Um choque mobilizador pela tecnologia no BrasilPresidente da FINEP destaca importância da independência tecnológica e da inovação para o país
Um choque mobilizador pela tecnologia no Brasil
“Um dos maiores desafios do Brasil hoje é conquistarmos, efetivamente, nossa independência tecnológica. Este é o único caminho – por meio da educação, ciência e tecnologia - de nos conectarmos com o futuro e sermos efetivamente um país competitivo no cenário internacional. Para tal, urge combatermos o frágil nível de inovação de nossas empresas, um dos maiores obstáculos à sustentação do crescimento”.
As considerações acima são do sociólogo Glauco Arbix, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), empresa pública vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Com uma carteira de projetos de tecnologia na ordem de R$ 14 bi, a FINEP atua em uma das principais áreas do país: a de investimentos, tanto por meio de empréstimos quanto de subsídio, em Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I).
Em entrevista a este blog, Arbix aponta que o Brasil reúne condições para se transformar em uma potência mundial nas áreas alimentar, energética e ambiental, tripé sobre os quais o país tem todas as condições de se firmar. Para tal, precisamos ter educação e um pesado investimento em tecnologia, em sua visão, em torno de R$ 30 bi a R$ 40 bi/ano. “Nós precisamos de R$ 250 bi para a demanda agregada, para empurrar a economia para a frente. E precisamos pegar 15 a 20% desses recursos – o coração do investimento – e decidir que devem ir para tecnologia”.
Arbix também aponta os esforços do governo e a mudança de concepção do papel do setor a partir de 2003 quando recuperamos a capacidade de formulação e implementação de planos de desenvolvimento e as políticas industriais. “Com isso, o Brasil foi pioneiro na América Latina, dando passos ousados numa direção que hoje até mesmo o Banco Mundial e o FMI reconhecem como promissora”. Acompanhem a entrevista.
[ Zé Dirceu ] Glauco, fale sobre a Financiadora de Estudos e Projetos, para que nosso leitor possa ter uma ideia do que é e o que faz a FINEP.
[ Glauco Arbix ] A FINEP é uma empresa pública que existe há 44 anos. Atualmente ela responde ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Trabalhamos com as prioridades fixadas nos planos do Governo Federal e seguimos a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Apoiamos projetos na área científica, universidades e institutos de pesquisa, públicos e privados. Financiamos e apoiamos também todo tipo de empresa que procura desenvolver tecnologia e inovação.
Embora relevantes, não trabalhamos com infraestrutura, expansão, modernização, exportação ou gestão. O foco da FINEP é desenvolvimento tecnológico e inovação, em todas as suas vertentes. A dependência tecnológica é um dos maiores gargalos da sociedade brasileira e o frágil nível de inovação de nossas empresas é um dos maiores obstáculos à sustentação do crescimento da economia brasileira. Combinada à ênfase na educação, a superação desses gargalos é desafio chave para o Brasil do século XXI construir-se como uma sociedade baseada no conhecimento.
Todos sabemos que para melhorar constantemente a vida da população e afirmar-se no cenário internacional como uma potência energética, alimentar e ambiental, o Brasil precisa ampliar o investimento agregado para 22% ou 23% do PIB em 2014 (clique aqui para conhecer as metas do Plano Brasil Maior). No mesmo sentido, parcela substantiva desse investimento precisa ser orientada para as áreas intensivas de tecnologia e inovação, capaz de promover ganhos reais de produtividade e competitividade. Esse é o calcanhar de Aquiles do Brasil. Sem isso fica difícil pensar em diminuir nossas desigualdades e superar a pobreza e a extrema pobreza.
Não há como pensar um Brasil atuante no cenário internacional e com avanços sensíveis rumo à uma sociedade democrática e mais civilizada sem superar a distância que nos separa das nações avançadas na produção de ciência e tecnologia.
2003 marca o ressurgimento de
planos de desenvolvimento no setor
[ Dirceu ] Você diria que houve uma inflexão na área de ciência, tecnologia e inovação no Brasil a partir dos governos Lula?
[ Arbix ] Sim. Avançamos muito nos últimos anos. O governo Lula representou uma inflexão muito grande nas áreas de ciência, tecnologia e inovação. A partir de 2003 vemos ressurgir no país a preocupação com planos de desenvolvimento, assim como recuperamos a ideia de políticas industriais. Com isso, o Brasil foi pioneiro na América Latina, dando passos ousados numa direção que hoje até mesmo o Banco Mundial e o FMI reconhecem como promissora. Durante os dois mandatos do Presidente Lula os recursos investidos em CT&I aumentaram significativamente. Isso não ocorria há muito tempo. Não somente os recursos do MCTI foram expandidos, como vários outros ministérios e agências tiveram seus orçamentos dedicados à C&T mais robustos, como os Ministérios da Educação, Defesa, Agricultura e Saúde.
