por Vitor Quarenta
Os 10% do PIB para Educação e o cenário da Juventude
Nunca foi fácil se mobilizar enquanto jovem. A juventude cresce paradoxalmente em dois cenários e acepções que coexistem de maneira sutil e mentirosa. O primeiro é de que “a juventude é a força motriz da sociedade, a possibilidade de mudança”. Neste tom os acordes juvenis soam ressonantes com o avanço positivo da organização e da construção de um mundo diferente: para uns deve ser mais justo; para outros mais ordenado e moderno; e para certos ainda, um mundo que já passou, mas, que “aquele sim era bom!”. O ponto é que a juventude produz mudanças, e ela traz nas suas mochilas um mundo inédito, tudo isso na leitura dos que não se consideram mais jovens. O segundo cenário é o de que “a juventude atual não se mobiliza como a de antigamente, aquela sim combativa e histórica.” Esta leitura contagia gente de todas as idades, até mesmo alguns jovens que malfadados ao niilismo lembram saudosos de um tempo em que havia pelo o que lutar. Lutar contra a ditadura. Lembram saudosos o que não viveram.
Estas posições são as que contagiam o imaginário social do séc XXI, pelo menos no que diz respeito a nós jovens. Também imersos em teorias abdicadoras unificadas no conceito da pós-modernidade, os jovens de hoje tem mais do que motivos, tem evidências de que lutar não dá em nada. O que é um contrassenso com a ideia primeira de que somos nós, a juventude, quem muda a realidade.
Isto é, esta leitura do papel da juventude além de conformada é cruel! Nos diz que podemos mudar, e que não só podemos como devemos. Entregando-nos assim nossa primeira missão. Mas de forma concomitante, imediata e cínica já nos refuta nos relegando a sermos “piores” que os que nos antecederam. Bate a assopra, na verdade, assopra e bate. Nos contamina com o espírito de mudança e logo já nos entrega a nossa primeira decepção. Responsabilizados por algo que já nasce conosco, a juventude se vê imersa em seu pecado original. E não nos resta nada além de lamentar e assumir o discurso pronto, que estava a nossa espera, de que fracassamos. Desiludidos, contemplamos os interesses de certos grupos. Assim o é com nossos pais, nossos coordenadores pedagógicos, nossos reitores, nossos patrões. E o ciclo está fechado, a juventude se encaixou no seu lugar inevitável, vir a ser adulta.
A lógica do discurso é esquizofrênica, e não é menor a sua consequência na realidade material. Um sonho fracassado é o fracasso também, em certa medida, do sonho que ainda está por vir. A consequência coletiva de um fracasso é a desilusão, a sonolência, o tédio. O tédio de uma geração, que por previsibilidade se entrega à calmaria.
Mas nem sempre esse projeto dá certo. Jean Baudrillard, filósofo francês falecido em 2007, escreve que para que uma geração possa cumprir sua função histórica ela precisa trazer à tona as vozes da geração anterior e só sob estas base é que se pode construir algo novo. A tradição, neste sentido, é aspecto fundamental para superação das realidades contemporâneas e materiais. Utilizada não como uma ferramenta para a estagnação e quiçá o regresso como é empregada na mão dos conservadores e reacionários, mas, sim como uma mola propulsora de um novo tempo, o alicerce para a construção do novo.
Vejam só, nessa leitura nossa geração pode ser compreendida sob outros aspectos e outra conjuntura, a meu ver, mais justos e materialmente condizentes. Encampamos a luta acerca do acesso à verdade dos fatos que rodeiam a ditadura militar. Somos efetivamente uma geração solidária e companheira com a que nos antecedeu, lutamos e vamos continuar lutando pela sua história e pelo seu reconhecimento; pela sua memória e para que a justiça material deixe de ser uma estranha entre nós. Assim solidificamos nossas bases no processo histórico e tomamos força para nossa propulsão em direção ao novo, um salto geracional.
