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Paulo Ramos
Publicado em 12-Jul-2012

Trinta e poucos anos

Trinta e poucos anos

ImageÉ possível julgar anacrônico algo que possa nos chamar à reflexão sobre as mudanças estruturais que o que ora aprontamos provoca. Mas não está fora dos objetivos ser anacrônico. Importa agora por condições e meios para eleger mais e mais vereadores, mais e mais prefeitos Brasil adentro. O êxito que importa lograr é o de mais uma onda vermelha nas eleições municipais. Entretanto não é disso que falo.

Pois disso não mais depende o sucesso de nosso projeto. Aliás, depende, mas pouco. E se assim persistirmos, vencendo tanto e sempre, basta poucos anos para darmos concretizada boa parte da tarefa duma geração invejosamente exitosa.

A seguir assim, nosso país estará em 2016 não apenas com uma Copa do Mundo de Futebol e uma Olimpíada com sucesso de público e crítica. Também estaremos com um país sem o tormento da fome e da pobreza extrema. Se tudo passar bem, o PT ainda governará o país e estaremos rumando para mais uma eleição, com 16 anos de governo do PT na Presidência da República. Se ganharmos mais uma eleição em 2018, ao fim do mandato 2019-2022, dos futuros 42 anos de idade do Partido dos Trabalhadores, 22 foram à frente da Presidência da República.

Quando fizemos a Caravana da Juventude do PT, na gestão de Severine Macedo, em 2008, das principais dificuldades encontradas foi expor o projeto petista para a juventude, foi mostrar que nosso projeto de sociedade não foi gestado a partir dos postos de poderes legislativos e executivo; foi mostrar que quem elaborou tais propostas cerraram fileiras nos movimentos sociais, foram lideranças que custaram a ser forjadas e o foram nas lutas do cotidianos de pessoas “simples” e “comuns”. Informações que faltam para pessoas que nasceram na década de 1990.

Em 2018, a juventude só conhecerá o PT das eleições. Do poder constituído, dos governos bem ou mal sucedidos. Qual será a carga simbólica que carregará a nossa estrela?

Para qualquer exercício crítico, por mais teleológico que seja, é preciso ao menos uma nesga de desprendimento, e então olhar certos problemas como se nada há que ver consigo. E então realizar mentalmente algumas situações.

Como estará a formação social brasileira? É sabido que nos dias de agora jovens somam um quarto da população brasileira, e sobre isso muito tem sido discutido no âmbito as políticas públicas para a juventude, sobretudo puxado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelas juventudes organizadas. A pirâmide social brasileira está mais para um exágono do que para um o nome que lhe damos (pirâmide).

Ainda com resíduos de segregação racial, a condição econômica da população negra vem apresentando melhora se olharmos para a composição da classe C, chamada de nova classe média por uns e por nova classe trabalhadora, por outros.

Também com resíduos da presença do machismo, as mulheres, com sua jornada tripla de trabalho, alcançam maiores níveis educacionais que os homens mas não melhores salários. Sem falar na multiplicação de postos de poder dirigidos por elas.

A composição étnica e racial do Brasil não poderá mais ser reduzida à tríade do mito da democracia racial brancos, negros e índios. Estão chegando mais orientais da Ásia e do Oriente Médio; chegam novas gerações de africanos de várias nacionalidades e culturas; árabes também estão desembarcando aqui; outra leva de europeus chegam ao Brasil em condições diferenciadas de outrora.

A cada dia, mesmo sem a flexibilização das leis trabalhistas jovens iniciam sua carreira profissional alheios à legislação Trabalhista. Enquanto não vem a revisão destas leis, diversas trabalhadores e trabalhadoras encontram seus meios de reduzir sua jornada de trabalho, optando por condições precarizadas (ou não) e com situações cada vez mais diversificadas de negociação de direitos.

As condições econômicas, de forma geral, estão particularmente diferentes do que estávamos acostumados. O consumo se fortalece como pilar importante, nossas parcerias internacionais estão mudando de eixo, junto com a política internacional que se consolida.

