(artigo publicado no jornal Brasil Econômico em 20 de maio de 2010)
Atolado até a cintura nas consequências mais graves da crise econômica mundial, o Velho Continente nos tem enviado apenas más notícias nos últimos tempos. Atenção especial à Grécia, que graças ao descontrole fiscal e à especulação chegou, em 2009, a déficit e endividamento públicos de 13,6% e 115% do PIB, respectivamente. Foi o primeiro país europeu a afundar, mas estão na fila Itália, Irlanda, Portugal e Espanha.
A “solução” que os europeus devem buscar é semelhante à conjuntura que os latinoamericanos conheceram muito bem nos anos 1990: tomada de empréstimos astronômicos por meio de pacotes de ajuda, ofensiva contra direitos trabalhistas, eliminação de programas sociais, aumento de impostos e a subsequente estagnação econômica com alta do desemprego (na Espanha, já chega a preocupantes 20% da população). Tudo em nome da austeridade fiscal da política neoliberal tacanha que causou o colapso econômico.
Grande imprudência: essencial, neste momento, seria renegociar a dívida dos países em dificuldades, com prazos longos e deságio dos títulos para que não haja necessidade de causar aperto nas finanças que têm, sempre, impactos sociais muito negativos. Essa operação poderia ser tranquilamente conduzida pelo Banco Central Europeu ou em comum acordo entre os países integrantes da UE em Bruxelas.
É irônico que os países da América do Sul, que já se viram obrigados pelo Fundo Monetário Internacional a adotar posturas parecidas em troca de crédito (caro, aliás!) para salvar suas economias, vivam momento absolutamente distinto.
No Brasil, temos expectativa de crescer até 7% em 2010 graças às políticas industriais e de desenvolvimento adotadas pelo Governo Federal. O consumo segue crescimento que ronda os 10% ao ano, e, com ele, a geração de emprego se mantém em alta e já acumula 12 milhões de novas vagas desde 2003 —com todo o aparato legal necessário para proteger e ampliar os direitos dos trabalhadores.
A ação do governo também protagoniza a geração de emprego para manter o fluxo de crédito e o investimento em grandes e necessárias obras de infraestrutura. Esse círculo virtuoso de desenvolvimento levou a classe média a englobar mais de 50% da população brasileira após sensível redução da pobreza e da miséria. Se tomarmos, por exemplo, a renda das famílias negras, o aumento chegou a 222% em oito anos.
A Europa, hoje, caminha para se tornar a América do Sul de ontem, e é incogitável que os chefes de Estado europeus desconheçam os fracassos de México, Bolívia e Argentina, entre outros, ao tentar seguir a cartilha do FMI. O continente precisa aprofundar a integração econômica a partir da adoção de políticas fiscais similares. Além de coordenação política ampla e legítima que permita ações anticíclicas no continente, para evitar danos à população e ao setor produtivo. Caso contrário, não se atacará o cerne do problema e podem surgir novos focos de instabilidade social.
Essa ação ainda prescinde de lideranças sólidas, para que não esteja em risco a própria Zona do Euro como a conhecemos. E, por conseguinte, boa parte do sistema econômico mundial.


