Fernando Nogueira da Costa
Os adversários, primeiro, caricaturam o que chamam de “lulismo” como ideologia de coesão social. Argumentam que ela extrapola os partidários militantes, simpatizantes ou eleitores do PT. Os votos nele para presidente, como era de se esperar, superaram todos os votos nos candidatos do PT para os legislativos. A aprovação pessoal e de seu governo é dada por cerca de 80% da população. Logo, extrapola em muito determinadas classes sociais ou facções políticas.
Segundo, os adversários comparam o “lulismo” com o “getulismo”: o velho se transforma e passa a ser porta-voz do novo. Mas é inevitável reconhecer que o getulismo como ideologia e como corrente política perdeu força ao longo de mais de meio século desde sua morte em 1954. O brizolismo, herdeiro de Vargas, foi corroído pelo excessivo personalismo do líder e pela ascensão de outra estrela, a do PT. Lula emergiu no novo sindicalismo alijando da cena sindical os velhos pelegos da herança getulista.
O propósito da analogia com o getulismo é assustar com o fantasma do terceiro mandato. O “queremismo” foi o movimento político surgido em 1945 com o objetivo de defender a permanência de Getúlio Vargas na presidência da República. A expressão se originou do slogan utilizado pelo movimento: "Queremos Getúlio". Significava o adiamento das eleições presidenciais, com o lançamento da candidatura de Vargas, e a convocação da Assembléia Nacional Constituinte. No entanto, todas as declarações de Lula, reconhecendo a importância de votar a alternância (ou não) de poder, contrariam essa hipótese.
Terceiro, os adversários sugerem que o carisma e a empatia do Lula, tanto com as massas, quanto com os empresários, são sintomas do seu populismo. Para a elite brasileira, basta referir-se ao "povo", dizer alguma “demagogia” e acentuar o carisma “popular” para que a pecha de populismo seja imputada.
O populismo é expressão política que encontra representantes tanto na esquerda quanto na direita. Mas, em São Paulo, surgiram apenas políticos populistas de direita, como Adhemar de Barros (”rouba, mas faz”) e Paulo Maluf (“estupra, mas não mata”). Eles tinham como alvo de sua ação política a exploração das carências dos extratos menos organizados da população urbana, com os quais estabeleciam relação empática baseada na defesa de políticas autoritárias de "moral e bons costumes" e/ou "Lei e Ordem". O maior representante do populismo de direita no Brasil talvez tenha sido o ex-presidente Jânio Quadros (“fi-lo, porque qui-lo”).
No populismo, toda ação política é referida à pessoa do líder populista, que se coloca idealmente acima de todas as classes. Lula, porém, tem lado, claramente assumido. Embora ele negocie com todas as classes sociais, de acordo com sua boa tradição de ex-líder sindicalista, traz elemento novo na política brasileira.
Antes, as classes populares, inclusive a classe operária, não se representavam diretamente na política, enfrentando ou transacionando com os interesses das demais classes. Eram manipuladas por líderes ou partidos que vinham de “classes superiores”. Pela primeira vez, na história brasileira, inegavelmente (daí muito da reação elitista contra sua cinebiografia), possuem representante autêntico. Quando ele propõe políticas públicas para mudar a vida dos pobres, está falando de dificuldades que realmente viveu.
O Estado brasileiro era visto como expressão das classes dominantes, as classes populares até se mobilizavam contra ele, mas não no sentido de participar dele, de orientá-lo para contemplar também seus interesses. Elas ainda não se expressavam através do seu próprio partido, o Partido dos Trabalhadores, mas sim por “movimentos” de composição política heterogênea, lideranças personalistas ou partidos dirigidos por “nomenklatura”.
Quarto, os adversários atribuem a apreciação da moeda nacional "ao populismo cambial, já que o câmbio valorizado é bom para reeleger candidatos”. É errado falar em “populismo cambial” na reeleição do Lula, quando, ao contrário do que ocorreu na reeleição do FHC, havia superávit em conta corrente, superávit comercial e aumento de reservas. Com câmbio flexível, a apreciação do real foi resultado desses fluxos comercial e de entrada de capital positivos, inclusive por decisões externas dos importadores e investidores estrangeiros.
Finalmente, dentro dessa linha dedutiva que acaba na acusação de “populismo cambial”, aparece a defesa dos interesses concretos dos seus adversários. A apreciação cambial favorece o controle da inflação e a manutenção do poder de compra popular. A depreciação cambial beneficiaria, principalmente, industriais sem produtividade competitiva com produtos estrangeiros e exportadores que preferem o ganho fácil com preços internacionais abaixo da concorrência do que o investimento difícil em economia de escala. No passado, via manipulação do mercado cambial, sempre se privilegiou essa elite e se prejudicou o povo. Se a atual inversão da prioridade social é “populismo”, a anterior era o “elitismo” rejeitado nas urnas em 2002 e 2006.
A reação adversária tenta desmoralizar a novidade política brasileira estabelecendo a equação política: lulismo = getulismo = populismo. É falsa, porém, assusta ainda mais aos elitistas, principalmente em São Paulo.
Fernando Nogueira da Costa é professor Livre-docente Associado do IE-UNICAMP, foi Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal no primeiro mandato do Governo Lula. Contato:
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