E o projeto de desenvolvimento ora em curso. É mesmo nosso? As dimensões dos direitos estão plenamente contempladas nele? As pinceladas de gênero e raça são suficientes? Qual é a relação dele com o Socialismo Moreno de Darcy Ribeiro? A relação Norte-Sul no Brasil não reproduz mesmo um querela de colonialismo interno?

São muitos os problemas a serem enfrentados. São tantos que um pouco de anacronia é muito bem vinda. A não ser que façamos a opção de nos dar exclusivamente à um projeto – exitoso – que chega ao seu poente. É como se nosso time do coração resolvesse contratar o Rivaldo, esperando que ele ganhe o mundial interclubes, só porque já ganhou uma copa do mundo.

Ocorre que o campeonato de 2016, 2018, 2022... é outro, com outros craques. E existe uma geração que só poderá brilhar a partir daí se entender quais serão nossos adversários, qual será o cenário, quais as ideias que vamos aplicar.

Assim, se o leitor ainda se interessar por saber quais outros desprendimento é preciso ter, lá vai: há muitas maiores emoções do que esta que agora vivemos por vir. Se nós, que tangenciamos os trinta anos de idade gozamos tanto com as eleições de 2002, 2006 e 2010, qual é a emoção de quem passou os anos que temos de vida lutando por isso? Pois é. Há mais que se querer.

Outro desprendimento? Há que reconhecer que esta vitória não é tão nossa quanto dos que chamamos “seniors”. Por mais que queiramos ou que nosso discurso carregue nas tintas por legitimidade em momentos de solenidades partidárias ou de eleições, não podemos nos arvorar signatários dos compromissos que agora se cumpre com os governos petistas tanto quanto quem viveu de perto e de dentro tanta coisa mais que nós. Sejamos justos. À César o que de César é.

Mais um? Este projeto não é nosso. É da turma que é sexagenária, mais ou menos. Nosso projeto é outro. Reconheço o contra apenas se reconhecermos pendurar as nossas chuteiras da política em 20 anos. Pois o tempo é implacável e o que ora brilha na política brasileira foi talhado há 30, 40 anos. Por gente que à época tinha 20, 30, 40 anos. E percorreram 20, 30, 40 anos para cumprir sua tarefa.

Evoquei acima a justiça para César. Mas nem só com César é preciso ser justo. Sejamo-lo conosco também. A cada eleição de grêmio estudantil, de centro acadêmico, de elaboração de jornalzinho, criação de coletivos de hip hop, a cada disputa no movimento social, éramos postos em encruzilhadas: para onde ir? Seguimos um caminho entre outros preteridos. Este caminho nos trouxe até aqui. Temos de nos olhar não pelo caminho que trilhamos, mas pelas escolhas que fizemos e que não fizemos. Isto vai nos revelar que a trilha já estava criada antes de nós. Agora a pergunta que devemos nos colar não é diferente, é a mesma: para onde ir. O que muda é o tempo que iremos articular para responder a nós próprios esta questão. Muda também que o caminho seremos nós a talhar.

Esta trilha que nos trouxe até aqui uma hora pode acabar e teremos de pensar com que ferramentas picaremos a mata, sobre quais ombros nos apoiaremos para reconhecer o terreno de certa altura que nos dê a visão dos acidentes, desníveis, precipícios, morros, trilhas outras com as quais que podemos nos encontrar adiante, e o que mais os caminhos que iremos percorrer nos prepara – ou, melhor, o que queremos fazer com nossa caminhada.

Ainda assim, podem haver caminhos, projetos traçados por outros. Mas acredito, temos que seguir um projeto traçado por nós mesmos, essa galera da esquerda que não ficou presa sem celas da ditadura, mas que tem outras histórias para contar, outras identidades coletivas e históricas para reivindicar, baseadas nas experiências políticas próprias desta geração. O exercício da anacronia é importante para não nos deixar levar pelas circunstâncias que estão dadas e para nos ajudar a criar as nossas próprias circunstâncias.


Paulo Ramos é sociólogo e secretário eleito do Setorial de Combate ao Racismo do PT do Estado de São Paulo (2014-2016).

 

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