Vladimir Herzog: a foto manipulada

A matéria de Lucas Ferraz  O Instante Decisivo, publicada pela Folha de São Paulo no domingo, dia 5 de fevereiro,  é a prova do que todos sempre soubemos: Vladimir Herzog foi assassinado nas dependências da Operação Bandeirantes – Oban – ou Dói-Codi, na rua Tutóia,  bairro do Paraíso, em 25 de outubro de 1975.  Nela, o autor da foto, Silvaldo Leung Vieira, fotógrafo concursado da polícia civil, conta, finalmente, como registrou o momento que contribuiu para mudar os rumos da história do Brasil, enfraquecendo a ditadura – que insistia em declarar que Vlado, o nosso Vlado, havia se suicidado.

A foto de Silvaldo rodou o mundo e mostra claramente que foi montada, com certeza após a sua morte na tortura. Silvaldo, na matéria, diz que aquela foi sua primeira aula “prática” na polícia, onde entrou por concurso público naquele mesmo ano. “Tudo foi manipulado e infelizmente acabei fazendo parte dessa manipulação” – ele afirma à Folha, mostrando arrependimento e dizendo que só dias depois entendeu o que estava acontecendo. Na verdade, Silvaldo é testemunha – agora conhecida – de um dos mais bárbaros crimes cometidos pela ditadura.

Fui da redação do Vlado. Era editora de Internacional do Hora da Notícia, telejornal da TV Cultura que Vlado dirigia quando foi assassinado. Entrei em 1973, dois anos antes da morte dele, quando Vlado era o bom “fechador” do jornal, ainda dirigido por Fernando Pacheco Jordão. Vlado era bom demais na montagem dos filmes – a TV ainda usava filmes – e nos ensinava, chamava, mostrava como se fazia um bom corte, como se poderia aproveitar o áudio da melhor maneira. Dessa época, de suas aulas de cinema e jornalismo, ali na moviola com o mestre Lalau, aprendi a delicadeza da sequência nos enquadramentos, e a arte do corte seco, que tem que ser preciso, fino, quase imperceptível, sem pulos na imagem, para que o telespectador compreenda bem a informação da matéria do começo até o final. Até hoje prefiro o corte seco – por mais efeitos que ofereça hoje a tecnologia.

Vlado era tão apaixonado pelo que fazia que, quando assumiu a direção do telejornal, chamou cada um de nós e fez um “sermão de incentivo” a cada um, propondo criatividade nas imagens e no texto, com checagem rigorosa das informações. Para mim, especialmente já no final da guerra do Vietnã, mostrava e comentava a importância das imagens que recebíamos pela AP e UPI (não tenho certeza se já eram da Visnews), principalmente as de Peter Davis – que depois as juntou no magnífico filme Corações e Mentes.  Peter, enquanto registrava as cenas terríveis da guerra, nos dava a emoção dos protagonistas através do enquadramento primoroso. “O enquadramento também é informação. Ele pode definir uma matéria” – costumava me dizer. As cenas famosíssimas da garotinha queimada correndo nua por uma estrada, fugindo do bombardeio de napalm são uma lição de telejornalismo. E ajudaram, junto com as do massacre de Mi Lai e outras, a colocar um final naquela guerra insana. Jamais esqueci essa lição. Passo esse ensinamento adiante até hoje, dizendo que em uma matéria de TV existe muito mais do que “imagens de cobertura”.

Foi por aí que Vlado conseguiu alguns filmes da BBC, que também cobria a guerra, mas procurava um pouco mais do que os repórteres americanos. Outras cenas fantásticas, outras aulas preciosas. Uma, muito famosa, é a da velhinha muito magra, com seu chapéu típico, agachada num cantinho da parede de bambu e barro, tremendo de medo diante da câmera, pensando que a equipe inglesa era inimiga. Mas repórter não é soldado. Foi até ela e a levantou, dando-lhe dignidade. Examinamos esse trabalho, quase quadro a quadro. “Que beleza, que beleza!”, dizia o Vlado diante do zoom lento do cinegrafista, que garantiu toda a cena sem cortes, e também do gesto do repórter.

Foi por conta desses filmes ingleses – que incluía uma antiga entrevista de Ho Chi Minh, que os dedo-duros passaram a chamar a TV Cultura de TV Viet Cultura. Quem é que não se lembra? Até o dia 24 de outubro, quando ele nos chamou em sua sala, um a um, para dizer que a polícia estivera em sua casa. Clarice foi até a TV. Paulo Markun, nosso chefe de reportagem, também tinha sido preso. Na redação há uma semana, Paulo Nunes, que era assessor de imprensa do II Exército, foi para casa com Vlado – pelo que me lembro dormiu lá – e de manhã acompanhou-o até a Oban, Dói-Codi, o diabo de nomes que eles inventavam para os centros de tortura. Os companheiros que estiveram presos com Vlado dizem que escutavam seus gritos. Depois veio o silêncio. A morte.

Era sábado, 25 de outubro de 1975. Nesse dia, Silvaldo Leung Vieira foi chamado para fazer a foto que ele agora assumiu, como sua primeira “aula prática”. Descrevi acima o que eram aulas de vida, de quem amava a vida e, portanto, jamais se suicidaria.

Quem foi o “professor” de Silvaldo? Quem “ajeitou” o corpo de Vlado? O que lhe contaram sobre aquele homem morto? Quem comandava a operação macabra? Quem mais ele fotografou? Quem eram os chefes? Quem obedecia suas ordens?

Com certeza a matéria de Lucas Ferraz, que nos trouxe um pouco de luz sobre a morte de Vladimir Herzog, já faz parte do acervo que será examinado pela Comissão de Verdade e Justiça.

