
A rede informacional é a melhor saída para o desenvolvimento do jovem brasileiro, que sem acesso à ela, tem sua inteligência disperdiçada. A constatação é do sociólogo Sérgio Amadeu, coordenador de conteúdo do Campus Party, evento que integra cultura, tecnologia, comunicação e entretenimento eletrônico, e que se realizará de 11 a 17 de fevereiro, pela primeira vez no Brasil. "A tecnologia da informação e comunicação, ao ser assimilada pelos ativistas das periferias, pode gerar um processo de crescimento político e econômico jamais visto" prevê Amadeu. Entre os coordenadores há a confiança de que serão conquistados novos adeptos ao software livre, inclusive com a possibilitade de instalá-lo no computador dos participantes do evento. O Campus Party terá dez áreas de conteúdo e a expectativa, antecipa Amadeu, é de que gerará um "caos criativo".
Pergunta - Para o jovem espanhol o Campus Party representa a oportunidade de desfrutar de uma enorme largura de banda para baixar e subir o que quiser da Internet e para encontrar amigos, através da rede. A edição brasileira vai ter as mesmas características? Quais são as áreas de conteúdo do evento?
Sérgio Amadeu - O Campus Party está sendo tropicalizado. Ele terá dez áreas de conteúdo: robótica, astronomia, modding, desenvolvimento de software, games, simulação, criatividade, software livre, música e blogs. Estamos apostando em um maior caos criativo. Aqui o evento terá mais de 200 atividades, e muitas ocorrerão simultaneamente. Enquanto o pessoal do software livre realiza uma oficina do Ginga, programa da TV digital, haverá um nano curso de redação para blogs, palestra sobre como fotografar os céus pela Internet e um campeonato de robôs.
O Campus Party será mais parecido com um grande bazar em que as pessoas estarão interessadas em conhecer o que cada área tem para mostrar. Acredito que a circulação dos campuseros será bem maior aqui no Brasil. É claro que os games serão uma força bem nítida no evento. Na verdade, o evento no Brasil será altamente influenciado pela nossa cultura.
Pergunta - O evento é só um grande happening cibernético ou dele podem resultar desdobramentos relacionados, por exemplo, a projetos de desenvolvimento de software nas áreas de conteúdo? Indústria e agentes de fomento vão acompanhar essa iniciativa?
Sérgio Amadeu - Como todo evento que reúne as melhores cabeças, acredito que muitos projetos serão articulados e criados a partir desta semana de encontro das comunidades de apaixonados pela tecnologia e pela cibercultura. O Campus Party é entretenimento, mas também é compartilhamento de conhecimentos.
Pergunta - Uma das áreas do Campus Party é o software livre, na qual o Brasil tem destaque. O que esperar das atividades nesse segmento?
Sérgio Amadeu - A área de software livre será muito mais forte do que na Espanha. Além de mostrarmos softwares excepcionais, como o Ginga, teremos surpresas impressionantes na área de 3D. Tenho certeza que muitas pessoas que não conheciam o software livre e que somente ouviam falar de Linux, ficarão impressionadas e certamente conquistaremos novos adeptos.
Quem quiser poderá instalar software livre em seu computador. Todos os dias ocorrerão installfests, ou seja, festivais de instalação de Linux, Open Office e demais aplicativos livres. Quem quiser poderá libertar sua máquina do mundo proprietário e das mazelas dos vírus e mecanismos de intrusão do monopólio mundial de software.
Pergunta - A Prefeitura de SP, uma dos patrocinadoras do encontro, planejava montar atividades para professores da rede municipal. Que tipo de conteúdo será oferecido a esse público? E para os representantes das redes de telecentros do governo federal, que também apoiam o evento?
Sérgio Amadeu - A Secretaria Municipal de Educação encomendou quatro oficinas para seus professores. Temos 800 educadores inscritos. A primeira é sobre Astronomia na sala de aula, a segunda é sobre Robótica para iniciantes, a terceira é sobre como usar blogs na escola e a quarta tratará do uso de ferramentas da Internet no processo de ensino-aprendizagem.
Também dentro da Campus Party, os vários projetos do governo federal serão objeto de dois dias de seminário para discutir as propostas e o futuro da inclusão digital no país.
Pergunta - Como a internet pode contribuir para a formação do jovem brasileiro, especialmente o da periferia e de baixo poder aquisitivo que, por razões econômicas, não tem acesso à tecnologia de ponta?
Sérgio Amadeu - É uma pergunta difícil, mas a rede informacional é a saída para o desenvolvimento do nosso país. Levar a banda larga para todos os municípios e periferias é permitir que possamos levar tecnologia de ponta para toda a sociedade. Só poderemos romper a desigualdade e a pobreza com conhecimento e com a autonomia das comunidades carentes. A tecnologia da informação e comunicação ao ser assimilada pelos ativistas das periferias pode gerar um processo de crescimento político e econômico jamais visto. Temos inteligência coletiva desperdiçada.
As tecnologias de informação ampliam a capacidade de transformar informação em conhecimento. São estratégicas para romper o ciclo de reprodução da pobreza. Você não pode imaginar a mutação que ocorre em uma comunidade quando seus jovens, que vivem em condições de pobreza, aprendem a programar um software, a instalar um Linux e a passar a conversar com especialistas e cientistas que eles achavam que somente existia na tela da televisão.
Para maiores informações acesse o site do Campus Party

