
A afirmação acima é de Leopoldo Vieira, ex-assessor de Juventude da Casa Civil do Governo do Pará, autor de "A Juventude e a Revolução Democrática", que será lançado hoje em Belém (PA). Em seu livro, Leopoldo faz um balanço da conjuntura brasileira e das oportunidades de transformação da realidade social que se apresentam aos jovens.
Atualmente assessor do deputado Carlos Bordalo (PT/PA) nos trabalhos da CPI da Exploração Sexual Infanto-Juvenil, Leopoldo já atuou em diferentes setores juvenis. Passou por órgãos do poder público - foi Secretário de Políticas Públicas do Conselho de Juventude do Estado do Pará - COJUEPA; atuou no movimento estudantil - como articulador político da diretoria de relações internacionais da UNE; e no Partido dos Trabalhadores como ex-secretário nacional adjunto de Juventude.
Nessa entrevista, o militante que descobriu cedo sua vocação para a política - ainda no ginásio - analisa as políticas recentes do governo Lula voltadas à juventude, o PT e a possibilidade de os jovens transformarem a condição juvenil atual do país.
Com base em sua experiência, Leopoldo considera como desafio principal "converter as bandeiras empunhadas e as plataformas políticas da juventude em reivindicações jurídicas que se convertam em políticas públicas e direitos, demarcadas na legalidade, como política de Estado".
O autor de A Juventude e a Revolução Democrática, também escreve diariamente no blog Juventude em Pauta! , espaço dedicado exclusivamente às questões voltadas a este segmento da população brasileira.
[ Pergunta ] Qual a revolução democrática possível para a juventude brasileira?
[ Leopoldo Vieira ] Um processo de transformações sociais mediante o exercício das liberdades políticas, pela via democrática que se expanda para além do liberalismo. O liberalismo político reduz a democracia aos limites da formalidade, mas as transformações sociais resultam, de fato, da ação das camadas populares. A revolução democrática no Brasil está em curso. Foi iniciada com o governo do presidente Lula.
Ela é dirigida pelo PT que apresenta três ramificações fundamentais, assim também distribuídas na base governista: a ala socialista, que rejeita o modelo experimentado no Leste Europeu, e põe no centro da hegemonia do mercado, a hegemonia dos trabalhadores e a pluralidade das formas de propriedade regidas pelo interesse das maiorias sociais; a ala republicana, que combina instituições democráticas apuradas com o radical interesse público; e a nacional-desenvolvimentista-distributivista que sugere um crescimento econômico sustentado com distribuição de renda.
O governo do presidente Lula reúne todos esses setores. Expressa a liderança da terceira, mas não exclui de forma alguma as anteriores. Sem entrar nas divergências e conflitos internos deste processo e na pressão externa que sofre pela correlação de forças, a revolução democrática trata de fazer a juventude encontrar seu espaço no interior do processo, adequando estratégia própria para isso.
[ Pergunta ] Qual estrátégia?
[ Leopoldo Vieira ] Uma estratégia centrada na resolução política e democrática superior à atual condição juvenil do país, hoje, marcada pelo signo do "menos", pela precariedade, o desemprego, a exclusão dos bens culturais, a desigualdade social, educacional e intelectual, pelo encontro das especificidades negativas que envolvem negros, mulheres, GLBTTs, deficientes, habitantes do meio rural, mais a pobreza geral.
A revolução democrática possível, portanto, é tudo o que puder ser feito para superar essas condições. É a utopia de erguer um país desenvolvido econômica, social, cultural e politicamente através do investimento nas gerações, dando respostas aqui e já para os jovens que enfrentam esses dilemas alavancando um novo padrão de sociedade do futuro.
Ela depende da consciência da juventude politizada, organizada ou não, de perceber as potencialidades do momento democrático inaugurado em 1989 e desenvolvido pela administração petista, para reorientar sua ação para as instituições, e para o Estado, ao invés de manter o molde clássico em que, acredito, grosseiramente falando, procura repetir como farsa o "ano que não terminou" (título do livro de Zuenir Ventura sobre 68).
Bandeiras da juventude
como políticas de Estado
[ Pergunta ] Leopoldo, há uma bandeira que reúna as diferentes reinvindicações dos jovens brasileiros, hoje em dia?
[ Leopoldo Vieira ] O desafio primordial é converter as bandeiras, as plataformas políticas, em reivindicações jurídicas e que estas que se convertam em direitos e políticas públicas, demarcadas na legalidade, como política de Estado. Mas, isso não pode ser obra de meia dúzia que foi militante do movimento estudantil e virou gestora de PPJs partidos afora. Nem de intelectuais que assim se fizeram nos anos 90, nem de administradores bem intencionados ou pelo trabalho de ONGs formadas por essa turma.
A participação dos jovens em ações violentas e atividades criminosas é alarmante. Então, temos que mudar a estratégia dos jovens engajados na política, da sociedade civil juvenil (movimentos, entidades e organizações juvenis e juventudes dos movimentos sociais), das juventudes partidárias, dos parlamentares jovens. Essa é uma "bandeira" que deve unir os jovens.
