meios de comunicação em relação ao desastre financeiro para os compradores do papel na bolsa, que tiveram de anotar em seus livros contábeis um recuo totalmente fora do padrão habitual para este tipo de negociação.
A tragédia nem sempre é notícia de primeira página. Desgraça de muitos é consolo de tontos, diz um ditado espanhol.
Nesses tempos bicudos, quem acompanha meus comentários vai colecionando advertências sobre os riscos crescentes de surpresas bem desagradáveis no mundo dos negócios, num momento em que os preços de todos os ativos mundiais passam por um amplo processo de revisão, em geral baixista, embora manipulados por poderosas forças contraditórias, que jogam na direção altista, por terem ai localizados os seus interesses.
Se eles são políticos, o interesse no viés altista das bolsas e das cotações de commodities é para "provar" aos eleitores que tudo está bem na economia e que podemos continuar confiando.
Se são autoridades monetárias, é para dizer que os abalos na segurança das moedas e do crédito foram revertidos e que não há razão nenhuma para pânico. E se são os comprados, é para provar a si mesmos que compraram bem e não pagaram caro, e ainda haverão de apurar bons lucros especulativos.
Não será esse o trem de raciocínio no atual mercado imobiliário brasileiro e nos mercados de bolsa ou de commodities, até recentemente? Do outro lado, é sempre bom pensar em quem está vendendo. Serão eles os tontos? No caso do Facebook, aparentemente foram os grandes jogadores de Wall Street que ficaram na ponta vendedora, enquanto os amigos do Facebook entravam alegremente no IPO.
Paulo Rabello de Castro é presidente do conselho de economia da Fecomercio e do Lide Economia.
(artigo publicado originalmente no jornal Brasil Econômico)
Economia e Desenvolvimento
Fernando Nogueira da Costa
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