Na longa entrevista concedida a onze lideranças de vários movimentos da juventude brasileira, publicada na íntegra nesta seção, o ex-ministro José Dirceu discorreu sobre temas da ordem do dia que preocupam os jovens militantes a um ano da sucessão presidencial de 2010.
Divida em três partes (leia as duas que publiquei anteriormente), o longo bate-papo contou com a presença de Leopoldo Vieira (blog Juventude em Pauta!) organizador do evento; Adriano Soares (CUT); Severine Macedo (PT); David Barros (CONJUVE); Josué Medeiros (historiador); Marcelo Gavião e Fernando Henrique (União da Juventude Socialista); Lúcia Stumpf (UNE); Danilo Moreira (Secretaria Nacional da Juventude); Fabiana Costa e Brenda Espíndola (Centro de Estudo e Memória da Juventude).
Na primeira parte, As novas bandeiras, Dirceu defendeu um maior protagonismo para as várias juventudes do país, avaliou os novos desafios impostos pela conjuntura nacional e explicou porque considera impossível o país crescer e se desenvolver sem uma política voltada à este segmento da população. Junto aos entrevistados, o ex-ministro também analisou a questão da educação e, principalmente, o papel da universidade brasileira.
Já em Uma plataforma para 2010, segunda parte da entrevista, destacaram-se duas questões centrais para os jovens: o acesso ao mundo do trabalho e a garantia (e ampliação) das conquistas para esse contingente durante a gestão Lula após a sucessão presidencial de 2010.
Nesta terceira e última parte da entrevista, Dirceu prevê um cenário favorável à ascensão das novas gerações na condução dos rumos do país e avalia o papel delas na luta política. Também analisa os questionamentos de sua geração, no governo Jango (1961-1964), deposto pelo golpe militar.
“Naquela época, nós fazíamos uma avaliação mais rigorosa e muito crítica da participação do PCB e do próprio João Goulart na resistência ao golpe militar. Considerávamos que uma das causas que levaram ao golpe era a visão pacifista, a estrutura partidária, a concepção de partido do PCB, o tipo de aliança feita com a burguesia nacional. Não estávamos totalmente certos, nem totalmente errados. Em parte, nossa crítica era válida”, afirma Dirceu.

Além desta entrevista, José Dirceu concedeu declarações à Brenda Espíndola, do Centro de Estudo e Memória da Juventude, sobre o Congresso de Ibiúna, para o projeto do CEMJ sobre a juventude dos anos 60.

[ José Dirceu ] A visão que tenho hoje é que (o governo Jango) foi uma grande conquista. O PTB era um partido novo naquele cenário político, naquela conjuntura histórica, era um partido progressista, nacionalista, desenvolvimentista e popular, ainda que não fosse o partido ideal. O que foi a UDN e grande parte do PSD? Eram partidos que representaram, grosso modo, a aristocracia mais atrasada, o PSD representava a aristocracia rural, a UDN as elites urbanas cívico-militares de direita, pró-americanas, anti-comunistas.
O governo João Goulart foi um avanço extraordinário, primeiro porque impediu um golpe (quando o presidente assumiu após a renúncia de Jânio Quadros), depois porque impediu um retrocesso. Tanto que tiveram que dar um golpe, de fato, para resolver a questão. Desde 54, eles (a direita conservadora) vinham tentando tomar o poder. Como não conseguiam nas urnas porque o povo nunca lhes deu o poder, eles só souberam conquistá-lo pelas armas. Tentaram dar um golpe através da implantação do parlamentarismo, o povo, por mais de 2/3 da população derrotou esse sistema em 1963, e o presidente Jango voltou a ter o poder inerente ao sistema presidencialista.
Agora, foi um governo de contradições, enfraquecido por inúmeras razões: falta de maioria no Congresso; força da direita no país; e também porque as Forças Armadas estavam profundamente divididas. Não quero nem dizer que amaioria das Forças Armadas fossem pró-americanas e de direita.
Naquela época, nós fazíamos uma avaliação mais rigorosa e muito crítica da participação do PCB e do próprio presidente João Goulart na resistência ao golpe militar. Nós considerávamos que uma das causas que tinham levado ao golpe era a visão pacifista, a estrutura partidária, a concepção de partido do PCB, o tipo de aliança que foi feito com a burguesia nacional. Não estávamos totalmente certos, nem totalmente errados. Em parte, nossa crítica era válida.
Tanto é que nós construímos uma hegemonia a partir das classes trabalhadoras e dos movimentos dos operários no final da década de 70, mas aí, já era outro Brasil que tinha uma classe operária inexistente nas décadas de 50 e 60. O Brasil já tinha passado por uma ditadura, uma concentração de renda e urbana, grande êxodo rural. Era outro país que não suportava mais uma ditadura e com a economia em crise.
A luta política criou as condições para a redemocratização do país e para darmos um salto até chegarmos na eleição do Lula.
[ David Barros ] Vindo para a nova geração, nós percebemos que um fenômeno importante: havia o paradigma de que essa geração de jovens que nasceu no final dos 70, meados da década de 80, é uma geração desmobilizada. Quebramos esse paradigma. A própria pauta do marco legal da juventude brasileira indica isso, o quanto nós avançamos para construir uma pauta consensual.
Essa é uma geração que já vem preparando o seu caminho para furar a fila na luta política lá na frente, construindo sua maturidade para começar, já de agora, a ser protagonista na luta política do país. Isso vem muito casado com o que acontece na América Latina, em que há também toda uma movimentação dessa geração.
Você, como um dirigente político referência da geração que hoje conduz esse país, qual o caminho desta transição geracional para que possamos garantir a continuidade deste projeto político que a América Latina vem construindo e é, na verdade, a solução para nós, esse novo modelo de desenvolvimento, de luta política.
[ Zé Dirceu ] É verdade o que você está dizendo. A juventude teve um papel importantíssimo no caso da Bolívia, do Equador, da Venezuela, em El Salvador. A presença da juventude em El Salvador é massiva, apesar de que os dirigentes da Frente Farabundo Marti, os comandantes da guerrilha, têm mais de 60 anos. Mas a juventude é um fator importante.
De certa forma, nós já estamos vivendo a transição geracional no Brasil. Estamos virando o século e a minha avaliação, todas as condições estão dadas para a juventude ocupar outro espaço no país. Os próximos 25 anos serão de desenvolvimento do conhecimento, da tecnologia e da cultura. Se o país quer sair da situação em que está, terá de impulsionar esse movimento.
É uma questão de luta política, colocada pelos jovens do passado e por estas gerações de agora. Vocês nos colocarão em algum lugar no futuro para que possamos desempenhar à altura as transformações do país.
A juventude tem todas as condições para isso no Brasil. Qualquer pesquisa mostra que existe uma grande identidade da juventude com o país e com o futuro do Brasil. Não é uma juventude desencontrada. Ela está desenraizada pelas péssimas condições de vida e pela falta de oportunidades, mas não está desconectada com o mundo e o futuro, pelo contrário, está completamente conectada.
Repito: dêem importância para a cultura - além da educação - que ela é o grande laço de união. Vocês podem perguntar o que tem de política aí? Tem tudo de política. A minha experiência de vida me provou isso.
Josué Medeiros é historiador e mestrando em Ciências Políticas pelo IUPERJ; David Barros é presidente do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) e Brenda Espíndola é membro do Centro de Estudo e Memória da Juventude
Veja também:
Na longa entrevista concedida a onze.
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