Lembre-se que a primeira política industrial após um período de mais de 25 anos foi elaborada pelo governo Lula em 2003 e lançada em 2004 – a Política Industrial e Tecnológica de Comércio Exterior (PITCE). Sua 2ª versão, mais encorpada, com maior musculatura, veio em 2008 e foi chamada de Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), desta vez com grande envolvimento do BNDES. Depois tivemos as duas versões do Plano Brasil Maior, que é o nome da política industrial de 3ª geração, já no governo da Presidenta Dilma Rousseff. Há continuidade, portanto, nas políticas industriais, assim como nas de C&T, entre o governo Lula e o governo Dilma. Acredito que uma nova articulação entre o setor público e privado nasceu nesse período, marcado por um grande diálogo entre as empresas, Universidade e órgãos públicos. No mesmo sentido, uma nova articulação nasceu no Legislativo e também no interior do próprio governo, o que facilitou a liberação de recursos assim como a criação de novos instrumentos e instituições voltadas para a CT&I.
Na verdade, o Estado brasileiro passou a se comportar de modo mais proativo, distinto da opção pela inação dos anos 1990 quando o assunto era política industrial e tecnológica. Essa nova atuação do Estado sustentou também a intensificação e a criação de novas políticas sociais, muito mais adequadas à diminuição da pobreza e das desigualdades que nos atormentam há muito tempo. São políticas fortes, implementadas por governos que não temem ser fortes em ambiente de economia aberta e profundamente marcado pela democracia. Nesse sentido, começou a tomar forma no Brasil, a partir da liderança do presidente Lula e agora com a Presidenta Dilma, um estilo de fazer política de desenvolvimento que já se constitui como uma referência para outras instituições e países.
Preocupação com inovação é marca do governo
[ Dirceu ] A presidenta Dilma tem ressaltado a importância da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) para o Brasil se desenvolver e concorrer em pé de igualdade no cenário internacional. Quais políticas efetivas têm sido implementadas nessa direção?
[ Arbix ] O governo atual conta com uma série de políticas e instrumentos para incentivar CT&I no Brasil. Além do Plano Brasil Maior (confira aqui) que envolve uma série de programas, alguns deles muitas vezes até mais específicos como por exemplo no setor automobilístico, em software e outros, temos a Estratégia Nacional de CT&I, aprovada no ano passado, ainda quando o Ministro Mercadante estava à frente do MCTI. A preocupação com a inovação é marca de governo. Por isso mesmo, o investimento geral em CT&I, oriundo de todas as pastas e instituições do Executivo, cresce a mais de 20% ao ano desde 2007. A FINEP, que também vinha crescendo, deu um salto enorme em 2011.
[ Dirceu ] Como é possível medir isso?
[ Arbix ] Quando o assunto era inovação nas empresas, há cinco ou seis anos, o discurso das autoridades era “nós temos recursos, mas não temos projetos da iniciativa privada”. Hoje, porém, a realidade é bem diferente. Estou na FINEP desde fevereiro de 2011. Neste período, geramos uma carteira diretamente fomentada por nós de R$ 14 bilhões em projetos de tecnologia com concentração nas áreas críticas, ou seja, naquelas que o Brasil mais precisa e que são prioridades do governo.
Mais de 80% dos projetos que analisamos, aprovamos e contratamos estão vinculados às áreas de Energia (no etanol de 2ª e outras gerações, no pré-sal, nas fontes eólicas e solar), da Saúde (que forma um complexo imenso, que vai dos medicamentos aos equipamentos), Espacial, nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e na área da Defesa.
Além dessas, temos as áreas chamadas verdes ou sustentáveis que crescem não só aqui, mas em todo o mundo.
Os programas que temos hoje foram reforçados pelo governo da presidenta Dilma. Quem trabalhou entre 2002 e 2004 no governo Lula sabe as dificuldades que tínhamos para envolver o empresariado. Quando começamos a falar em inovação e tecnologia era uma dificuldade, pois inovação era tida como um luxo. O salto que o Brasil deu, que as empresas deram, foi muito grande. Ainda que as empresas brasileiras inovem pouco quando comparadas ao mundo avançado. Porém, não há como negar as mudanças sensíveis que o país viveu nos últimos anos. E a carteira de projetos de tecnologia da FINEP, com seus impressionantes R$14 bi de demanda apenas para crédito, é apenas mais um indicador dessas mudanças.
[ Dirceu ] Para empréstimo?
[ Arbix ] Isso é fantástico porque se trata de empréstimo. Claro, empréstimo com recursos públicos subsidiados. Mas, empréstimo, ou seja, recursos que as empresas deverão restituir aos cofres públicos mesmo se seus projetos derem errado. Isso significa um risco grande para quem deseja vencer as já difíceis barreiras ao investimento que existem no Brasil. Ou seja, não falamos de recursos a fundo perdido.
Aqui vale um parênteses. Nos países geradores de tecnologia a inovação é produzida com base em muito recurso público. Investimentos de todo tipo sustentam as empresas e centros de pesquisa. Como regra geral. Temos que para cada US$ 1,00 do setor privado temos US$ 1,00 do setor público, nas suas mais diferentes formas. E não estou nem considerando aqui os subsídios, muitas vezes disfarçados, que entram na economia em muitos países pela porta da indústria da Defesa e que desembocam na iniciativa privada. Falo apenas dos dados mais relevantes de CT&I em geral.
