Entrevista com Josué Medeiros
(verdão editada da entrevista, publicada no blog Juventude em Pauta em 1º de abril de 2009)
Hoje se lembra os 45 anos do golpe militar no Brasil. Recentemente, é notória a iniciativa de opiniões conservadoras, publicadas ou não, de reescrever a história do país, como é o caso da Folha de São Paulo em recente editorial que qualificou o regime de "Ditabranda", se comparado com outros semelhantes que destituíram sob as baionetas as ordens democráticas vigentes em todo o continente sul-americano.
O fato é que a ditadura promoveu o assassinato físico, político e intelectual de pelos menos duas gerações de brasileiros e foi extremamente danosa ao desenvolvimento nacional e, apesar da Anistia que devolveu os direitos aos torturados e expatriados, ainda se luta pela abertura dos arquivos daquela época - o que divide o governo do presidente Lula - para que a nação possa conhecer os crimes cometidos naquelas páginas desbotadas da memória e para que o país possa punir os que conspiraram contra a "nossa pátria-mãe tão distraída".
Se os jovens, de um lado, foram os mais massacrados por aquele regime infame, também foram os que, com seus descaminhos, abriram mão de suas vidas pessoais para enfrentar e pôr abaixo a tirania dos consórcios brasileiro-americanos representado pelos generais. Atualmente, por incrível que pareça, boa parte da juventude brasileira sequer conhece a sigla "AI-5", sabe o que o ocorreu naquela data inglória e chega até mesmo a sugerir caminhos parecidos como saídas aos impasses políticos brasileiros, batidos e massificados por uma mídia que surgiu sob os auspícios dos torturadores, como a Globo, a Folha de São Paulo et caterva.
Ontem, publicamos artigo do ex-líder estudantil e historiador Josué Medeiros sobre os 45 anos do golpe, hoje, nessa entrevista, ele aborda as questões fundamentais da relação golpe e juventude, expondo à luz os dilemas atuais do movimento estudantil refletidos historicamente.
Josué é de Niretói (RJ), tem 28 anos, é formado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e faz mestrado em Ciência Política no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Ele foi o principal dirigente estudantil da Democracia Socialista, tendência interna do PT, de 2005 a 2007. Mais que uma entrevista, a conversa foi um produtivo debate entre amigos e camaradas de longa data que somos, cujo conteúdo recomendo entusiasmadamente a leitura.
[Juventude em Pauta] Quando houve o golpe estava em curso no país, especialmente nas universidades, uma grande ascensão políticas dos jovens, assim como na área da música, cinema, novos horizontes do estudo da realidade nacional etc. Qual foi o impacto do golpe sobre essa geração?
[Josué Medeiros] Na verdade, eu acredito que esse ímpeto era tão forte que não foi abalado logo de inicio pelo golpe de 1964. Tantos os estudos históricos quando os relatos dos jornais da época mostram que a juventude brasileira continuou seu processo de mobilização e efervescência política e cultural até 1968. Aí sim a Ditadura conseguiu conter essa ascensão e o impacto foi forte. As atas do Conselho Nacional de Segurança recém liberadas pelo governo cofirmam que freiar essa mobilização e o protagonismo juvenil era um dos principais objetivos do AI-5. No mais, as torturas, prisões, exílios, assassinatos falam por si mesmos em relação ao impacto na juventude. Muitas energias foram destruídas ou se concentraram na luta armada (cujos resultados já conhecemos) ou se dispersaram pelo mundo. E nas universidades criou-se um clima de delação e não-debate que foi perverso com a atividade do movimento estudantil brasileiro.
[Juventude em Pauta] Ano passado completaram 40 anos do A-5 e pesquisas nacionais demonstraram que a maioria dos jovens brasileiros não sabem o significado do principal ato repressivo da ditadura. Paralelamente a isso, a Fundação Perseu Abramo detectou em 2001 que pelo menos metade da juventude brasileira apoiaria saídas "fortes", ditatoriais e restritivas da liberdade como saída para os impasses do país. Quais os impactos do golpe para a atual geração de jovens brasileiros?
[Josué] O golpe teve um objetivo muito claro de atomizar com a esquerda brasileira, de impedir que se organizasse um projeto alternativo de nação. Por mais que vejamos que esse objetivo foi derrotado - e o governo Lula é a prova disso - por 20 anos os militares foram hegemônicos na sociedade e, no início, contavam com significativo apoio popular. Acho que é no plano ideológico que o estrago do golpe é mais abrangente e esses dados mostram isso. Mas, creio também que a hegemonia do neoliberalismo no Brasil, com sua ideologia do individualismo e do fim da história tem grande responsabilidade sobre esse desconhecimento que você citou, ou sobre a preferência por saídas não-democráticas de parcela importante da nossa juventude De todo modo, como eu disse no artigo, a tarefa de construimos uma memória efetiva sobre o golpe, que denuncie suas mazelas e consolide no povo brasileiro uma condenação daquele período histórico é muito importante para revertemos esse quadro e minimizarmos esse impacto.