Vladimir Herzog: a foto manipulada

{mosimage}Rose Nogueira

A matéria de Lucas Ferraz  O Instante Decisivo, publicada pela Folha de São Paulo no domingo, dia 5 de fevereiro,  é a prova do que todos sempre soubemos: Vladimir Herzog foi assassinado nas dependências da Operação Bandeirantes – Oban – ou Dói-Codi, na rua Tutóia,  bairro do Paraíso, em 25 de outubro de 1975.  Nela, o autor da foto, Silvaldo Leung Vieira, fotógrafo concursado da polícia civil, conta, finalmente, como registrou o momento que contribuiu para mudar os rumos da história do Brasil, enfraquecendo a ditadura – que insistia em declarar que Vlado, o nosso Vlado, havia se suicidado.

A foto de Silvaldo rodou o mundo e mostra claramente que foi montada, com certeza após a sua morte na tortura. Silvaldo, na matéria, diz que aquela foi sua primeira aula “prática” na polícia, onde entrou por concurso público naquele mesmo ano. “Tudo foi manipulado e infelizmente acabei fazendo parte dessa manipulação” – ele afirma à Folha, mostrando arrependimento e dizendo que só dias depois entendeu o que estava acontecendo. Na verdade, Silvaldo é testemunha – agora conhecida – de um dos mais bárbaros crimes cometidos pela ditadura.

Fui da redação do Vlado. Era editora de Internacional do Hora da Notícia, telejornal da TV Cultura que Vlado dirigia quando foi assassinado. Entrei em 1973, dois anos antes da morte dele, quando Vlado era o bom “fechador” do jornal, ainda dirigido por Fernando Pacheco Jordão. Vlado era bom demais na montagem dos filmes – a TV ainda usava filmes – e nos ensinava, chamava, mostrava como se fazia um bom corte, como se poderia aproveitar o áudio da melhor maneira. Dessa época, de suas aulas de cinema e jornalismo, ali na moviola com o mestre Lalau, aprendi a delicadeza da sequência nos enquadramentos, e a arte do corte seco, que tem que ser preciso, fino, quase imperceptível, sem pulos na imagem, para que o telespectador compreenda bem a informação da matéria do começo até o final. Até hoje prefiro o corte seco – por mais efeitos que ofereça hoje a tecnologia.

Vlado era tão apaixonado pelo que fazia que, quando assumiu a direção do telejornal, chamou cada um de nós e fez um “sermão de incentivo” a cada um, propondo criatividade nas imagens e no texto, com checagem rigorosa das informações. Para mim, especialmente já no final da guerra do Vietnã, mostrava e comentava a importância das imagens que recebíamos pela AP e UPI (não tenho certeza se já eram da Visnews), principalmente as de Peter Davis – que depois as juntou no magnífico filme Corações e Mentes.  Peter, enquanto registrava as cenas terríveis da guerra, nos dava a emoção dos protagonistas através do enquadramento primoroso. “O enquadramento também é informação. Ele pode definir uma matéria” – costumava me dizer. As cenas famosíssimas da garotinha queimada correndo nua por uma estrada, fugindo do bombardeio de napalm são uma lição de telejornalismo. E ajudaram, junto com as do massacre de Mi Lai e outras, a colocar um final naquela guerra insana. Jamais esqueci essa lição. Passo esse ensinamento adiante até hoje, dizendo que em uma matéria de TV existe muito mais do que “imagens de cobertura”.

Foi por aí que Vlado conseguiu alguns filmes da BBC, que também cobria a guerra, mas procurava um pouco mais do que os repórteres americanos. Outras cenas fantásticas, outras aulas preciosas. Uma, muito famosa, é a da velhinha muito magra, com seu chapéu típico, agachada num cantinho da parede de bambu e barro, tremendo de medo diante da câmera, pensando que a equipe inglesa era inimiga. Mas repórter não é soldado. Foi até ela e a levantou, dando-lhe dignidade. Examinamos esse trabalho, quase quadro a quadro. “Que beleza, que beleza!”, dizia o Vlado diante do zoom lento do cinegrafista, que garantiu toda a cena sem cortes, e também do gesto do repórter.  

Foi por conta desses filmes ingleses – que incluía uma antiga entrevista de Ho Chi Minh, que os dedo-duros passaram a chamar a TV Cultura de TV Viet Cultura. Quem é que não se lembra? Até o dia 24 de outubro, quando ele nos chamou em sua sala, um a um, para dizer que a polícia estivera em sua casa. Clarice foi até a TV. Paulo Markun, nosso chefe de reportagem, também tinha sido preso. Na redação há uma semana, Paulo Nunes, que era assessor de imprensa do II Exército, foi para casa com Vlado – pelo que me lembro dormiu lá – e de manhã acompanhou-o até a Oban, Dói-Codi, o diabo de nomes que eles inventavam para os centros de tortura. Os companheiros que estiveram presos com Vlado dizem que escutavam seus gritos. Depois veio o silêncio. A morte.

Era sábado, 25 de outubro de 1975. Nesse dia, Silvaldo Leung Vieira foi chamado para fazer a foto que ele agora assumiu, como sua primeira “aula prática”. Descrevi acima o que eram aulas de vida, de quem amava a vida e, portanto, jamais se suicidaria.

 Quem foi o “professor” de Silvaldo? Quem “ajeitou” o corpo de Vlado? O que lhe contaram sobre aquele homem morto? Quem comandava a operação macabra? Quem mais ele fotografou? Quem eram os chefes? Quem obedecia suas ordens?

Com certeza a matéria de Lucas Ferraz, que nos trouxe um pouco de luz sobre a morte de Vladimir Herzog, já faz parte do acervo que será examinado pela Comissão de Verdade e Justiça.

 

Rose Nogueira é jornalista e Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo.

 

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