É fundamental entender que é preciso diminuir o risco e a incerteza envolvidos na produção de ciência e tecnologia. Se o poder público não atuar de modo a mitigar e dividir de alguma forma os investimentos privados, dificilmente as empresas avançarão em seus investimentos. O Brasil demorou para compreender essa realidade, praticada intensamente nos países avançados desde pelo menos o pós-Segunda Guerra. Foi nesse período que se descobriu o peso da tecnologia para o desenvolvimento. No Brasil, a subvenção econômica – transferência de recursos públicos para projetos de empresas privadas, mais suas contrapartidas – começou a ser praticada apenas em 2006, pela FINEP. Isso foi possível após a Lei de Inovação, promulgada em 2005. Portanto, estamos ainda na infância dessa atividade. E, é bom que se diga, apesar da Lei, há um número enorme de incompreensões em vários níveis do Estado brasileiro, que dificultam a execução da Subvenção Econômica de uma forma mais eficiente.
Empresas precisam inovar mais
[ Dirceu ] Tínhamos aqui um problema que era o nível muito baixo de investimento em ciência, tecnologia e inovação...
[ Arbix ] Certo. Mas, como sociólogo, não posso deixar de realçar que pode haver também um problema com o empresariado brasileiro, por muitas décadas acostumado a trabalhar em uma economia fechada. Ou seja, com grau menor de competição e mesmo de exigência de qualidade. Nesse sentido, não há como deixar de enfatizar que as políticas industriais de hoje são muito diferentes das aplicadas nos anos 50, 60 e 70. Vivemos uma economia aberta, em regime democrático. Mais do que isso, o ambiente global em que a competição se dá força a busca de articulações, de redes de conhecimento. Essa diversidade é fonte de inovação.
Aquele Estado que decidia onde alocar investimento, quem teria ou não sucesso, não existe mais. Hoje, toda e qualquer política precisa ser debatida. Há uma série de crivos, filtros. Há comparações e controvérsias. Isso é muito positivo pois as instâncias de governo tiveram que aprender a dialogar mais. O mesmo ocorreu com as empresas e empresários. Há movimentos empresariais que se pautam pela inovação e que mantêm estreita colaboração com os órgãos públicos. Essa aproximação, sem dúvida, cria sinergias dinâmicas que, com certeza, alimentaram os avanços que o Brasil deu em período recente.
Mas, apesar desses avanços, temos uma realidade a transformar. Pelos dados do IBGE temos hoje cerca de 6 mil empresas que inovam. Deste total, o número de empresas que se beneficiam de empréstimos ou de subvenção pública não chega a 10%. O fato é que 90% das empresas fazem seus investimentos nessa área com recursos próprios. Essa é uma questão de fundo que preocupa o governo, o nosso Ministério e a FINEP em especial.
[ Dirceu ] Menos de 600 empresas?
[ Arbix ] Quando se trata de tecnologia, o número de empresas que forma a carteira anual das agências públicas gira em torno de 600 empresas que utilizam direta ou indiretamente recursos públicos. É uma situação inédita no mundo, que você não encontra em nenhum país avançado ou emergente. Na China, Japão, Índia e Estados Unidos, existe subvenção na veia das empresas nas áreas de grande risco tecnológico, uma vez que os juros já estão negativos e os empréstimos são praticados pela rede privada bancária. Ou então as empresas participam das encomendas públicas por tecnologia, baseadas no poder de compra do Estado, o que é muito comum nas áreas como Defesa, Aeroespacial e Energia.
No Brasil, as empresas estão praticamente sozinhas em meio a uma economia que nem sempre é amigável à inovação. Pela alta carga tributária, pela fragilidade da nossa infraestrutura, pelo alto custo da terra, da energia, pela complexidade burocrática. Nosso Brasil é um país com muitas carências e, por isso mesmo, há um enorme trabalho a ser feito para preparar o ambiente externo ás empresas mais favorável à inovação.
Se levarmos em conta essa realidade, começaremos a entender como é difícil para as empresas inovarem no Brasil. Mas, mesmo assim, as que inovam fazem com que o Brasil seja um país único entre todos os emergentes.
Faça uma comparação entre a indústria brasileira e a argentina ou a mexicana. Com todo respeito por eles, a nossa economia é muito mais diversificada, heterogênea, capacitada e dinâmica. As empresas brasileiras saíram pelo mundo muito rapidamente. Contrariamente aos estudos que sugeriam que multinacionais eram coisas de países avançados, temos empresas brasileiras que se internacionalizaram e que são um caso de sucesso diferenciado. As chinesas, por exemplo, percorreram um longo caminho. Primeiro ganharam os mercados asiáticos e só depois foram para os EUA e Europa. Mas com as empresas brasileiras que se internacionalizam tem sido diferentes. O destino preferencial delas é a Europa e os EUA, onde enfrentam uma concorrência gigantesca.
Esses casos de sucesso servem de exemplo, pois ao olharmos para o universo global das empresa brasileiras, vemos que a esmagadora maioria ainda executa estratégias de sobrevivência. A maioria é tímida e despreparada para uma competição mais aguerrida. E esse é o grande desafio da nossa política industrial. Como expandir as médias e pequenas empresas, sobretudo, as que não estão no Sudeste?
Hoje temos políticas e demandas fortes. Há uma demanda ainda a ser atendida na FINEP, de empréstimo, de R$ 6 bi para este ano.
Crédito, subvenção e investimento
Para aumentar a eficiência do gasto público com tecnologia e inovação é fundamental avançar mais do que o crédito. Os lances virtuosos ocorrem quando se consegue combinar crédito, subvenção e investimento.
