João Guilherme
João Guilherme
Dois grandes processos jurídicos deformaram a história brasileira e um terceiro ameaça fazer nela um grande mal.
O primeiro processo foi a Devassa ordenada contra a Conjuração Mineira de 1789. A repressão foi feroz, com delações, prisões, suicídios e condenações à morte. De 1789 a 1792, quando as penas foram aplicadas e Tiradentes enforcado (porque as outras foram comutadas), o terror esteve na ordem do dia de forma tão exagerada que até a corte portuguesa criticou a ferocidade do visconde de Barbacena, governador de Minas Gerais.
Mas, de fato, as autoridades coloniais portuguesas conseguiram, com a Devassa, consolidar a ideologia que justificou durante anos a repressão aos movimentos independentistas brasileiros. O processo de Tiradentes conseguiu adiar até 1822 nossa independência, retirando-a do quadro revolucionário da independência norte americana e da Revolução Francesa e transferindo-a para a conjuntura política mundial de hegemonia do reacionarismo sob a batuta do Congresso de Viena.
O segundo processo cujos efeitos foram daninhos à democracia e à representação partidária das lutas do povo brasileiro foi o da cassação do registro do partido comunista pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 1947, decidida naquela corte com votação apertada (três a dois) e com base em argumentos muito fracos como as diferenças no texto dos Estatutos e a partícula “do” no nome do PC do B, que demonstrava a filiação estrangeira dos comunistas. Seguiram-se à cassação do registro, a cassação dos mandatos, a intervenção em sindicatos e a intermitente suspensão de jornais e outras publicações.
Com a ilegalidade do PC, canhestramente enfrentada pelo partido e seus dirigentes postos na clandestinidade, o fantasma da Guerra Fria passou a assombrar desde cedo a democracia brasileira excitando o anticomunismo, deformando a representação partidária, retardando o avanço das forças de esquerda e manchando a Constituição.
O terceiro processo está em curso; é o do mensalão. O processo em si é o processo do “caixa dois”, porém os meios de comunicação, a opinião publicada e a oposição veem nele o processo da política, contrapondo a ela um moralismo exacerbado, hipócrita e pervertido. Tenta-se transformar aquilo que seria normal, um julgamento de procedimentos ilegais, posto que infelizmente corriqueiros, com provas, condenações e absolvições, em um linchamento da política e de políticos com efeitos deformantes que já se fazem sentir e serão sentidos mais à frente.
Observe-se, que em geral, os moralistas não são favoráveis ao financiamento público das campanhas eleitorais, exigência democrática oculta entre os arroubos condenatórios.
Dois processos deformaram nossa história; o terceiro, esperemos que não faça o mesmo.
João Guilherme Vargas Netto é consultor sindical.
Movimento Sindical
João Guilherme Vargas Netto
João Guilherme Vargas Netto
João Guilherme
João Guilherme
João Guilherme Vargas Netto
João Guilherme Vargas Netto
João Guilherme Vargas Netto
João Guilherme Vargas Netto
João Guilherme Vargas Netto
João Guilherme Vargas Netto
veja mais [+]


