Este blog é mediado. Não serão publicados comentários com palavras de baixo calão, denúncias e troca de ofensas entre leitores.
Crise velha, prefeitos novos
Diante da atual crise financeira global e seus impactos na economia real, aumenta mais ainda a responsabilidade social dos novos prefeitos eleitos. O papel decisivo que eles desempenharão no enfrentamento dessa crise em nosso país será determinante para o abrandamento de seus custos sociais.
No meu ponto de vista, essa nova crise mundial é produto de um sistema financeiro predatório, injusto e bastante inadequado para as atuais realidades ambientais e sociais do planeta. Atua como uma doença crônica e por isso apresenta crises cíclicas de agudização, exigindo, cada vez mais, tratamentos caros, demorados, com efeitos colaterais muito sérios, deixando um saldo de seqüelas irrecuperáveis, principalmente para os mais frágeis. E o que é pior, uma doença retroalimentada pelo seu próprio remédio. Da mesma forma, o crescimento econômico mundial carece de ajustes para limites mais humanizados e de um novo paradigma para o desenvolvimento econômico.
Outro dia, lendo uma entrevista do presidente-executivo da Microsoft, Steve Ballmer, fiquei abismada com o volume absurdo de recursos investidos em uma pesquisa, somente para se conseguir baixar o tempo de uma tarefa digital de 15 segundos para 10 segundos, para continuar competitivo no mercado. Não acho uma cultura empresarial sensata para um planeta onde milhões de pessoas ainda adoecem e morrem porque vão dormir, diariamente, com fome!
Também não me parece razoável continuarmos a medir a riqueza de uma nação utilizando exclusivamente uma base monetária - a sua renda nacional, as suas reservas internacionais, deixando de lado os ativos humanos e ambientais, considerando os custos sociais e ecológicos como externalidades e categorizando os gastos sociais como despesas e não como investimento.
No Brasil, acredito que poderemos resistir a essa crise de forma mais consistente graças à lúcida e responsável política econômica adotada pelo governo Lula desde 2003 que, mesmo enfrentando as críticas ácidas da mídia, da oposição e até mesmo de várias lideranças de seu partido que na época o acusaram de ter adotado uma política econômica ortodoxa e de ter abandonado seus compromissos com a esquerda, conseguiu estabilizar e fortalecer a economia brasileira, criando condições para o país enfrentar essa epidemia global com mais saúde.
De lá para cá, fizemos uma transição tranqüila de um país quase falido e à beira de uma nova crise macroeconômica, que sofria com os efeitos nefastos das políticas irresponsáveis da coligação PSDB-PFL (hoje travestido de DEM), que concentrava renda, riqueza e poder nas mãos de uma minoria, debilitava o Estado, aumentava os abismos sociais e a nossa dependência externa, para uma nação resgatada em sua soberania, estabilidade, credibilidade e justiça social.
Sem adotar medidas extremas e radicais, o governo do presidente Lula conseguiu promover crescimento econômico acompanhado de distribuição de renda mais justa, redução das desigualdades e geração de oportunidades. Reverteu a lógica neoliberal e devolveu ao Estado brasileiro o papel fundamental de indutor do desenvolvimento, criando um plano para a recuperação da infra-estrutura no país – o PAC. Hoje, nossa solidez fiscal e nossas reservas internacionais nos permitem o enfrentamento dessa crise com mais serenidade.
Enquanto o Brasil crescia a taxas menores, criticadas duramente pela oposição e pelos analistas econômicos, a população brasileira melhorava sua qualidade de vida, o desemprego caía e milhões de famílias brasileiras passavam a se alimentar com dignidade. No meu entender, esse é o papel do crescimento econômico de um país – servir à sua gente em primeiro lugar.
Investir nas pessoas através de políticas econômicas de inclusão permitiu a formação de um mercado interno de massas que hoje serve de amortecedor para essa crise. Acredito que aí está a chave para superarmos esse período de dificuldades - consolidarmos no nível microeconômico as políticas macroeconômicas que estão dando certo.
Um projeto de nação só se concretiza e estabiliza a partir dos municípios, na dependência do desempenho de cada um de seus prefeitos. Daí a relevância do papel desses novos administradores municipais na superação dessa crise, na estabilização da economia nacional e na consolidação da democracia no país. É fundamental que esses novos prefeitos tenham uma visão ampliada de seus governos, levando em consideração as conseqüências de todos os seus atos nos níveis regional, estadual e federal.
Essa crise não pode ter como endereço certo os trabalhadores, os pequenos e médios empreendedores e nem as famílias em maior fragilidade social. Para enfrentá-la, será necessário que os prefeitos eleitos adotem uma postura estadista e exerçam sua liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias.
É importante que estimulem o diálogo franco e democrático entre os prefeitos de sua região, para que esse entendimento possa fortalecer uma rede de prefeituras solidárias por esse país afora, solidamente construída para amparar e assegurar as políticas públicas já implantadas e que têm alavancado os nossos avanços, sem descontinuidades e prejuízos para a população e possibilitando a execução de projetos consorciados, em parceria com os governos estadual e federal.
Devem trabalhar fortemente para eliminar as desigualdades, não somente por questões de justiça social, mas porque elas representam uma ameaça ao crescimento econômico e também contribuem na criação de um ambiente desfavorável aos investimentos.
Devem apostar na inteligência criativa do nosso povo, investindo na vocação econômica e ecológica de nossas cidades, como fonte sustentável de geração de emprego e renda, fortalecendo as economias locais.
Devem ampliar a transparência e o controle social em suas administrações, não só para garantir o avanço democrático, mas para servir de cimento social, criando estabilidade, credibilidade e evitando rupturas perigosas em períodos de incertezas.
O maior erro em tempos de turbulência econômica é encolher, é não investir; o caminho seguro é planejar, trabalhar forte e gastar com responsabilidade social. Ao invés de ficarmos lamuriando e acreditando no pessimismo alheio, vamos fazer do choro de outros países a nossa chance de vender lenço de papel para o resto do mundo!
Elizabeth Stehling é especialista em Políticas e Gestão da Saúde