Como funciona isso? Para atender a demanda por inovação das empresas o Brasil precisa poder integrar o crédito (de modo a diminuir custo de capital), a subvenção (para diminuir risco tecnológico) e ainda contar com a participação no seu projeto. Esse último item é de futuro, pois é o que permite uma compensação mais direta para o investimento público. Se o projeto der certo, como os instrumentos são baseados em recursos públicos, é natural que haja retorno para o setor público. Claro, isso além do retorno em dinamismo na economia, que se mede pelo número de empregos gerados pela tecnologia, no dinamismo da indústria e serviços, no aumento dos salários e da produtividade. É perfeitamente possível combinar essas ferramentas e obter ganhos de eficiência mais palpáveis.
Além do crédito e da subvenção, a FINEP gostaria de se associar a um bom projeto de tecnologia e, com isso, ganhar os devidos dividendos.
Infelizmente ainda não podemos combinar esses instrumentos com facilidade.
[ Dirceu ] Onde está o problema?
[ Arbix ] Há problemas de marco regulatório. É preciso mudar uma parte da legislação. E tem também problemas que, na falta de outra palavra, chamaria de “cultura”, que impregna muitos órgãos do Estado e que os deixa com menos flexibilidade. Os países que avançaram em CT&I conseguiram combinar e tornar mais eficiente todo esse conjunto de instrumentos e políticas. O Brasil está a um passo de utilizar bem todos os instrumentos e instituições que construiu nos últimos 20 anos e que são bem avançados.
[ Dirceu ] Como funcionam as coisas na FINEP, na prática?
[ Arbix ] A partir de 2003 a atuação da FINEP passou a ser muito relevante. Na trajetória histórica, a FINEP reatou com suas origens quando desempenhou papel de primeira grandeza no desenvolvimento da engenharia básica, no suporte à empresas e à infraestrutura acadêmica. Vários gigantes que hoje estão por aí nasceram dentro da FINEP. Nós temos uma área de investimento, que deve crescer muito. Apoiamos startups, empresas de base tecnológica, fundos de inovação. Centenas e centenas de empresas. Temos a área de crédito, que atinge bem empresas médias e grandes. Estamos prestes a lançar um programa de subvenção para pequenas empresas, um programa descentralizado, a ser feito com os estados. A FINEP precisa descentralizar sua atuação pois não tem capilaridade nem conhecimento local para saber onde e como melhor investir. O Brasil de hoje exige isso.
As mudanças que desenhamos para a FINEP vão nessa direção, de modo a atingir e provocar uma explosão de pequenas empresas. Mas também projetamos mudanças que vão na direção do nosso reconhecimento como instituição financeira. É curioso, pois nascemos como instituição financeira há 44 anos. Mas a FINEP não é reconhecida como instituição financeira. Nós emprestamos dinheiro como um banco. Fazemos gestão econômica, temos investimentos, mas não somos reconhecidos como instituição financeira.
[ Dirceu ] Não é reconhecido pelo mercado?
[ Arbix ] Legalmente não somos uma instituição financeira.
[ Dirceu ] Essa mudança pode ser feita por portaria ou decreto? Ou é a própria legislação?
[ Arbix ] Temos de alterar nosso estatuto, de modo a poder operar com maiores volumes e de modo a ter acesso a novas fontes de recursos. Penso que essa deve ser uma decisão da presidente Dilma, pois interfere no conjunto de instituições da República. Essas mudanças têm na sua base a necessidade da FINEP crescer, multiplicar por cinco ou seis vezes os recursos com os quais opera hoje. É isso o que o Brasil precisa, investir R$ 40, R$ 50 bilhões por anos em tecnologia.
[ Dirceu ] Em relação aos investimentos em inovação. Além dos países ricos, China e Índia têm cerca de 2% do PIB investidos em inovação, não é? 1% de recurso publico e 1% de recursos privados. E o Brasil?
[ Arbix ] É. O Brasil tem menos que isso. Nós investimos 1,2% do PIB: metade público, metade privado. Mas é bom lembrar que entre as empresas está incluída a Petrobras. Se tirarmos a Petrobras, esse índice de 0,6% (cerca de 50% do investimento total em P&D) cai para 0,4%. Isso significa que as empresas brasileiras, apesar das mudanças muito fortes nos últimos anos, ainda precisam investir muito em tecnologia e inovação.
O objetivo do governo é ampliar o índice atual para 1,8 % do PIB até o final de 2014 – 0,9 % do governo e 0,9 % das empresas. Significa crescer 20% ao ano, o que é muito difícil. Salvo se houver a decisão de investir mais e melhor. Se os recursos vierem, é bem possível que o Brasil possa alcançar essa meta.
[ Dirceu ] Há também o problema de gestão, se crescer rápido.
[ Arbix ] Problemas de gestão temos crescendo rápido ou devagar. Na FINEP temos problemas enormes de gestão. Mas, sem perspectiva de futuro, sem clareza de evolução institucional, dificilmente a gestão será boa. A FINEP, como instituição única inteiramente dedicada à tecnologia, deve ser mais ainda uma agência de excelência. Com plano de carreira, bons salários e muito conhecimento acumulado. Isso, acredito, só teremos se conseguirmos avançar em nossa estratégia de médio prazo, de crescer institucionalmente, de ganhar corpo de análise e de execução. Isso se faz com respeito aos clientes, sejam empresas ou Universidades, com transparência e prestação de contas permanente à sociedade.