É preciso também que nossa Juventude nesse processo apresente-se no papel de força construtora e de disputa da sociedade para que consigamos junto ao Estado Brasileiro conquistas materiais significantes para a mudança qualitativa de nossa realidade. A juventude tem qualificação e força para lutar e assim o tem demonstrado. Recentemente foi aprovada na Câmara Federal o Plano Nacional de Educação (PNE), que incluiu uma meta de investimento público de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação, meta a ser atingida no prazo de dez anos. Esta conquista significa muito na luta dos estudantes brasileiros que batalharam para este marco no investimento em Educação no Brasil. Essa luta só aconteceu e só teve sua efetividade graças às forças encampadas na UNE, UBES e nas diversas entidades de base que tencionaram efetivamente para que a proposta tivesse êxito, além é claro da colaboração à esquerda de diversos parlamentares do PT que construíram isso dentro da Câmara.
A juventude mostra sua cara, sua força e sua vontade de construir um novo Brasil. Mostra também que não se contenta com pouco, com o medíocre, e que vai ao contrário do que alguns pensam influir nos processos decisórios do nosso país. Seja qualificando a discussão, seja dando coro às propostas, ou indo às ruas para pressionar as forças condutoras do poder. OS 10% do PIB para a Educação são centrais para continuar mudando o eixo em que se pensa educação e poder público no Brasil. Queremos esses 10% revertidos na expansão e na qualidade da educação pública no país, pautando a universalização e a reestruturação do Estado. É evidente que a demanda por educação hoje é muito maior do que o Estado pode prover de caráter público convencional, mas medidas como o aperfeiçoamento do PROUNI, do FIES, a regulamentação e controle de qualidade de cursos e escolas privadas são centrais como medidas que interferem na qualidade e acesso à Educação como um todo, desde o Ensino Infantil até a Pós-Graduação. O REUNI deve ser aperfeiçoado e rearticulado para que possa continuar dando sucesso para os planos de uma educação brasileira popular, pública e de qualidade. É central que o governo abra espaço para diálogo com os docentes, funcionários e professores em greve nas Universidades Federais para que suas demandas possam ser inclusas nesta reestruturação do projeto. A greve é uma forma de construir políticas públicas e é papel do Governo Federal que faça estas políticas acontecerem.
A juventude não pode, no entanto, cair no canto da sereia:
O homem do subsolo sofre com uma dor no fígado, e é nela que ele deixa cair a culpa sobre todos os seus insucessos e malogros tornando-se inerte e impotente. É assim que Dostoiéviski, romancista russo, constrói o lamurio do seu personagem em seu livro “Memórias do Subsolo”. Procurar o próprio fígado e a sua chaga, embora muitas vezes de fato exista, é cômodo. Justificar sua intransigência por conta dele é um equívoco. A juventude tem, ao contrário do que fazem alguns grupos, que saber reconhecer onde estão as verdadeiras chagas e doenças para que possamos efetivamente combatê-las. Justificar a inércia ou a falta de construção nomeando alguns fígados é pouco para quem quer mudar estruturalmente a sociedade. Nossos fígados têm de ser sanados, transplantados ou até retirados, mas, isso só acontecerá mediante a nossa luta. Como bem diz Marx a respeito do proletariado, a juventude também já tem pelo menos um elemento a seu favor neste embate: o número. Somos muitos e podemos fazer o diferente. Nos falta associação e razão: unidade em pelo o que lutar e de que forma lutar. Como fizemos na campanha dos 10% do PIB.
A vitória dos 10% do PIB para a Educação não é só uma vitória para o Estado e para a Democracia brasileira, mas é também uma vitória para o coração da juventude da nossa geração, para os nossos ânimos, para o nosso imaginário. O que pode ser bastante elucidado nos versos de Milton Nascimento:
“Mas renova-se a esperança
Nova aurora, cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê
Flor e fruto”
Vitor Quarenta é diretor Executivo da União Estadual dos Estudantes UEE-SP e militante do Movimento ParaTodos e da JPT-SP.


