Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
Luis Felipe Pondé tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Ciências da Religião e Filosofia da Religião, atuando principalmente nos seguintes temas: religião, mística, santidade, angústia, modernidade/pós-modernidade e epistemologia. É colunista exclusivo do Jornal Folha de S. Paulo. Publicou, em 29 de março de 2010, o artigo “O Olhar da Câmara”. Sua leitura é muito reveladora de “O Olhar da Direita” não só sobre o cinema brasileiro, tema principal do artigo, mas, principalmente, sobre o que ganhou hegemonia ideológica entre os colunistas desse jornal, depois da morte do publisher Octavio Frias de Oliveira.
Devido ao Oscar de “melhor filme estrangeiro”, recebido por “O Segredo dos Seus Olhos”, ele afirma que o cinema argentino é melhor do que o nosso. Evidentemente, eventual premiação internacional não pode ser o único critério, pois o cinema brasileiro também já recebeu alguns prêmios estrangeiros e isto não o tornou nem melhor nem pior do que o cinema argentino.
Por que cineastas brasileiros não conseguem fazer filmes como os argentinos? Resumidamente, Pondé critica em nosso cinema cinco pontos: 1. É imaturo; 2. sem tradição estética; 3. obcecado por certos temas monótonos; 4. quase amador em termos de conteúdo; e 5. se vê como instrumento de transformação social.
Sintomaticamente, Pondé não busca nenhuma razão sócio-cultural que justificaria sua opinião de que há superioridade inata em “los hermanos”. Entretanto, para os próprios argentinos profissionais do setor, o reconhecimento internacional conquistado por seu cinema se deve basicamente a três fatores: diversidade, incentivo estatal e profissionalização, consequência direta do aumento no número de escolas de cinema.
Em média, a cada ano são produzidos cem longas no país. A Argentina tem importante tradição cultural. O país conta com 878 salas de cinema. Era inevitável que o cinema argentino explodisse artisticamente. O incentivo estatal é outro item imprescindível. A lei modificada em 1994 permitiu que se possa produzir com relativamente escasso risco comercial. Se isso gera, por um lado, excessiva dependência do Estado, por outro, permite que se possa fazer filmes sem pressões comerciais excessivas. Portanto, enquanto lá criou-se incentivo estatal, aqui se tinha fechado a Embrafilme no governo de Collor, o ícone da era neoliberal tão saudosa para intelectuais individualistas tais como Pondé.
De acordo com estudo do Instituto de Políticas Culturais da Universidade Nacional de Tres de Febrero, a produção cinematográfica argentina se converteu no principal objetivo da política cultural estatal dos últimos anos. De fato, o Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais dispôs de gasto equivalente ao de toda a Secretaria de Cultura. Também ao longo das últimas duas décadas, institutos de ensino dedicados ao cinema se multiplicaram, estimando-se 15.550 estudantes no país vizinho.
As escolas de cinema possibilitaram o surgimento de camadas de diretores e técnicos muito preparados. Ao se transformar em estudo universitário, o cinema passa por democratização e vai se solidificando.
Em vez de considerar essa política pública argentina, o olhar da direita minimiza a proteção social e maximiza o esforço individual. Pondé prefere levar ao pé da letra a boutade do grande escritor argentino, o conservador Jorge Luís Borges, pronunciada em 1973: “Existem somente os indivíduos: tudo o mais – as nacionalidades e as classes sociais – é mera comodidade intelectual”. Por isso, ao negar que a arte deva ser política, salienta que “mesmo quando o for, deve ir além desse lero-lero de luta de classes”.
O individualista abomina a política enquanto ação coletiva em defesa de determinados interesses. Diz: “a política como tema da arte acaba sempre banal como a política o é na realidade: arranjos pragmáticos de violência e interesses”.
O cineasta argentino Pablo Trapero, cujo filme ganhou o Oscar, tem explicação mais realista sobre o sucesso de seus filmes: “Os filmes se aproximam muito da vida cotidiana e ultrapassam o evento artístico.” Será que Pondé acha que a cinebiografia “Lula, o filho do Brasil” não se aproxima da vida cotidiana?
Fernando Nogueira da Costa é professor Associado do IE-UNICAMP. Foi Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal de 2003 a 2007. Blog: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail:
Este endere�o de e-mail est� protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter� de estar activado para poder visualizar o endere�o de email
Economia e Desenvolvimento
Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa.
Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
Fernando Nogueira da Costa
veja mais [+]



Comentrios[1]