[ Dirceu ] Os problemas para crescer mais rápido estão ligados somente à falta de investimento ou tem uma questão cultural também? Nessa programação que você pensa, tem alguma iniciativa específica ? Para atacar a questão da cultura do empresariado?
[ Arbix ] Hábitos não pertencem somente ao empresariado. Em nossas universidades também temos distorções muito grandes. As universidades brasileiras cresceram muito nos últimos anos. E passaram a produzir uma quantidade significativa de artigos acadêmicos e pesquisas com padrão internacional. Mas continuamos com dificuldades para dialogar e entrar em sintonia com o país. Esse é o problema chave.
[ Dirceu ] E isso vale para toda universidade? Pública e privada?
[ Arbix ] Pública e privada. Veja, muita coisa mudou. Tem muito avanço, mas as dificuldades ainda são enormes. Então nós temos que continuar investindo em ciência, mas a universidade tem que trabalhar essa sintonia com o mundo real, que gera emprego, renda. Porque senão não tem muito sentido, entende? Todo mundo que faz ciência em qualquer lugar do mundo, faz ciência para mudar a vida das pessoas e não apenas para publicar artigos ou relatórios científicos.
Universidade tem de aumentar
a sintonia com esforço do país
[ Dirceu ] O que falta especificamente na universidade?
[ Arbix ] A universidade brasileira tem que aumentar a sintonia com o esforço do nosso país. Concebe-se alguma universidade chinesa ou indiana por fora desse esforço que eles fazem por lá?
[ Dirceu ] Não, elas são feitas para isso.
[ Arbix ] A começar pelo esforço educacional, agora que elas se voltaram para a pedagogia, para as metodologias de ensino.
[ Dirceu ] A minha impressão é que ainda está muito na questão da busca do volume, da quantidade, e pouco ainda na qualidade.
[ Arbix ] Mas isso se coloca para as universidades e também se coloca para as empresas certo? E o Brasil tem que aproveitar o potencial de geração de conhecimento que tem. Seja na universidade, na empresa ou em qualquer lugar, tem que aproveitar. Como estamos nos esforçando para aproveitar agora. Nós não inovamos com o Bolsa Família? São inovações institucionais, de tipo social. A questão da inovação, seja em que área for, é uma questão chave para nós. Não podemos ficar pra trás nisso.
[ Dirceu ] Está certo. Vemos que você dá importância à questão da universidade, com o que eu concordo. Mas vamos falar da empresa em si. Como fazer para sacudir o empresariado?
[ Arbix ] Está mudando muito. Você vê hoje movimentos muito fortes no setor empresarial. Tem o Brasil Competitivo, a Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) que é muito ligada à Confederação Nacional da Indústria (CNI). Tem associações como a ANPEI, que é muito dinâmica. Os grandes empresários, as empresas estão se unindo. E dialogando com o governo.
Então a se a ideia da inovação está disseminada hoje, isso se deve basicamente aos esforços desenvolvidos pelo governo desde 2003. Graças a isso ninguém questiona mais a importância da inovação. Muitas vezes não se sabe como fazer... mas houve uma disseminação da ideia. Virou uma palavra forte em todo lugar. E isso é super importante. Ajuda a alterar o metabolismo das empresas, as ideias e o funcionamento delas, entende? Ajuda a ousarem mais. As empresas brasileiras têm esse problema: saem muito pouco fora dos seus “trilhos” e convenções.
[ Dirceu ] O dado que tem aqui é que nos Estados Unidos as empresas investiram em 2010, US$ 20 bi, em 62 mil empresas inovadoras, com investidores de tipo “Angel”. É isso?
[ Arbix ] Isso é um tipo específico de investimento. Os números dançam muito dependendo da maneira como se mede. Mesmo os dados que eu estou dando para vocês de 1,2% do PIB se referem a P&D, Pesquisa e Desenvolvimento. E quando tratamos de P&D temos que deixar de lado, de início, 99% das empresas brasileiras porque elas são pequenas empresas, que muito raramente possuem um laboratório ou um departamento de P&D.
Tudo bem, na área da saúde... mas, em geral, fazer grandes pesquisas na área de desenvolvimento, só em médias e grandes empresas. Dou um exemplo concreto. Nós lançamos em abril do ano passado (2011), junto com o BNDES, com a presença do ministro Mercadante (MCTI), Luciano Coutinho (presidente do BNDES) e da FINEP, um programa para etanol de segunda e outras gerações.
[ Dirceu ] Qual é a diferença com o etanol de primeira geração?
[ Arbix ] O etanol de primeira geração é o etanol com base na cana, produto no qual o Brasil é altamente competitivo, é o país mais competitivo do mundo. O Brasil é o segundo produtor mundial de etanol, mas o primeiro produtor produz etanol com base no milho, que são os Estados Unidos. Gasta-se mais energia para gerar etanol do que o etanol gera de energia.
[ Dirceu ] É a briga com os subsídios...