[Juventude em Pauta] O movimento estudantil tradicionalmente se vinculou às grandes questões nacionais como o Petróleo É Nosso!, as Diretas Já!, ou o Fora Collor (o que já é até um chavão). Falando em reverter este impacto do golpe sobre a juventude brasileira, no contexto desse confronto violento acerca da revisão da Lei da Anistia para punir torturadores ou mesmo da abertura dos arquivos da ditadura, qual seria a grande campanha nacional do movimento estudantil hoje em dia?
[Josué] Eu acho que o movimento estudantil acerta em concentrar suas mobilizações em torno da reforma universitária. Estamos vivendo uma conjuntura muito propícia para que os setores organizados obtenham conquistas efetivas, não apenas no sentido corporativo do termo, mas na dimensão da democratização do estado brasileiro e na efetivazação de um projeto democrático e popular de nação. A UNE e a UBES organizam os estudantes, logo seu terreno é a educação. Não por acaso a educação foi tão atingida tanto pela Ditadura, quanto pelo neoliberalismo. Um sistema educacional público e democrático é fundamental para a constituição de uma hegemonia duradoura da esquerda e, por mais avanços que tenhamos no governo, o fato é que não temos um sistema nacional de educação nos moldes do SUS, por exemplo. E sinceramente acho que não podemos terminar o governo Lula sem constituir esse sistema, Vem aí a Conferencia Nacional de Educação, já foi uma conquista dos movimentos e pode significar o passo definitivo na conquista desse sistema nacional de educação.
[Juventude em Pauta] A imprensa de direita constantemente traça um comparativo entre o "velho" movimento estudantil "combativo", "rebelde", das "ruas"e o atual, supostamente acomodado, burocratizado e cooptado pelo governo. O próprio Vladimir Palmeira diz que este tenta repetir o que a geração dele fez no passado... Você acha que há uma crise na atuação do movimento estudantil hoje? Isso tem a ver com o que diz o ex-líder estudantil ou teria a ver com os tais propagados 10 milhões que a UNE recebeu do governo indiretamente?
[Josué] Eu acho equivocada essa comparação entre novo e velho movimento estudantil, assim como acho no caso do movimento sindical. Esse tipo de paralelo tem sempre um viés politico, seja o de reforçar a identidade de um movmiento que busca superar/hegemonizar o outro, seja apenas como propaganda ideológica da direita contra os setores organizados. É engraçado ver setores dizendo que "a UNE, fundada na luta e no sangue dos estudantes, traiu suas bases e seu passado" quando sabemos que foi Getúlio quem fundou a UNE... O mesmo se dá com essa "denúncia" de que a UNE recebe rios de dinheiro... é luta politica simples, nada mais. Evidente que o movimento estudantil, assim como o conjunto dos movimentos sociais no Brasil, passou por uma crise na década de 1990, mas acho que tem buscado resolver essa crise no século XXI, tentando renovar suas pautas e práticas, diversificando sua atuação, democratizando suas estruturas. Contudo, essa resolução é um processo, estamos no meio dele, e é normal que não tenhamos grandes mobilizações como o Fora Collor para provar que a crise já foi superada.
[Juventude em Pauta] Você é petista, participou da UNE como vice-presidente de 2005 a 2007. Este ano o PT realizou um ENEPT...Qual você acha que é a composição política que mais fortalece o ME para os desafios vindouros e qual o rumo que o partido deve tomar neste aspecto?
[Josué] Não acompanhei o processo do ENEPT, não sei o que o conjunto da juvenude petista está formulando para esse processo do congresso da UNE. Mas, defendo uma composição dos setores que acreditam que vivemos no Brasil um processo de mudanças, independente das possíveis discordâncias sobre o nível e a velocidade dessas mudanças. Eu ajudei a construir a primeira composição da maioria da JPT com a UJS e outras juventudes importantes, e continuo achando que esse é o melhor caminho. Mas, acho também que a responsabilidade dessa nova geração que dirige a juventude petista hoje é maior do que a da minha gereção, pois se trata de preparar o movimento estudantil e parte significativa da nossa juventude para o embate de 2010, que vai decidir pela continuidade ou não desse processo de mudanças. Não é pouca coisa, e acho que JPT não pode se dar ao luxo de priorizar as diferenças tanto entre nós quanto com relação a UJS. O momento é de unidade.
Acesse a íntegra no blog Juventude em Pauta
Foto: Evandro Teixeira
Na longa entrevista concedida a onze.
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