Essa geração tem que entender que não está aí para combater moinhos imaginários, herdados de movimentos como o maio francês (1968), ou da heróica resistência juvenil à ditadura militar, mas sim para governar e completar o legado da luminosa geração dos anos 60 e 80. Ou os jovens compreendem isso ou seguirão "matando amanhã o velhote inimigo que morreu ontem". (frase do discurso de Caetano Veloso quando vaiado durante a apresentação de É Proibido Proibir)
[ Pergunta ] Como você avalia a participação da juventude brasileira?
[ Leopoldo Vieira ] É fantástica. Ela estava na Cabanagem combatendo contra o "Rei", na Balaiada, na Sabinada, na Revolta dos Malês, com os mineiros inconfidentes, no tenentismo, na revolução de 30, na Coluna Prestes, na controversa Revolução Constitucionalista paulista de 1932, atirando as primeiras pedras e balas na vidraça (e no carro-forte) da ditadura militar, nas Diretas Já, no Fora Collor etc. Mas, isso é passado, inspiração. Em nenhum destes processos, a juventude se apresentou como grupo social, com seu próprio programa.
A questão sobre a participação do jovem ainda é iniciante. Mesmo considerando que houve ascensão, o que se percebe presente nas 1001 conferências e fóruns. Agora é que a UNE criou uma diretoria de PPJ, a CONTAG e o MST realizam debates sobre as políticas públicas de juventude, a CUT criou uma secretaria de juventude, e os partidos passam a dar alguma importância para além da agitação e propaganda de suas frentes juvenis.
Agora é que começam a considerá-las para além do movimento estudantil e que surge, impulsionado pelo Brasil afora, o Fórum das Juventudes Políticas do Mercosul. Existe muita coisa por fora. No Fórum Nacional de Movimentos e Organizações de Juventude (FNMOJ), por exemplo, muita formulação se entranhou na Conferência Nacional de PPJ (Políticas Públicas de Juventude), tanto da Câmara, quanto do Governo Federal. Mas, precisa ainda de força social e, principalmente, de coesão.
Não podemos falar em "juventude"
mas em "juventudes"
[ Pergunta ] Existe diálogo entre as várias bandeiras, certa unidade ou convergência entre elas?
[ Leopoldo Vieira ] A comunicação existe, embora seja recente. É um fenômeno muito promissor encontrar-se uma estratégia política. É isso que meu livro, humilde e modestamente, propõe. Eu diria que a organização dos jovens, hoje em dia, mesmo que ainda preferencialmente em grupos religiosos e de cultura, aponta neste sentido. Essa "dificuldade" (de comunicação) se deve ao fato de não podermos falar em "juventude", mas o correto é falar em "juventudes", dada a pluralidade de bases sociais, identidades, tribos.
[ Pergunta ] Qual sua avaliação, em termos de políticas públicas para a juventude, do governo Lula?
[ Leopoldo Vieira ] As principais inovações do governo do presidente Lula são a combinação de uma esfera gestora, de controle social, com o incentivo à participação popular juvenil, com um programa que atinge o alvo e enfrenta um problema crucial, que é a diversidade e uma questão básica: a ascensão social dos jovens agora e no futuro. Falo da Secretaria Nacional de Juventude, do Conselho, da Conferência Nacional de Juventude e dos ProJovens.
Devemos também prestar atenção às políticas públicas de juventude do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Elas são um marco. Voltadas para um segmento extremamente difícil de ser identificado a olho nu por um político mediano: o jovem rural. Evidente que têm que melhorar e superar o paradigma sulista.
Na minha visão, o tempo que demoramos para criar a Secretaria Nacional de Juventude do governo federal - e não por culpa do presidente Lula - foi compensado quando ela surgiu. Com ela, o Brasil faz uma gestão avançadíssima que influencia a América Latina inteira. O padrão de mobilização que a Secretaria conseguiu tem contribuído muito para aperfeiçoar a agenda interna e externa, e unificar a estratégia comum das juventudes. Exemplo maior disso é o Pacto pela Juventude, que diz em sua diretriz principal: "não importa se você é de esquerda, centro, direita ou sei lá o quê, me interessa é a agenda de desenvolvimento para a juventude do Brasil!".
[ Pergunta ] Com sua experiência no poder público, quais os principais entraves para que as políticas públicas efetivamente sejam instaladas nas instâncias locais de poder?
[ Leopoldo Vieira ] Minha experiência no poder público me dá a convicção de que faltam duas coisas: primeiro um consenso estratégico sobre as tarefas que a juventude politizada tem para com o "jovem comum" brasileiro; segundo, a ausência de um conceito consensual ou, diria, de qualquer conceito moderno sobre juventude entre os gestores "adultos".