[ Arbix ] Isso, tem a ver com a história deles, com as escolhas deles. O nosso etanol é muito mais limpo, muito mais eficiente. Nessa área nós estamos indo muito bem. Agora, o etanol de segunda geração é o etanol de base celulósica. É como se eu falasse assim: ao invés de eu pegar a cana, posso pegar capim, qualquer coisa que tenha fibra, celulose. Já é tecnologicamente viável fazer o etanol de segunda geração a partir de diversos insumos. O problema é que ainda não é comercialmente viável, pois os processos industriais são muito caros. Então o mundo inteiro está tentando chegar lá.
Eu estudei em Berkeley (EUA), que conta com um grande centro, o Instituto da Califórnia de Tecnologia. Lá o investimento é em algo como US$ 3 a 4 bi no etanol de segunda e outras gerações. Nós lançamos aqui no Brasil um programa que, perto destes números, é bem modesto, de R$ 1 bi: R$ 500 milhões da FINEP e 500 do BNDS. Esperávamos uma demanda de R$ 1,5 bi para então fazermos uma boa seleção e seguirmos adiante. Saiu uma demanda de crédito para R$ 14 bi, vindo diretamente das empresas!
Ficou claro que estávamos subestimando a demanda. Veja, recebemos pedidos para R$ 14 bi de crédito! Essa foi a demanda para o etanol de segunda geração. Quem faz essa demanda? Não estou falando de universidades. Há 15 anos sabe quem fazia pesquisa com etanol? Era a USP de Piracicaba, Luiz Queirós, eram as cooperativas, o Instituto Nacional de Tecnologia, a Embrapa e algumas poucas mais. A participação da indústria privada era mínima. Hoje essa realidade mudou. São centenas de empresas pesquisando o etanol no Brasil. O país mudou, e se a gente não perceber essa mudanças, corremos o risco de ficar por fora e elaborar política equivocadas.
Agora nós estamos preparando um programa parecido com o BNDES, só que para a área do Pré-Sal. Espero que, desta vez, não erremos na calibragem.
[ Dirceu ] E quanto vai ser?
[ Arbix ] Nós esperamos algo em torno de R$ 2 bi e meio. O problema do Pré-Sal é que ele é mais intensivo em capital do que o outro, precisa de mais recurso para entrar nas áreas críticas de tecnologias. Se nós não vencemos essa barreira Zé, sairemos mal na foto. Veja o seguinte paradoxo: a Petrobras vai responder por mais da metade da demanda mundial por alta tecnologia na área do Pré-Sal. Eu não estou falando de estrutura e fornecimento, eu estou falando das áreas críticas: é o robô, são os novos materiais para a extração, é a área de software, é a área de sísmica avançada, é a física de alto desempenho, coisas assim. Agora veja a situação: a Petrobras vai comprar do mundo nos próximos anos a maior parte dessas tecnologias – diga-se de passagem grande parte dela hoje inexistente. O problema é quando pegamos a lista das 100 maiores empresas que fornecem tecnologias especializadas no mundo, sabe quantas brasileiras tem? Nenhuma.
[ Dirceu ] Nenhuma?
[ Arbix ] Nenhuma.
[ Dirceu ] O esforço é para que a Petrobras seja uma delas?
[ Arbix ] A Petrobras e outras empresas. Nós temos o maior orgulho por estarmos colocando agora, em conjunto com a Petrobras e com o BNDES, o desenvolvimento de projetos por médias empresas em uma área bem crítica em tecnologia. É uma costura que você tem que fazer, que você sabe que não é fácil pois envolve pré-contrato, compromissos. E nada disso é fácil no Brasil. Nós não temos muito essa cultura. Mas vamos ter que desenvolvê-la. O Pré-Sal abre uma perspectiva gigantesca de o Brasil ser uma potência mundial na área de energia.
[ Dirceu ] E se ela não tivermos a tecnologia, seremos um gigante com os pés de barro.
[ Arbix ] Isso mesmo. Temos a possibilidade de nos tornarmos uma potência global na área de energia. Já somos o segundo maior produtor de alimentos do mundo e podemos ser o primeiro. Podemos ser uma potência ambiental, se trabalharmos bem, devido à nossa biodiversidade, além da capacidade que nós temos de inovar nessas áreas. 
Então eu acho que esse é o tripé de um país do futuro: potência alimentar, energética e ambiental. Mas para isso precisamos ter educação, investimento pesado em tecnologia. O Brasil precisa dar um salto. Não dá mais para pensar em um aumento incremental de investimento em CT&I. Precisamos tomar a decisão e colocar R$ 30, R$ 40 bi em tecnologia. Percebe? Nós precisamos de R$ 250 bi para a demanda agregada, para empurrar a economia para a frente. E precisamos pegar 15 a 20% desses recursos – o coração do investimento – e decidir que devem ir para tecnologia. Precisamos dar um solavanco. E para isso é preciso casar universidade com empresa, fazer pesquisa. E inovar.
Tem coisas impressionantes acontecendo. Eu acho que a gente tem condições de fazer isso, acho que podemos dar esse salto. Espero que isso seja possível e é com essa perspectiva que eu trabalho: para que o governo ajude o Brasil a dar esse salto. E para que a FINEP junto com o Brasil dê esse salto.
Salto tecnológico que o Brasil precisa
[ Dirceu ] A presidenta Dilma...
[ Arbix ] A Presidenta tem falado muito disso. O presidente Lula também falou e ajudou efetivamente as coisas a darem um salto. Eu acho que há uma continuidade. Mas agora estamos diante de um desafio de outra dimensão. Precisamos de mais do que continuidade. O salto agora tem que ser bem maior. Você sabe, tecnologia e ciência não acontecem por acaso.
