zé dirceu - um espaço para discussão no brasil
Cadastre-se e receba nosso boletim por email   
nossos colunistas
Interao dos Multiplicadores de Moeda e Renda
Publicado em 18-Jun-2012
ImageFernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa

O banqueiro Amador Aguiar gabava-se de nunca ter lido um livro de Economia “para não cometer erros”. A prova disso seria o sucesso do próprio Bradesco. Entretanto, será que se ele possuísse visão sistêmica e/ou macroeconômica seu sucesso não seria ainda maior?

O conhecimento específico de Macroeconomia é um diferencial em relação aos vieses heurísticos adotados na “escola da vida” por homens de negócios. Os economistas necessitam conhecer e articular os conceitos dinâmicos de multiplicador de gastos e de moeda para entender como renda e fontes de financiamento são multiplicados.

A maneira mais tradicional que os bancos – salienta-se: em conjunto, isto é, o sistema bancário – têm de criar moeda é através do multiplicador monetário. Quando um banco concede empréstimo, ele deposita o valor desse crédito (por exemplo, $ 100) na conta corrente do cliente tomador do financiamento. Se esse cliente empresário der reciprocidade a este banco e deixar, por certo tempo, esse valor em depósitos à vista, o banco terá reservas emprestáveis no mesmo valor. Digamos que ele recolhe o percentual de depósitos compulsórios junto ao Banco Central (por exemplo, 25% ou $ 25) e empresta todo o restante ($ 75) para outro consumidor.

Quando ele (Banco A) faz isso, os $100 originais permanecem na sua contabilidade, embora $ 75 vá para um comerciante que recebeu o pagamento devido pelo segundo cliente. Este comerciante deposita os $ 75 no Banco B.
Este Banco B passa a ter maior capacidade de atender demanda por empréstimos. Ele dá, então, crédito de $ 56,25 a um operário e recolhe $18,75 ao Banco Central. O operário paga o supermercado, cliente fiel do Banco C.

Depois de apenas três transações de empréstimos, os $ 100 originais cresceram para $ 193,75 no balanço consolidado dos três bancos. O efeito cumulativo desses três primeiros retornos multiplicadores permitiu o crescimento de 93,75% nos total de depósitos à vista registrados na rede de agências bancárias, quase o dobrando.

O efeito multiplicador total (multiplicador potencial), se operações semelhantes se sucedessem sem nenhum vazamento do sistema bancário sob forma de retirada em papel-moeda, resultaria no montante de $ 400 em novos depósitos, dos quais $ 100 seriam, de maneira compulsória, recolhidos. Esse cálculo é simples. Deriva-se da fórmula: k = 1 / r , onde k é a magnitude do efeito multiplicador e r a taxa exigida de encaixes e recolhimentos. No exemplo, o multiplicador potencial seria: k = 1 / 0,25 = 4.

O multiplicador monetário poderia chegar ao infinito, se a exigência de depósitos compulsórios fosse zero. A fórmula expressa essa aritmética. A conclusão tirada desse fenômeno monetário sistêmico do qual os próprios “banqueiros que nunca leram um livro de Economia” nem imaginavam a existência, é que “empréstimos criam depósitos”, ao contrário do que o senso comum dos banqueiros imaginavam: “bancos emprestam depósitos”.

Na verdade, é o sistema bancário que multiplica a quantidade de moeda à medida que empresta. Isto é possível porque ele funciona como um todo e porque os depositantes retiram pouco papel-moeda do total de depósitos à vista. Para os bancos, qualquer disponibilidade em seu passivo, não utilizada em novos empréstimos ou aplicações financeiras, implica em custos de oportunidade. Os custos não devem ser considerados como absolutos, mais sim considerando-se alguma melhor oportunidade de benefícios não aproveitada.

Outra importante conclusão é que o suprimento de moeda cresce com o uso, ou seja, as fontes de financiamento expandem-se por meio do endividamento. Vice-versa, se todos tomadores de empréstimos os amortizassem, liquidando-os, simultaneamente, toda a oferta de moeda criada seria extinta, isto é, aconteceria um processo de “destruição da moeda”. Repentinamente, ela deixaria de existir como ativos, na contabilidade bancária. Toda a economia se paralisaria com a escassez de liquidez. A moeda, portanto, é criada e destruída em função, respectivamente, do endividamento e do pagamento de dívidas.

Por sua vez, o multiplicador de renda é um tipo de multiplicador de gastos. Segundo esse conceito macroeconômico, uma variação nos gastos autônomos (investimento, gasto governamental ou exportações líquidas) induz variação no valor agregado (renda composta de salário, lucro, juro e aluguel) superior à variação inicial nos gastos.

A variação inicial nos gastos provoca um incremento primário sobre a renda daqueles agentes econômicos que são recebedores desses gastos. Eles ampliarão seu consumo de acordo com a propensão marginal a consumir, levando a nova ampliação da renda. Os agentes beneficiados por esse incremento secundário também aumentarão seu consumo, provocando novo acréscimo de renda, e assim por diante, na sequência renda-gastos-renda.

Através dessa multiplicação, as elevações de consumo induzidas pelo gasto inicial fazem que, no final, a renda cresça mais que a própria variação inicial da despesa.

Pode-se deduzir que o multiplicador de gastos autônomos é inversamente proporcional à fração de retirada (aplicações em outros ativos) por ciclo de gastos ou, o que é o mesmo, à diferença entre a unidade e a fração gasta novamente, devido à propensão marginal a consumir. Depois de todas as rodadas ou os ciclos de gastos, o aumento total na renda será a resultante de todos os gastos em consumo acumulados. Haverá, concomitantemente,  aumento no total de aplicações em ativos financeiros que servem de lastro como passivos bancários dos empréstimos efetuados pelos bancos para alavancar os gastos, seja em consumo, seja em investimento.


Fernando Nogueira da Costa é professor Livre-docente do IE-UNICAMP. Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal de 2003 a 2007. Autor do livro “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

 

|

[Comentar]
nome:
email:
comentrio:

mx. 600 caracteres.
digite o cdigo de segurana:  Code

colunistas
Fernando Costa
Paulo Rabello
Breno Altman
Martin Granovsky
Laurindo Leal Filho
Vencio A. de Lima
Eleonora Rosset
Leonardo Boff
Rose Nogueira
Joo Franzim
Joo Guilherme

colunistas

Economia e Desenvolvimento

Sofisma da Composio

Fernando Nogueira da Costa

Consumismo de Cultura

Fernando Nogueira da Costa

Rentismo versus Consumismo

Fernando Nogueira da Costa

A Esquerda & A Propriedade

Fernando Nogueira da Costa

Influncia Poltica dos Banqueiros

Fernando Nogueira da Costa.

Marcao a Mercado e Alavancagem Financeira

Fernando Nogueira da Costa

IPO = IPI

Fernando Nogueira da Costa


veja mais [+]