No primeiro caso, para obter um consenso estratégico e construir uma Frente Parlamentar, uma Comissão de Juventude é um "Deus nos acuda". Para isso você tem que levar pelo braço. Já para integrar "a galera" na eleição do centro acadêmico basta um pensamento. Então, a análise, o modelo, o referencial estão errados.
No segundo caso, há ausência de um conceito consensual, ou até mesmo a presença de qualquer conceito moderno sobre juventude entre os gestores "adultos". Além disso, eles são deveras arrogantes. Acham que o exemplo, a experiência deles é correta e "dane-se o mundo que eu não me chamo Raimundo". Aí, claro, vai dar errado!
Já ouvi pergunta de futuro chefe da Casa Civil do governo de um determinado Estado: "a Articulação (uma das tendências do PT) tem juventude?" Eu era de um grupo auto-proclamado como da "esquerda" do PT e respondi: "Não só tem como é muito maior do que nós!"
O que ele queria dizer com isso? Ele tinha estereótipo incorreto e metafísico de que o jovem seria naturalmente "revolucionário", "rebelde". Por isso, não compreendia como poderiam optar por um grupo (no partido) que ele considerava "reformista" - o inverso do estereótipo que ele tinha como "verdade".
No plano local, estadual e municipal, muito vem sendo feito: programas de economia solidária, pró-primeiro emprego, de participação, de ambientalismo. Mas, ainda falta muito. Regra geral, o gestor acha que o lance é criar o "estado jovem" ou a "prefeitura jovem"; que um órgão institucional deve ser na área de direitos humanos ou segurança pública; que colocar moleques de classe média para conhecer "a realidade" social de outros jovens em situação de risco ou exclusão ou usar o Estado para transformar esse tipo em militante do "marxismo revolucionário" é o que há.
Veja, é claramente o problema conceitual de que falei. Mas, tem muita coisa boa, avançada também.
84% dos jovens acreditam
que podem mudar o mundo
[ Pergunta ] O jovem brasileiro é considerado alienado, distante da política. Como você avalia essa visão?
[ Leopoldo Vieira ] É um disparate! O jovem brasileiro acompanha o noticiário e o horário políticos, manifesta vontade de participar das decisões, e considera que a política influencia muito na vida dele. Nossos jovens manifestam preferências partidárias (PT e PMDB à frente), e afirmam que a busca por trabalho atrapalha a participação política.
Os jovens se inscreveram e aos 16 anos votaram em massa. E nada mais, nada menos do que 84% acreditam que podem mudar o mundo. Como este jovem pode ser despolitizado? Como pode ser distante da política?
[ Pergunta ] Ouvem-se acusações de que o governo Lula desarticulou os movimentos sociais. Como você avalia isso do ponto de vista específico da juventude?
[ Leopoldo Vieira ] Jamais! Ocorre com os movimentos sociais o seguinte: o Lula criou as mil e uma conferências para abrir o Estado à participação popular, dando vazão as plataformas dos movimentos. Depois, criou uma agenda em que, mesmo não levando às últimas conseqüências as bandeiras, começou a realizá-las. Então, entramos num momento de cooperação estratégica, onde os movimentos pressionam pela realização do que sempre lhes foi sonegado.
Claro que as mobilizações vão diminuir. Mas, tem razão, é justo, houve atendimento pelos programas de governo do presidente Lula. Pensando na juventude isso melhora ainda mais. O Pacto e a Conferência de Juventude são os maiores exemplos disto. Os jovens falaram - pelo menos a parcela organizada - e viram ser implementadas respostas contundentes, apesar de limitadas.
Seria até uma grosseria não colaborarem. Não porque é o Lula, mas porque a vida de milhões de jovens está mudando para melhor. Autonomia não é se esconder na crítica, mas sim aderir ao que é justo e conseguir criticar contundente e visceralmente o que está errado.
Para terminar quero pegar o exemplo de Caravana de Saúde da UNE. A direita quer que a UNE vire papagaio da opinião publicada. Mas, não, a Caravana vai na "ferida" e discute saúde: quando o número de mortes por aborto em clínicas clandestinas é enorme; quando a dependência química vira um problema de saúde pública; quando os jovens gays voltam a ser público-alvo da AIDS e se envergonham de procurar os postos de saúde; e quando a maioria dos jovens desconhecem os riscos pessoais de contaminação por Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).
O que é mais certo? Vi o Cristovam Buarque (ex-ministro da Educação, ex-governador de Brasília, agora senador do PDT) em seu artigo "Universitários abandonaram a mística revolucionária. Algumas razões", publicado em O Globo, criticar a Caravana baseado na suposta falta de causa dos jovens atuais. Ele (Cristovam), incapaz de comprar nos sinais uma raquete elétrica para matar moscas de tão pacifista, vem com conversa de voltar aos anos 60? Fala sério!
Para acessar o Blog de Leopoldo Vieira e comprar seu livro A Juventude e a Revolução Democrática, que será lançado hoje (21.01) às 19h no Boteco da Computer em Belém (PA), acesse o site Juventude em Pauta!