O Brasil tem essa tradição, ruim, de que se o país se industrializar, automaticamente gera tecnologia. Não é assim gente... Automaticamente o mundo gera detrito. A Presidenta Dilma não se cansa de empurrar as empresa para a inovação. Sem se descuidar da formação de recursos humanos, como podemos ver com o Ciência sem Fronteiras, 100 mil pesquisadores no exterior. Um choque cultural. É disso que precisamos.
[ Dirceu ] Você tem falado em transformar a FINEP em uma agência de fomento. Como é isso?
[ Arbix ] Veja, o ministro Mercadante assumiu o MCTI falando em banco da inovação. A ideia era mudar e dar uma linha institucional para a FINEP. Acho que ele estava correto nisso. Agora qual é forma de instituição financeira mais adequada? Nós trabalhamos com crédito, com banco, mas nós não fazemos só isso. Nós repassamos recursos para as universidades, para fazer infraestrutura, fazer laboratórios... nós trabalhamos com aquilo que é chamado de não reembolsável. Quem trabalha com isso? Ninguém trabalha com todos esses instrumentos. Então, se a FINEP for se transformar em uma instituição financeira, tem de ser uma instituição especial. No nosso caso, chama-se agência de fomento.
Nós somos a única agência do Brasil habilitada a trabalhar com subvenção econômica. De acordo com a lei, nós investimos quase R$ 500 milhões por ano nas empresas a partir de editais públicos.
O programa do etanol permitiu que nós lançássemos um programa de crédito competitivo no Brasil. Nós vamos financiar os melhores projetos e, junto com isso, nós podemos dar subvenção econômica para os que têm mais alto risco tecnológico. Aí nós começamos a quebrar o muro que nos impede de ir além. Nós quebramos, mesmo com o marco regulatório atual, que é limitado. Estamos conseguindo avançar, apesar de tudo.
[ Dirceu ] Muito bem. Com isso você já nos deu um balanço da FINEP nesses últimos tempos. Para podermos concluir, você poderia dizer quais são as principais metas para 2012?
[ Arbix ] Eu dei uma entrevista no começo do ano dizendo que 2012 seria o ano da FINEP (confira). Mas na verdade eu espero que seja o ano do Brasil. Nós temos que florescer de vez isso aqui. Nosso objetivo é colocar R$ de R$ 7 a R$ 8 bilhões na economia em projetos, seja nas empresas, seja nas universidades e institutos.
Atualmente temos R$ 14 bi de reais de projetos vivos dentro da FINEP.
[ Dirceu ] Em andamento?
[ Arbix ] Em andamento. Não é o acumulado. Não é estoque. É o que está vivo dentro da FINEP, seja na área de crédito, seja como investimento a fundo perdido e no chamado não-reembolsável. Nós gostaríamos de por na economia este ano de R$ 7 a R$ 8 bi. É preciso explicar que nossos contratos são plurianuais, por exemplo no ano passado nós contratamos R$ 3 bi em crédito e colocamos na economia R$ 2 bi, ou seja, tem uma parte que não entra automaticamente. Para isso nós vamos ter que contratar de R$ 7 a R$ 8 bi. Tenho por base os anúncios da Presidenta de que não faltarão recursos para Inovação.
[ Dirceu ] Quer dizer que o orçamento para este ano já está fechado?
[ Arbix ] Não, não está fechado ainda. Nós temos conversas com o Ministério da Fazenda, vamos fechar ainda. É possível que a FINEP precise de mais recursos se quisermos atender a demanda atual. Este é o nosso primeiro objetivo.
O segundo objetivo para este ano é lançar uma conta especial, como se fosse um cheque especial para as empresas que já investem em inovação. Hoje, há um problema de descontinuidade: as empresas brasileiras investem e param, investem e param... então nós queremos criar uma conta especial para estimular a continuidade dos investimentos.
[ Dirceu ] Estímulo para a permanência.
[ Arbix ] Será uma conta com condicionalidades. As empresas receberão uma oferta de crédito determinada e, de acordo com seu desempenho, se melhoraram a qualificação de seus funcionários, se contratarem mestres e doutores, se internalizarem tecnologias que importam, terão mais crédito disponível. Nós vamos fazer um processo de contrapartida e esperamos que dê um dinamismo muito grande às empresas. Temos conversado com várias empresas nesse sentido.
[ Dirceu ] E os empresários têm gostado?
[ Arbix ] Têm gostado muito. É, mais uma vez, uma prova de que havendo por onde andar, as empresas vão atrás.
O terceiro projeto da FINEP é a descentralização. Queremos descentralizar nossas ações. É ingenuidade imaginar que num país do tamanho do Brasil, um ponto perdido no Rio de Janeiro vai ajudar todos os estados, cidades, regiões.
[ Dirceu ] Vocês só têm um escritório?
[ Arbix ] Além da sede no Rio temos um escritório operacional em São Paulo e um escritório de representação em Brasília. O escritório de São Paulo precisa crescer dado o tamanho da economia e o número de empresas inovadoras.
[ Dirceu ] E não tem nada no Nordeste, no Sul, nada?
[ Arbix ] Mas a solução não é necessariamente ter sedes distribuídas pelo Brasil afora. A solução é trabalhar com agentes locais. O Brasil é uma imensidão. Hoje você tem leis de inovação estaduais, leis de inovação de cidades... então nós temos que credenciar agentes que vão fazer trabalhos junto com a sua base. Só assim poderemos atingir a pequena empresa.
[ Dirceu ] E quem seriam esses agentes locais?
[ Arbix ] Nós fizemos acordos com os governadores, para eles escolherem os agentes financiadores. Pode ser uma fundação do amparo à pesquisa (uma FAP, tipo FAPESP em São Paulo), ou uma agência de desenvolvimento ou um banco estadual. Enfim, buscamos criar uma rede de agentes locais para podermos atingir as empresas onde elas estiverem.
Trabalho e inovação
[ Dirceu ] Pelo que você está nos contanto, há uma grande mudança em curso na FINEP, o que é muito bom para o Brasil. Mudando a conversa um pouco para outra direção: e os sindicatos de trabalhadores? Como eles vêem essa questão da inovação?
[ Arbix ] A primeira coisa é que quando se fala de sindicato pode parecer que são todos iguais. Mas não são. Você sabe muito bem disso. Tem muito sindicato avançado que participa da discussão sobre inovação e tecnologia, de uma maneira muito tranquila. Os metalúrgicos do ABC sempre tiveram uma participação grande nesse debate. Aliás foram os primeiros a entender que para defender o emprego e salário deles lá nas fábricas, tinham que ter modelos novos de automóveis. Tinham que ter desenvolvimento, desenvolver tecnologia e fazer inovação. E isso nem sempre é tranquilo, porque quando se fala em novas tecnologias alguém levanta logo que vai ter desemprego. Então esse debate provoca uma resistência grande no meio sindical. Acho que é uma visão que tem que ser superada, porque não é assim que as coisas acontecem.
O Brasil está vivendo um momento diferente e acho que tem um espaço grande para os sindicatos. Mas os sindicatos precisam amadurecer nessa direção, talvez olhando a sua própria experiência e para os resultados que podem obter em termos de emprego, melhores salários, qualificação e renda. É isso o que vem junto no pacote chamado “inovação e tecnologia”.
[ Dirceu ] Para concluir, como você poderia sintetizar as questões envolvendo o momento por que passa o país, nossa indústria e essas questões mais voltadas para a ciência, a tecnologia, a inovação e o desenvolvimento?
[ Arbix ] O Brasil tem enormes desafios a enfrentar. E precisa fazer escolhas. No momento que vivemos nossa escolha é levar o país dar um salto tecnológico adiante. Um grande salto. A industrialização é um fenômeno ligado à inovação e à tecnologia. Podemos fazer a defesa comercial que quisermos, mas se não avançarmos na produtividade e na competitividade não vamos conseguir avançar. O Brasil já testou durante muitos anos as políticas de controle cambial. O que aconteceu? Você fabrica competitividade e consegue um fôlego por 3 ou 4 anos. Mas quando se utiliza o câmbio sem ter políticas que lhe dão consistência, não se tem ganho real, que é o ganho de produtividade. E nós temos que aumentar o investimento cuidando da sua qualidade, ou seja, com aumento da produtividade.
Nós tivemos avanços nos últimos 10 anos. Mas foram ganhos setoriais. Nossa competitividade tem de crescer muito. E só se consegue isso com tecnologia e qualificação da mão de obra. Os trabalhadores têm que ser mais qualificados. A população tem que ser mais qualificada. Então você toca direto no mérito educacional. O Brasil precisa gerar mais conhecimento científico e nossa economia precisa ser mais inovadora.
Se não tivermos esse dinamismo, que só a tecnologia permite, não adiantará. A única forma de nos conectarmos com o futuro é por meio da educação, da ciência e da tecnologia. E eu acredito que é possível realizar um grande movimento nacional. Sinto dizer, mas temos aqui uma falta mobilização pela Educação e pela CT&I.
Você perguntou se o nosso problema, o problema da nossa indústria, da nossa população é cultural. Não diria dessa forma. Mas creio que é possível mobilizar os partidos políticos, os sindicatos, envolver as universidades, as empresas de modo a gerar um fato novo no país, um esforço para que o Brasil entre em sintonia com o futuro. Se tivermos essa mobilização poderemos quebrar resistências e velhos hábitos que persistem.
[ Dirceu ] Quando a presidenta Dilma Rousseff anuncia um programa de 100 mil bolsistas de estudo no exterior, por exemplo, ela não está apontando nessa direção? Um salto na direção da busca do conhecimento?
[ Arbix ] Claro. O Ciência sem Fronteiras é sem dúvida uma iniciativa que vai nessa direção. A presidenta Dilma, onde ela vai está provocando esse choque. É ação relevante, que precisa se aprofundar.
Nós temos também outras vantagens. Uma parte da nossa população está voltada para o empreendedorismo, o que é fantástico. Temos empresários totalmente voltados para isso. Não faltam exemplos. Se você vai para certas regiões do país, você leva um susto. O bom do Brasil é o brasileiro, sabemos disso.
O que está faltando, então? Deixo a sugestão de um choque mobilizador, que sacuda o país, todas as áreas envolvidas com a educação, a ciência, com o desenvolvimento de tecnologia e a inovação.
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